Tonia Elizabeth entrevista o superintendente educacional de Miami-Dade

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Português Alberto Carvalho é quem comanda as escolas no condado

Por Tonia Elizabeth
tonia.elizabeth@hotmail.com

Alberto
Alberto Carvalho, o português que comanda a Educação no condado de Miami-Dade,
está cheio de ideias para melhorar o aprendizado dos alunos em todas as séries

Ele é educado, elegante, inteligente e carismático. Tem aquele tom nobre europeu e ao mesmo tempo uma informalidade quase que brasileira, que deixa qualquer um à vontade. Apesar de ocupar a mais alta posição na hierarquia da Educação no condado de Miami-Dade, é quase impossível chamá-lo de senhor.  Mesmo há tanto tempo fora da sua terra natal, Lisboa, em Portugal,  ele nos concede uma entrevista exclusiva em português. Alberto M. Carvalho é uma inspiração para qualquer imigrante.

Chegou aos Estados Unidos em 1982, como qualquer visitante, ao terminar o segundo grau em Lisboa. Veio cheio de ambições. Nasceu em uma casa antiga, em Bairro Alto, de uma família humilde, pobre, com seis crianças. Alberto foi a primeira pessoa da família a terminar o segundo grau e a ter curso universitário.

Quem entra em seu escritório agora pode pensar que foi tudo muito fácil, mas Alberto passou pelas mesmas dificuldades enfrentadas pelos imigrantes em geral: Trabalhei em restaurantes, construção, trabalhos mal remunerados… Mas sempre valorizei a educação. Tive a sorte de conhecer um congressista de Broward,  E. Clay Shaw,  que me ajudou a ter a oportunidade de um visto para poder trabalhar e estudar.

O superintendente de Escolas do Condado de Miami-Dade fez  a Faculdade de Biologia e Ciências Biomédicas: Era para ser um doutor. Seria bom, mas não gostei muito.  Em seguida, trabalhou por três anos como professor numa escola secundária, dando aulas de física, química e biologia, mas logo foi promovido a assistente de diretor de uma escola.  Depois, fui para outra escola, e desenvolvi alguns programas especiais, que eram muito radicais para a época e por isto chamaram a atenção de algumas pessoas em Washington. Em seguida, passei a trabalhar em programas federais, administrando fundos federais de aproximadamente meio bilhão de dólares, continuei a ser promovido e, finalmente, há três anos, fui nomeado para o cargo de superintendente de Escolas de Miami-Dade, responsável pelo quarto maior sistema de educação deste país.

Novo cargo

Mas Alberto não pára aí. Em janeiro, ele toma posse como presidente da Associação Latina de Administradores e Superintendentes Latinos (ALAS). Ele explica a importância da entidade: É a maior associação dedicada ao ensino de latinos neste país. É uma organização que protege os direitos  dos administradores e superintendentes de escolas latinos. E a maior parte dos latinos deste país  não é lusitana portugueses ou brasileiros,  mas sim hispânica. Esses latinos falam espanhol  e estão concentrados na parte oeste dos Estados Unidos, como Califórnia, Texas, Arizona e  é uma grande honra ter sido eleito e nomeado presidente da ALAS.

Alberto pretende desenvolver novos programas na Associação e explica a razão: Os latinos já representam hoje a maior porcentagem de estudantes nas áreas urbanas dos Estados Unidos.  O superintendente faz uma projeção de que entre 2020 e 2023 os latinos vão ser a maioria, e acrescenta: Ser o presidente de uma organização destinada a desenvolver programas e avançar os interesses dos latinos é realmente importante e, para mim, o fundamental é a representação dos latinos.

Programas de idiomas

Alberto Carvalho E programas como os das escolas Ada Merritt e Doral High devem expandir-se, como informa o superintendente: Acabamos de fechar um acordo bilateral entre o Governo de Portugal e o School Board de Miami-Dade para a expansão da língua portuguesa, por meio do Instituto Camões. Na semana que vem, vou reunir-me com o presidente de Portugal e o ministro das Relações Exteriores, em Washington. Começamos também negociações com o Brasil para a expansão da língua portuguesa,  mas tem sido um processo muito mais lento. Não tem sido muito fácil, admite Alberto.

