Reforma imigratória coloca católicos e republicanos em campos opostos

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As propostas afetam as estreitas relações entre a Igreja Católica e os republicanos conservadores que serviram para garantir o segundo mandato a George W. Bush

O debate pela reforma imigratória nos Estados Unidos está bombardeando as relações dos republicanos com os católicos, um cobiçado grupo de votantes indecisos que compreende quase um quarto parte do eleitorado nacional.

Embora os bispos católicos e vários políticos republicanos oponham-se ao aborto, geralmente divergem em relação a aspectos específicos da reforma imigratória. Os líderes do clero católico rejeitam – e em alguns casos estão até desafiando – as propostas de legisladores do governante Partido Republicano que endurecem a política sobre a imigração.

Os católicos são, no geral, conservadores em temas pessoais como casamento, mas tendem a ser liberais nos problemas de justiça social, o qual limita a convocatória dos dois maiores partidos e deixa os membros desta religião como “indigentes políticos”, disse o reverendo James L. Heft, presidente do Instituto de Estudos Católicos Avançados da Universidade do Sul da Califórnia. “Gostaria de ver mais democratas em favor da vida” e “republicanos em favor da justiça social”, comentou Heft.

A imigração não é o primeiro assunto que divide o Partido Republicano e os dirigentes católicos. O papa João Paulo II se opôs à guerra liderada pelos Estados Unidos no Iraque à pena de morte, por exemplo. Mas as novas diferenças surgem uns meses antes de que grande parte dos membros do Congresso, controlado pelos republicanos, querem reeleger-se, e quando o Partido Republicano e os católicos parecem mais pertos do que nunca.

Voto católico incerto – Mas o impacto do debate sobre a imigração é incerto. Os católicos, que antigamente eram fortementes democratas, voltaram-se para o Partido Republicano durante os últimos 25 anos. Assim que os católicos melhoraram suas posições financeiras, começaram a votar menos politicamente e mais motivados pelos interesses econômicos. A preferência dos democratas pelo direito ao aborto também os aproximou dos candidatos republicanos.

O presidente George W. Bush, que é metodista, ganhou 52 por cento do voto católico em 2004, enquanto 47 por cento optaram pelo candidato democrata John F. Kerry, que é católico praticante. Perto das eleições, os bispos advertiram os legisladores católicos que se arriscavam a “cooperar com o demônio” se votassem pelos candidatos que apoiavam o aborto. Os líderes da Igreja insistiram que esta posição era alheia à política partidista, embora no momento em que fizeram suas declarações foi sem dúvida um favor para os republicanos, pois Kerry apoiava o direito ao aborto.

Passeatas – Mas, agora, muitos destes mesmos bispos acusam os legisladores republicanos de falta de compaixão em relação aos imigrantes ilegais. O arcebispo de San Luis, Raymond Burke – que em 2004 anunciou que não daria a santa comunhão a Kerry – figurou entre os numerosos dirigentes religiosos que organizaram passeatas a favor de dar aos trabalhadores indocumentados uma oportunidade de conseguir a cidadania.

Burke assinalou que os católicos americanos foram imigrantes e que, ao receber bem os imigrantes, “obedecemos o mandamento de Nosso Senhor, o qual nos disse que, quando acolhemos o estranho, acolhemos o próprio Cristo”.

O representante republicano James Sensenbrenner ganhou a oposição católica ao patrocinar o projeto legislativo aprovado pela Câmara dos Deputados em dezembro, o qual busca converter em delito grave a permanência ilegal dos imigrantes no país e perseguir como delinqüentes aqueles que ajudarem os indocumentados.

Chamado à desobediência – O cardeal de Los Angeles Roger Mahony anunciou que seus sacerdotes desobedeceriam uma lei deste tipo.
Cerca de 30 por cento dos quase 65 milhões de católicos americanos são hispânicos e a Igreja tem uma extensa rede de serviço social para os imigrantes.

Em uma pesquisa da AP-Ipsos, os católicos se mostrararam mais propensos do que os protestantes e os evangélicos brancos a permitir que os imigrantes sejam trabalhadores temporários e a rechaçar que seja declarado delito grave a permanência de pessoas sem documentos nos Estados Unidos.

Defesa republicana – Leonard Leo, presidente adjunto do Comitê Nacional Republicano para assistência aos católicos, qualificou as declarações de Mahony como exageradamente ásperas e argumentou que Bush “tem feito um bom trabalho para situar onde deve estar o Partido Republicano neste assunto e creio que sua visão é muito consistente com a que tem muitos católicos”.

Bush é favorável a uma legislação que ofereça eventualmente a cidadania a milhões de indocumentados, ao mesmo tempo em que se reforça a segurança nas fronteiras. “O problema é que o termo ‘justiça’ é algumas vezes mal interpretado para significar o que deveria basicamente ignorar a lei e conceder aquilo que deve ser visto como uma solução caridosa”, disse Leo. “A área de imigração é muito mais complicada do que isto”, considerou.