Para analistas, EUA terão 2007 ´sem recessão´

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Para especialistas, porém, economia norte-americana não terá grande expansão

A economia americana não deverá viver uma recessão, mas também não conseguirá um crescimento significativo em 2007, segundo avaliação de vários analistas econômicos dos Estados Unidos ouvidos pela BBC Brasil.

Nos últimos dias, a economia do país tem dado sinais mistos sobre os rumos que poderá tomar. O crescimento econômico no primeiro trimestre deste ano, de 0,6%, foi o mais baixo nos últimos quatro anos, mas, por outro lado, o índice de inflação ficou dentro das projeções do Federal Reserve (Fed). Mais 157 mil postos de trabalho foram criados em maio, mantendo a taxa de desemprego em um estável índice de 4,5%.

“Por enquanto, estamos presos em um padrão de crescimento relativamente baixo, no qual não veremos nem uma recessão, nem uma forte expansão econômica”, prevê Christian Weller, economista-sênior do Center for American Progress. “O crescimento econômico deverá ficar entre 1% e 2%, o desemprego poderá aumentar, mas será um em uma proporção pequena. Isso deverá marcar o restante de 2007.”

Sem estagflação
Jarrod Bernstein, economista sênior do Economic Policy Institute, de Washington, vislumbra um cotexto semelhante e julga disparatadas as comparações com o que se viveu na década de 70, quando as economias mundiais, inclusive a americana, enfrentaram elevadas inflações aliadas a uma alta taxa de desemprego, o que constitui a chamada estagflação.

“Essa projeção não faz sentido, porque a estagflação é um cotexto no qual você tem elevada inflação e alto desemprego. E, atualmente, nós não temos nenhum dos dois”, opina.

“Uma recessão é improvável”, diz Bernstein, mas ele acrescenta que “quando você pergunta se a economia vai bem, a resposta é que depende de qual economia você está falando”.

“Os mercados financeiros estão indo bem, nem tanto devido à força da economia americana, mas mais graças à liquidez global. Nós temos registrado um bom crescimento em diferentes áreas, mas o problema é que a expansão que temos obtido tem se dado no topo da pirâmide. Essa expansão diminui a medida que se desce”, afirma.

Irwin Kellner, professor de economia da Hofstra University, de Long Island, no Estado de Nova York, endossa essa visão. “A taxa de desemprego está baixa e criação de novos postos de trabalho segue bem, mas os trabalhadores não estão dando conta dos aumentos de energia, seguro saúde e alimentação”, comenta.

Mercado imobiliário
Ele acrescenta que a “implosão do mercado imobiliário” também está contribuindo fortemente para o declínio econômico, além de atingir inúmeros americanos.

O setor imobiliário tem sido um dos mais vulneráveis da economia do país. A crise vivida nessa área, que representa 25% do PIB americano, tem vitimado principalmente proprietários de classe média que contraíram hipotecas cujas elevadas taxas de juros acabam levando-os à inadimplência.

Há previsões de que mais de 1,5 milhão de americanos poderão perder suas residências por não conseguir pagá-las. Com isso, um número muito grande de moradias chega ao mercado.

Mas o número de propriedades sendo oferecidas acaba excedendo em muito o de potenciais compradores. Com a oferta muito acima da demanda, ocorre uma depreciação de valores.

O presidente do Fed, Ben Bernanke, afirmou recentemente que o aumento de suspensões de pagamentos de hipotecas não representa uma ameaça séria para a economia americana. Mas os analistas têm uma visão distinta.

´Bolha´
Irwin Kellner crê que o pior já passou, mas julga que a chamada “bolha imobiliária” poderá atingir a economia americana de inúmeras formas.

“Já passamos pelo olho do furacão, pela pior fase da desaceleração, mas a implosão do mercado imobiliário vem causando uma contração no setor de construção, uma queda de salários de trabalhadores do setor de habitação e a redução de preços de produtos domésticos e de materiais usados para construir casas”, afirma.

“Além disso, o declínio de preços de moradias na maior parte do país está reduzindo a capacidade do proprietário de usar sua casa como um cofrinho, de pegar um refinanciamento de hipoteca para compensar a sua baixa renda mensal”, acrescenta.

Até recentemente, os preços dos imóveis estavam valorizados e vários proprietários estavam hipotecando seus imóveis e obtendo vultosos empréstimos junto a empresas especializadas, que recorrem a investidores para levantar a quantia necessária.

Com a redução do valor dos imóveis, o valor desses empréstimos também caiu consideravelmente. Muitos proprietários passaram também a contrair empréstimos a juros elevados e empresas fizeram financiamentos sem promover uma checagem rigorosa do histórico de crédito daqueles para quem emprestava. Isso gerou inúmeros “calotes”, que também afetaram as empresas de crédito, muitas das quais quebraram.

“O declínio de preços de moradias deve continuar nos próximos meses, diminuindo a capacidade de proprietários de usar suas residências como um cofrinho que compensa os seus baixos salários. A implosão da bolha também deverá levar a uma queda de salários dos trabalhadores da indústria de construção e uma redução de preços de produtos domésticos e materiais usados para construir casas”, opina Kellner.

“A crise imobiliária causou a perda de até um ponto percentual do crescimento anual do PIB. Se a crise irá continuar, ninguém sabe ao certo. Mas, a meu ver, ainda não vimos o fim do poço em se tratando do setor imobiliário”, diz Jarred Bernstein.

O analista acrescenta: “Acredito que os preços seguirão caindo nos próximos trimestres. Até que consigamos conter essa situação das hipotecas, nossa economia vai continuar no mesmo lugar em que ela se encontra”.