Prêmio AcheiUSA de Literatura vai para Pompano Beach

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Glaucia Bastos escreveu conto que mescla ficção e fatos de sua vida na América

Quando chegou aos Estados Unidos, há 14 anos, a jovem Glaucia Bastos, então com 17 anos, trabalhou com limpeza e sonhava com uma vida melhor. Hoje, paralegal do escritório Wites & Kapetan, em Lighthouse Point, ela admite que não pode reclamar da vida, pois conquistou muito mais do que imaginava quando vivia em Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. E usou um pouco de sua experiência de imigrante para escrever o conto com o qual participou do 3º Prêmio AcheiUSA de Literatura e acabou conquistando o primeiro lugar. “Na verdade, misturei um pouco da minha vida com fatos observados na minha infância e adolescência, em Campos”, disse a vencedora do concurso, citando os detalhes dos bóias-frias que comenta no texto.

Glaucia mora em Pompano Beach e sempre participou de concursos de literatura. Filha e irmã de professoras de Língua Portuguesa, ela sempre gostou de ler e admira escritores como Casemiro de Abreu e Carlos Drummond de Andrade. Com relação ao prêmio de mil dólares, Glaucia diz que o dinheiro não poderia vir em melhor hora, já que o Natal está chegando. “Com certeza vou fazer muito bom proveito dele”, brinca a paralegal, que cuida dos casos criminais e de trânsito no escritório. Parabéns Gláucia!


Vida de Alice – uma Bóia-Fria na América*

Enquanto o sol se deita no horizonte de Deerfield Beach, a mulher estreita os olhos através do vidro do furgão branco, onde mais quinze criaturas se amotinam. Nas mãos ainda calejadas da enxada, sustenta, agora, bem mais leve, uma vassoura. Ao fundo, o píer testemunha a chegada triunfal dos sobreviventes de mais um longo dia de penoso trabalho. No coração, acalenta a saudade doída de sua gente, de sua terra natal…

-Alice! Tá na hora fia. Três horas. O ômbus num espera.

Ergueu-se num salto, lavou o rosto, engoliu o café ralo, tentando empurrar a bucha de pão pela goela abaixo. Beijou os três filhinhos que dormiam na esteira. A lua salpicava de estrelas o chão do casebre pelos furos do telhado de zinco. Acenou para a Mãe. A marmita arrumada e a garrafinha de água jaziam sobre a mesinha. Andaria a pé pelas estradas de chão do Brejo Grande, distrito de Campos dos Goytacazes, norte do Rio de Janeiro, por uns quatro km, até encontrar a condução que a levaria até a Fazenda Soledade. Quantas fileiras de cana-de-açúcar cortaria naquele dia? O leite acabara havia tempo. O choro faminto dos meninos lhe atormentava a alma na madrugada. O pequeninho ardia em febre e nenhum dinheiro para remédio. Dos capatazes, do patrão, no mercy: No pain, no gain.

Fugira cedo de Mundéus com Elias, convencida de que largaria de vez a sina de seus pais. Habituada à miséria, custou a perceber que trocara alhos por bugalhos. Bebedeira e pancadaria se tornaram rotina na vida daquela mulher de peão. O traste sumiu no mundo lhe deixando os filhos para sustentar.

Mais um dia no calor sufocante do sol que esturrica a camuflada pele branca! O enorme chapéu de palha. As roupas compridas e trapos que protegem das cobras e das palhas da cana que dilaceram a carne. A enxada e a foice que lhe deformam pouco a pouco as mãos. A água de beber, quente. A bóia, fria.

Ao chegar a casa naquele trágico dia, percebe que o pior se deu: Luquinha. Meningite, disseram. Caixãozinho velado e depositado no meio do pasto. Restavam dois filhos, a Mãe e uma lembrança vazia para chorar. Elevando os olhos para o Céu, em profundo desespero, anseia ter uma nova esperança. Não perderia mais rebento algum. Por Deus que não.

No fundo da gaveta do criado-mudo, um papel amarelecido com letras mal escritas e quase apagadas. Um telefone. Rosa. Amiga de infância lá de Mundéus, referência das redondezas. Tomou um avião acompanhando um gringo indo se aventurar lá pras bandas do tal de Estados Unidos. Enricara. No orelhão da venda, após inúmeras tentativas frustradas, ofegante: – Alô! Rosa??! ALICE!!

Trocaram verbos e pelo Verbo tudo se fez. Dólares emprestados e solidariedade. Documentos do Luís do Cartório; terno vermelho doado por D. Ana. Da Luzia, cabelos cortados, escovados, maquiagem grossa para esconder as infâmias do sol. Unhas postiças pintadas de branco!

– Tá muito linda fia. Parece uma madama de verdade!

Aperta os moleques contra o peito, abraça a Mãe que recebe um envelope com dinheiro e o número da Rosa. Lágrimas.

Aeroporto Internacional Tom Jobim. Decola o avião. Lágrimas…

Desembarque em Miami. Firma os olhos para o fiscal no guichê da Imigração. Veio a passeio. Reza para não ter de escrever coisa alguma, pois as grossas juntas dos dedos não permitiriam que segurasse com destreza qualquer caneta. Sorriso franco. You are welcome!!! Na bagagem, a Saudade, poucas roupas e um tanto muito de ESPERANÇA. No saguão do aeroporto, Rosa. Alívio. Abraços. Táxi.
Em seu novo lar, doce latinidade – um passeio pela América esquecida: brasileiros, bolivianos, mexicanos, porto-riquenhos, cubanos “desertores”. Dois haitianos com seu sotaque: “Zabulê zabulê zabulê…”- que é como lhe soava aos ouvidos a sua conversa. Todos em busca de uma oportunidade. Todos fugindo da discrepância social gerada por sistemas econômicos injustos. Todos segregados, marginalizados, sonhando em retornar um dia a seus países levando na mala um futuro melhor para os seus. Buscam o que os dólares do Tio Sam podem proporcionar. Da cozinha, também partilhada com os roomates, ao final do dia, há sempre para quem chega um cheiro temperado de miojo – pelo menos não se trata da bóia fria e azeda lá do canavial.

Sua intimidade, que por hora se dá com vassouras, panos de chão e produtos eficientes de limpeza- que se a Mãe conhecesse!- não a impossibilita de sonhar com as casas e mansões maravilhosas ou prédios residenciais e executivos esplêndidos do Clean, pois seus olhos nunca alçaram tanta boniteza. Deslumbra-se com o luxo e não raro esbanjamento da América, saboreando como fiel expectadora tudo o que o dólar pode comprar quando se é próspero e bem sucedido. Pelo menos os filhos agora comem carne todos os dias e freqüentam escola particular. Investe o que ganha na educação deles. Ah, e a Mãe pôde finalmente fazer o seu tratamento dentário.

O furgão branco recheado de gente pára em frente ao condomínio onde reside em Fort Lauderdale. O cheiro no interior do automóvel lembra o deixado pelos companheiros ao final do dia na lida com a cana no antigo ônibus. Pelo menos, os atuais trazem nas carteiras dinheiro mais substancial que lhes proporciona, ainda que muito trabalhem, alguma dignidade.

A mulher acena para os que continuam a viagem. Apoiada no cabo da vassoura perde seus olhos na direção do furgão que se afasta, contrastado com o estupendo cenário do pôr-do-sol na Flórida. Suspira profundamente. Vira-se devagar e caminha rumo às escadas.

* Conto escrito por Glaucia Bastos, que foi o vencedor do 3º Prêmio AcheiUSA de Literatura