Quero ter parceiros internacionais no programa de expansão do português, como temos para  os idiomas francês, espanhol, alemão e italiano. Temos contratos bilaterais com esses países e eles mandam professores para cá e desenvolvemos programas. Quero fazer o mesmo com o português. Temos no momento a Ada Merritt, a Miami Beach Senior High e a Doral Senior High. Mas gostaria de criar um ligação entre o programa da Ada Merritt até o fim do high school. Espero que, com a ajuda do Governo de Portugal e do Brasil também, possamos desenvolver esse projeto de forma rápida. A meta de Alberto é concretizar o plano no ano que vem. 

O sul da Flórida não possui uma grande concentração de portugueses e o superintendente revela que a razão do programa é realmente a população brasileira da área: É uma das populações que vêm crescendo rapidamente.  O desenvolvimento econômico do Brasil  é um do mais rápidos deste hemisfério. Miami é uma cidade internacional e já é tempo de não ignorar a população que fala português. O programa de expansão do português é basicamente para os brasileiros. São famílias com crianças que querem que seus filhos aprendam o português (ou que não percam o idioma) e outras, que não falam português, mas querem que os filhos aprendam uma outra língua.

Sobre a possibilidade de eliminação do visto de imigração, Alberto comenta: Se isso acontecer, vai afetar-nos de forma positiva. Já somos grandes parceiros comerciais. O governador da Flórida, Rick Scott, acaba de ir ao Brasil com amigos meus, membros do Beacon Council de Miami, para buscar novas oportunidades de negócios. Áreas de comércio livre, ou free trade, como as do Estados Unidos e Canadá ou as existentes entre os países europeus, acho que vão cada vez mais tornar-se realidade neste hemisfério. Miami é cheia de diversidade étnica, linguística e cultural a integração e expansão por motivos econômicos e culturais serão coisas boas para área e vão favorecer programas como o de expansão do português.

Métodos de avaliações de professores

Em relação ao polêmico programa Pay per Performance, Alberto conta que a aceitação não poderia ter sido melhor. Ele revela que 84 por cento dos professores votaram a favor do plano e informa: “á liberamos 14 milhões de dólares de pagamento por desempenho aos professores. Os bônus vão de 500 até cerca de 28 mil dólares.

Ao ser perguntado sobre a possível injustiça com os professores que trabalham em áreas carentes ou escolas mais problemáticas do sistema, ele explica que o plano atua de forma muito justa, comparando áreas e escolas equivalentes: Conseguimos negociar o plano de forma muito respeitosa e considerando todos esses fatos. Agrupamos escolas magnets, escolas de certas áreas ou com certas características, escolas do ETO (Education Transformation Office), que têm aproveitamento mais baixo, e juntamos num mesmo grupo, e assim por diante isso foi muito bom, pois não colocou os professores de áreas privilegiadas e excelente aproveitamento contra aqueles de escolas de áreas carentes, com baixo aproveitamento.

O superintendente acrescenta que o plano também dá oportunidade aos professores de ganharem incentivos em quatro modalidades diferentes: o aproveitamento total da escola; por equipe de trabalho; desempenho pessoal na turma; ou salário de distinção do superintendente, divididos em seis áreas.  Segundo ele, professores que trabalham em áreas muito carentes não têm de competir com os que trabalham em áreas privilegiadas demais.

Sobre a confusão que muitos fazem entre hispânicos (os que falam espanhol) e latinos (os que falam idiomas originários do Latim), ele explica: O termo latino é muito mais global, inclui muito mais gente. No sudeste dos Estados Unidos,  com influência cubana, usa-se mais a palavra hispânico; no Oeste, com mais influência mexicana, usa-se latino.  Mas argentinos, brasileiros, portugueses, italianos, somos latinos. Essa organização vai abranger todos os latinos, de vários idiomas, mas sabemos que a maioria aqui é hispânica.
 
Bem, ao menos, por enquanto…


Tonia Elizabeth é jornalista e também locutora. Atuou como produtora de companhias de publicidade e canais de televisão a cabo e satélite. Foi hostess do programa Entertainment Tonight por dois anos, na versão brasileira. É também cantora de Brazilian Jazz e gravou e fez shows com artistas consagrados.