Oposição mundial aos EUA cresce 7 pontos, diz pesquisa

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Além de provocar crises políticas internas nos Estados Unidos, a guerra americana contra o terrorismo está gerando também uma crescente oposição em todo o globo, segundo pesquisa realizada nesta semana pelo instituto GlobeScan. Apenas 29% dos entrevistados disseram que os EUA influenciam positivamente o mundo, uma queda de sete pontos percentuais com relação ao ano anterior.

Segundo a pesquisa, a média dos que opinavam que os EUA têm uma influência positiva no mundo caiu de 36% para 29%.

O estudo foi encomendado pela BBC World Service ao instituto GlobeScan e seus parceiros em cada país (no Brasil, a pesquisa foi feita pelo Instituto Market Analysis) e realizado entre 3 de novembro de 2006 e 9 de janeiro de 2007.

A política americana no Oriente Médio foi uma das mais contestadas pelos entrevistados: 73% desaprovam a ação dos EUA na região.

A avaliação do Brasil sobre a política internacional americana é igualmente ruim: 57% concordam que os Estados Unidos têm uma influência negativa no mundo, enquanto apenas três em cada dez cidadãos (29%) pensam o contrário.

Ainda entre os brasileiros, mais de quatro em cada cinco pessoas (85%) reprovam os EUA na guerra do Iraque e 80% criticam a crise entre os EUA e o Irã devido ao programa nuclear persa. Além disso, 76% rejeitam o tratamento dado aos detentos nos EUA, 75% desaprovam sua posição em relação ao programa nuclear norte-coreano e 73% condenam a relação com o aquecimento global.

Em todo o mundo, 67% das pessoas entrevistadas também desaprovam o comportamento americano com os detentos de Guantánamo em Cuba, 60% rejeitam a relação com o programa nuclear do Irã, 56% desaprovam a relação com o aquecimento global e 54% recriminam a posição dos EUA com o programa nuclear da Coréia do Norte.

Foram entrevistadas 26.381 pessoas na Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Egito, França, Alemanha, Reino Unido, Hungria, Índia, Indonésia, Itália, Quênia, Líbano, México, Nigéria, Filipinas, Polônia, Portugal, Rússia, Coréia do Sul, Turquia, Emirados Árabes e Estados Unidos. A margem de erro por país varia aproximadamente de 2,5 a 4 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Negatividade

Divulgação

O historiador da Universidade do Wisconsin Jeremi Suri, 34
De acordo com o historiador americano Jeremi Suri, 34, doutor em história internacional pela Universidade de Yale e professor associado do Departamento de História da Universidade do Wisconsin (EUA), a negatividade do mundo está influenciando diretamente a política e a diplomacia americanas.

Em entrevista à Folha Online, por telefone, da Itália, o professor disse que o efeito das críticas será sentido nas eleições presidenciais americanas de 2008. Segundo ele, pela primeira vez em muito tempo –provavelmente desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)– a opinião de estrangeiros sobre os EUA será uma questão que os candidatos à Presidência terão que abordar.

“E o que muitos candidatos vão argumentar é que os EUA prejudicaram sua capacidade de influenciar regiões estratégicas como o Oriente Médio porque gastaram seu tempo fazendo inimigos”, diz Suri. “Quem quer que chegue ao poder após as eleições, seja democrata ou republicano, vai certamente fazer um esforço público maior para conquistar aliados no exterior”, acrescenta.

Mas mesmo antes das eleições, a visão negativa da comunidade internacional em relação aos EUA já está tendo efeitos no governo. Suri diz que membros do Departamento de Estado americano estão revendo a forma como a diplomacia do país é conduzida no exterior, e até o treinamento dos diplomatas está mudando. “Professores que ensinam profissionais a trabalharem com relações exteriores estão repensando até a forma de treinar as pessoas”, afirma o historiador.

Ao ser apresentado à pesquisa, Suri afirmou que três fatores são primordiais para despertar a “antipatia” mundial pelos EUA. O primeiro, indubitavelmente, é a guerra global contra o terrorismo empreendida pelo governo americano, assim como a invasão do Iraque.

Em segundo lugar, o historiador afirma que a preocupação com o aquecimento global também causa grande oposição internacional contra os EUA. Por último, Suri diz que o mundo pós-Guerra Fria, no qual há muitos questionamentos sobre o papel internacional dos EUA no globo, também gera contrariedade fora da América do Norte.

O historiador defende que nos últimos anos ficou mais claro para os americanos os motivos imediatos da oposição internacional dirigida ao país, mas que ainda há muitas questões profundas que não são compreendidas pelo grande público.

“Está claro que o resto do mundo não concorda com a maneira que os EUA definem sua guerra contra o terrorismo. Mas, por exemplo, os americanos não entendem que pessoas em outros países não gostam da forma como presumimos uma certa superioridade. Os americanos nem sequer reconhecem que eles assumem essa posição de superioridade.”

Para Suri, essa posição fica clara quando a questão ambiental é discutida a nível internacional. “Assumimos que temos o direito de consumir mais recursos naturais do que os outros, assim como o de criar mais poluição do que os outros, e é claro que o resto do mundo discorda. E os americanos não compreendem isso”, afirma.

Ainda assim, a pesquisa demonstrou que a opinião dos próprios americanos com relação ao papel internacional dos EUA está piorando. Cerca de 57% dos americanos afirmaram que os EUA têm papel positivo no mundo, o que representa uma queda de seis pontos percentuais com relação ao ano anterior. Em comparação à mesma pesquisa feita há dois anos, a queda é de 14 pontos percentuais.

Alianças

Suri afirma que a continuidade da oposição internacional aos EUA terá como conseqüência uma mudança na formação de alianças pelos americanos. “Seremos obrigados a reordenar o poder político. Não acredito que o mundo vai ficar mais conflituoso para os EUA, mas que a natureza das relações de poder vai mudar.”

O professor disse ainda que a “má impressão” que os outros países do mundo têm em relação aos EUA é dirigida contra as políticas governamentais, e não necessariamente contra os cidadãos americanos. Ele lembra que as opiniões podem mudar rapidamente. “O que vai acontecer nos próximos quatro anos vai ser muito importante para as relações dos EUA com o resto do mundo. A tendência captada nessa pesquisa específica pode ser interrompida”, avalia.