Recessão aumenta o número de divórcios, inclusive entre os imigrantes brasileiros nos EUA

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A crise financeira não está quebrando apenas os bancos. As turbulências e as incertezas da economia têm, do mesmo modo, causado profundo impacto na vida pessoal dos casais, que sem motivação para lutar pela reconstrução da vida a dois acabam optando pelo caminho curto do divórcio. Estudos mostram que a recessão aumenta o número de separações e no caso dos imigrantes – brasileiros, inclusive – isso é sentido de forma ainda mais acentuada, devido a um conjunto de fatores. Afinal, problemas como desemprego e falta de recursos costumam afetar primeiro os estrangeiros, que normalmente vivem num país estranho sem parentes e amigos.

“Quando muitas pessoas estão perdendo suas casas, seus carros e seus empregos, a sensação de abatimento e desesperança é latente, gerando uma série de problemas para a vida familiar. As relações estão também em crise”, confirma Márcia da Silva, da Winner Women Association, que tem experimentado este drama através das mulheres que participam da entidade. Ela conta que ainda existe um certo tabu em falar da influência negativa da falta de dinheiro nos casamentos e percebeu, num recente encontro do grupo, que as participantes contaram sobre filhos, dieta e sexo, mas sequer tocaram no tema financeiro. Márcia destaca que, com a economia atual, muitos homens (imigrantes, principalmente) perderam seus empregos e a mulher passou a ser o arrimo da família, o que gera ainda mais conflitos em virtude da visão da sociedade de que o macho é sempre o provedor.

A psicóloga Karina Lapa tem percebido que, especialmente nos últimos 18 meses, muitos casamentos têm agonizado em decorrência da recessão. Pelo menos 60% dos clientes que ela atende em seu consultório, o South Florida Counseling Agency, chegam com este problema – e, na grande maioria, são mulheres insatisfeitas porque se tornaram o bode expiatório da insatisfação masculina com a situação econômica. “É muito difícil compartimentalizar os problemas. Quando apenas um setor de nossas vidas está ruim, a nossa tendência é achar que tudo não presta. E aí a pessoa mais próxima é o alvo principal das frustrações”, analisa Karina, que também detectou um alto número de casos extra-conjugais nos últimos tempos.

Para ela, os brasileiros que vivem nos Estados Unidos estão perdendo o conceito de família e a capacidade de comunicação, que marcam a cultura individualista e imediatista do americano. Nesta situação é que faz diferença ser imigrante. “Torna-se fundamental a presença de alguém neutro, seja um amigo, um parente ou mesmo um profissional da área, para mediar e aconselhar o casal neste momento difícil. Um boa conversa ainda pode reconstruir uma relação”, explica a psicóloga, lamentando que muitas vezes nossa comunidade não tenha a quem recorrer.

Nesse sentido, a Primeira Igreja Batista da Flórida, em Pompano Beach, tem procurado fazer a sua parte na área de assistência. No programa ‘Celebrando a Recuperação’, que ajuda pessoas com problemas que vão desde a dependência química até a depressão,  há um grupo específico para lidar com divorciados. Mas para o pastor Silair Almeida, o principal trabalho é o da profilaxia: “Temos realizado com frequência os encontros de casais, onde as relações entre marido e mulher são debatidas abertamente entre pessoas que vivenciam as mesmas experiências e o resultado tem sido fantástico”, enfatiza, lembrando que neste sábado a igreja vai receber mais de 180 casais para mais uma fase do encontro.

Outro serviço colocado à disposição da comunidade é a presença em tempo integral na igreja da conselheira cristã Deborah Almeida, para atendimento terapêutico. Silair ressalta que em recente pesquisa percebeu que 58% dos casais em processo de divórcio alegam que o desgaste foi provocado pela questão financeira. “As pessoas precisam entender que a incerteza do amanhã realmente gera estresse, mas as decisões tomadas de cabeça quente nunca são as melhores. O melhor é procurar ajuda e tentar resgatar o melhor da relação”, disse o pastor.

Esta é, também, a sugestão de Márcia: “Por pior que esteja o relacionamento, o casal deve criar momentos de convivência a dois. Uma simples caminhada ou assistir a um filme pela tevê não custa nada e é um ótimo investimento para a relação”, ensina. Ela acrescenta que a crise, apesar de ruim, pode fortalecer ainda mais um casamento, desde os problemas que foram gerados pela recessão dos que já existiam antes. “Assim, fica fácil refletir e perceber se o amor ainda existe”, finaliza.