Histórico

Pobre mais rico, rico mais pobre no Brasil de hoje

Empobrecimento da classe média vem sendo usado como instumento de campanha eleitoral

O empobrecimento da classe média brasileira está ajudando o presidente Lula a mostrar, na atual campanha eleitoral, números indicando a redução da desigualdade social no Brasil. Proclamando-se uma espécie de “pai dos pobres” o candidato do PT vende a imagem de que sua administração está levando comida para a mesa de milhões que antes passavam fome, mas omite o fato de que os salários estão minguando cada vez mais como proporção da renda nacional.

“O governo protegeu a renda de quem estava abaixo da linha de pobreza e promoveu a proletarização da classe média”, afirma o economista Márcio Pochmann, da Unicamp. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (PNAD), a renda dos 10% da população brasileira que estão no topo da pirâmide social caiu 10,9% entre 2001 e 2004, enquanto a renda dos 40% mais pobres – puxada pelos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família – cresceu 10,2% acima da inflação no período.

Entre os 10% mais “ricos” do Brasil, a pesquisa inclui todas as famílias que, em setembro de 2004, viviam com mais de R$ 853,11 mensais por pessoa – ou seja, a maior parte da classe média, que ganha salários que mal pagam suas despesas diárias. Empregados do setor público ou privado, esses brasileiros sofreram uma acentuada queda de renda nos últimos anos, principalmente em 2003, fruto da crise econômica.

Já a base inferior da pirâmide social do País, formada por pessoas que pouco ou nada têm a perder, foi beneficiada pelos programas assistenciais do governo. É o caso dos 3 milhões de brasileiros que em 2001 tinham renda média mensal de apenas R$ 1 e que agora, com o Bolsa-Família, passaram ao patamar de R$ 6. Conforme Pochmann, os números da PNAD, usados por alguns estudiosos para mostrar uma melhoria na distribuição de renda do País, refletem apenas o universo dos assalariados e famílias dependentes do dinheiro do governo, passando ao largo da renda dos “verdadeiramente ricos”.

Tanto que, pela PNAD, a renda do trabalho representa mais de 70% do valor recebido pelas famílias entrevistadas, enquanto o rendimento de aplicações financeiras e dividendos não passa de 0 9% do total – ou menos de R$ 8 bilhões anuais, num País em que só os juros mobilizam mais de R$ 150 bilhões anuais.

“O pagamento de juros é uma transferência de renda como outra qualquer e, como tal, deve ser levada em consideração no debate sobre concentração de renda”, afirma o economista Rafael Barroso autor de um estudo que questiona as análises de renda divulgadas pelo governo, sem os efeitos dos juros.

Os números das Contas Nacionais e da Receita Federal também mostram que os lucros das empresas e os rendimentos financeiros estão crescendo muito mais do que os salários gerados pela economia. Entre 1994 e 2003, por exemplo, a participação da remuneração dos empregados no PIB caiu de 40,1% para 35,6%, enquanto o chamado “excedente operacional” (onde estão embutidos os ganhos de lucros, juros e aluguéis) pulou de 38,4% para 43%.

Nos Estados Unidos, a título de comparação, a participação dos salários no PIB se situa em torno de 70% há mais de 40 anos. Na Europa, alguns países registraram recentemente queda nessa proporção, mas ela não baixa de 65%.