Papa canoniza Frei Galvão; Igreja espera atrair fiéis

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O papa Bento 16 chegou por volta das 9h e percorreu o Campo de Marte

Uma multidão assistiu à cerimônia de canonização de Frei Galvão pelo papa Bento 16 no Campo de Marte, em São Paulo, na manhã desta sexta-feira.
“Declaramos e definimos como santo o beato Antônio de Sant’Anna Galvão. E o inscrevemos na lista dos santos. E estabelecemos que em toda a igreja ele seja devotamente honrado entre os santos”, disse o papa durante a missa de canonização.

Durante a cerimônia, Sandra Grossi de Almeida e seu filho Enzo, beneficiado pelo que a Igreja considerou o milagre que transformou Frei Galvão em santo, levam ao altar as relíquias de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão.

A Igreja Católica e observadores independentes esperam que a medida ajude o catolicismo no Brasil, com aumento do número de fiéis e peregrinações.

“Isso é muito significativo para o povo, que vai reagindo com mais peregrinações, mais movimentos”, afirmou à BBC Brasil o ex-arcebispo de São Paulo Dom Cláudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero.

Números conflitantes

Segundo a Secretaria Municipal de Turismo, o número de pessoas que “circulou” pelo Campo de Marte durante a missa de canonização chegou a 1,2 milhão.

A estimativa foi feita com base em dados da Arquidiocese de São Paulo, do Exército e da Polícia Militar, de acordo com a porta-voz Marta Gucciardi.

O Exército estimou o número de presentes entre 800 mil e um milhão. “Com certeza mais de 700 mil”, disse um porta-voz da corporação.

Ele afirmou que os “números finais”, porém, seriam divulgados pela Secretaria Municipal de Turismo.

Mais cedo, a Polícia Militar havia afirmado que até às 7h30 cerca de 200 mil pesoas haviam passado pelas catracas do Campo de Marte, mas que o sistema de contagem havia apresentado porblemas e que o número de presentes no momento poderia ser maior.

Pela madrugada

O papa Bento 16 chegou ao Campo de Marte por volta das 9h para a cerimônia, mas na madrugada desta sexta-feira centenas de fiéis já estavam no Campo de Marte, em vigília e orações.

“Galvão era zeloso, sábio e prudente, uma característica de quem ama de verdade. A conversão dos pecadores era a grande paixão de nosso santo”, disse o papa durante a cerimônia.

Bento 16 também fez críticas aos meios de comunicação e voltou a reiterar a importância do casamento.

“Devemos dizer não aos meios de comunicação social que ridicularizam a instituição do casamento e a virgindade antes do casamento”, disse.

Mas o pontífice também reconheceu a importância da mídia, ao agradecer a presença dos fiéis no Campo de Marte.

“Agradeço a presença de cada um e de cada uma, quer sejam moradores desta grande cidade ou vindos de outras cidades e nações. Alegro-me que através dos meios de comunicação, minhas palavras e as expressões do meu afeto possam entrar em cada casa e em cada coração. Tenham certeza: o papa vos ama, e vos ama porque Jesus Cristo vos ama.”

FREI GALVÃO

Primeiro santo nascido no Brasil, em Guaratinguetá (SP)
Viveu entre 1739 e 1822
Frei Franciscano
Cerca de cinco mil curas milagrosas são atribuídas a ele
Fundou o Mosteiro da Luz, em São Paulo (SP) e lá foi sepultado

Guaratinguetá

Nascido em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, em 1739, o frade franciscano Antonio de Sant’Anna Galvão fundou o Mosteiro da Luz, onde milhares de fiéis buscam suas “pílulas milagrosas”, que vêm em um papelote minúsculo com a inscrição de uma frase em latim de devoção à Virgem Maria.

Foram os pequenos bilhetinhos que, segundo a fé católica, curaram milagrosamente Daniela Cristina da Silva de uma encefalopatia hepática. O suposto milagre levou à beatificação do frei em 1998.

Nove meses de orações e novenas e mais a ingestão das pílulas deram à Sandra Grossi de Almeida e ao filho Enzo o “milagre duplo” em 1999, com a superação de uma gravidez de alto risco e a cura de uma doença grave do recém-nascido.

Os primeiros documentos que pediam a canonização de Frei Galvão começaram a ser preparados em 1938. Mas o processo só conseguiu ir adiante em 1991, com a participação da irmã Celia Cadorin, da Congregação das Irmãs da Imaculada Conceição, também postulante da causa da Madre Paulina (canonizada em 2002).

Em dezembro do ano passado, a confirmação do segundo milagre atribuído ao frei Galvão pelo Vaticano abriu o caminho para a canonização do beato, 185 anos após sua morte.

Santos

Para o cardeal Saraiva Martins, que preside o departamento do Vaticano responsável pelas beatificações e santificações, a canonização do beato brasileiro será “uma data histórica, memorável na história do Brasil, na história da igreja brasileira”.

“Madre Paulina foi canonizada em 2002. Mas, apesar de ter morado muitos anos no Brasil, ela era italiana”, disse.

Segundo o cardeal, 33 brasileiros estão na lista da congregação dos candidatos à santificação.

Em outubro, ele beatificará Albertina Berkenbrock, em Tubarão (SC), e o coroinha Adílio, em Frederico Westphalen (RS). Em novembro, será a vez da irmã Lindalva, na Bahia.

“O Brasil precisa de mais santos”, afirmou Saraiva Martins. “Todos nós precisamos de santos, como modelos de humanidade.”

A Igreja Católica atravessa um momento delicado em toda a América Latina, com a perda de fiéis, especialmente para os movimentos neopentecostais.

No Brasil, o Vaticano calcula que 84,5% da população seja católica (segundo dados de 2005). Em 1980, eram 90,12%.

“Nós temos no Brasil uma evasão de católicos acentuada nos últimos anos: ao redor de 1% ao ano”, disse dom Cláudio Hummes.

A embaixadora do Brasil na Santa Sé, Vera Machado, também acredita que a confirmação de uma santidade 100% nacional trará resultados positivos ao catolicismo brasileiro.

“A própria visita do papa e a canonização do Frei Galvão terão o impacto desejado pela Igreja”, disse. “Resultarão no aumento do número de fiéis.”