Romney: “Não me preocupo com os muito pobres”

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Por Antonio Tozzi

Esta frase bem que poderia estar na boca de Justo Veríssimo, personagem criado por Chico Anysio para simbolizar o protótipo do político brasileiro corrupto. Mas a frase foi dita na América do Norte e por um político americano. Mitt Romney, talvez ainda inebriado com a vitória obtida na Flórida, respondeu à repórter Soledad O’ Brien, da rede CNN, que não se preocupava com os muitos pobres dos EUA, porque eles têm um colchão social que lhes ampara e, se precisar, vou consertar isto.

Na verdade, ele quis dizer que sua preocupação como possível futuro presidente era com o conjunto dos cidadãos do país e não apenas com um segmento, no caso, os paupérrimos que formam a base da pirâmide social. Para ser justo, ele disse também que não se preocupava com os muito ricos também.

Evidentemente, nem ele nem ninguém precisa preocupar-se com os ricos. Pelo contrário, a maioria procura por eles em troca de dinheiro, favores e posições. Já os mais pobres são aqueles que necessitam ser amparados com políticas sociais que possam recuperá-los e não deixá-los à margem da sociedade. Por isto, a declaração foi totalmente infeliz. Sobretudo num momento em que vem aumentando significativamente o percentual de pobres nos Estados Unidos.

Pior ainda, o plano de impostos proposto por Romney beneficia exatamente o grupo que não precisa de ajuda: os ricos grupo que, por sinal, ele integra. Está tornando-se ridícula a insistência dos parlamentares e políticos republicanos em defender uma posição contrária ao aumento dos impostos para a camada mais rica da população americana, algo que os próprios ricos consideram totalmente justo, conforme têm declarado reiteradamente Bill Gates e Warren Buffet, os dois bilionários mais ricos do mundo. Buffet recentemente deu entrevista às TVs do país ao lado de sua secretária, que ironicamente paga ao IRS (Secretaria da Receita Federal dos EUA) o dobro que o próprio bilionário recolhe aos cofres públicos. É justo isto?

Para justificar a oposição, os republicanos argumentam que o aumento dos impostos dos ricos não solucionaria o problema do déficit orçamentário do país. É verdade, mas cálculos dos economistas comprovaram que, caso seja aprovada a proposta do presidente Barack Obama de correção do imposto de renda dos mais ricos, o montante arrecadado corresponderia a cerca de 20% deste total – ou seja, um percentual considerável com uma ação que não representaria nenhum investimento por parte do governo e nem oneraria os pagadores de impostos.

Os republicanos, por sua vez, clamam pelos cortes de gastos do governo. Entretanto, quando Obama anunciou uma redução no orçamento militar e bélico muitos republicanos fizeram muxoxos e disseram que o presidente está descuidando-se da segurança e da defesa do país. Deveriam era cumprimentar o presidente porque não faz mais sentido manter um orçamento gigantesco num momento em que os soldados americanos deixaram o Iraque e até meados de 2013 serão encerradas as operações de combate no Afeganistão para que os governos constituídos destes países possam guiar os rumos das nações.

Mas, voltando a Mitt Romney, ele vem cometendo uma série de gafes que podem comprometer seu desempenho eleitoral. Num debate em dezembro do ano passado, desafiou o então candidato Rick Perry a fazer uma aposta de $10,000. Depois, em New Hampshire, numa referência às seguradoras, declarou: Gosto de ser capaz de demitir pessoas. Comentário infeliz que foi bastante explorado por seus adversários republicanos.

Respondendo a perguntas sobre desigualdade social, no mês passado, ele disse que aqueles que falam isto são invejosos. E, ao divulgar seu imposto de renda, os eleitores puderam entender o que ele estava dizendo, uma vez que ficaram sabendo que o percentual de impostos pago por ele é menor do que 15%. Para piorar, todos descobriram que ele mantém dinheiro depositado em paraísos fiscais, uma maneira legal para evitar a taxação sobre o capital, mas completamente imoral para quem pleiteia a presidência do país. É o caso clássico do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

Depois de tudo isto, fica cada vez mais difícil alguém confiar em Mitt Romney para gerir o destino dos Estados Unidos durante quatro anos.
Pensando bem, você votaria nele?