Tubarão!

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Tubarão

Quando me perguntam se não tenho medo de tubarões nos mergulhos, digo que tenho mais receio de outros animais marinhos. Foram raras as vezes que me senti ameaçado por tubarões, a maior parte aconteceu à noite e bastou eu sair da água. Nunca levei mordida de tubarão (toc-toc-toc) em compensação, já me arrebentei inúmeras vezes com ouriços do mar e outros “bichinhos”.

Aliás, todo colecionador de conchas que mergulha tem histórias sobre o assunto–uma das “melhores” aconteceu com um amigo meu, Antonio Celso Prado. Ele estava mergulhando no litoral norte de São Paulo quando escorregou nas pedras ao sair da água. Adivinhem aonde ele aterrissou de bunda? Em uma pedra lotada de ouriços. Ele me contou que a dor só não era maior que a raiva das risadas de sua esposa enquanto tentava tirar os espinhos. O nosso maior problema é que precisamos mergulhar mais “pesados”, ou seja, com mais lastro para podermos observar melhor o fundo sem ser carregados pela correnteza. Aí, os joelhos e cotovelos são os primeiros a ser atingidos pelos ouriços–a testa também, às vezes entramos em cavernas ou tocas, e ao olhar para cima….cráu!

Existe um tipo de concha que vive embaixo de ouriços do mar–descobri isso aqui em São Paulo, na Ilhabela. Obviamente me espetei inúmeras vezes, mas os ouriços aqui não são tão venenosos como em outros lugares. Em uma viagem ao Mar Vermelho, lembrei disso e procurei ouriços para ver se havia alguma concha embaixo. A espécie de ouriço que encontrei tinha espinhos de um palmo e meio, finos como uma agulha, cheios de veneno. Mesmo com luvas e uma faca de mergulho, espetei a ponta do dedo–a dor foi tanta, que desisti da ideia de procurar outros.

Mas não são só os ouriços que causam acidentes, tem muita coisa no mar que a maioria não faz nem ideia que existe. E não estou só dizendo sobre o mar do norte da Austrália, onde existem vários animais peçonhentos que podem matar rapidamente, como a vespa-do-mar, um tipo de água-viva letal ao contato (Chironex fleckeri), o polvo-de-anéis-azuis (Hapalochlaena maculosa), ou ainda a estrela do mar coroa-de-espinhos (Acanthaster planci ), também daquela região. No mundo todo tem animais perigosos no mar.

Sabia que algumas esponjas do mar podem machucar muito, e causar sérias crises de reações alérgicas? Tudo bem que a maior parte dessas esponjas vivem em profundidade e raramente você terá contato com alguma, tipo alguns panacas como eu que dragam em busca de conchas. Elas tem micro espículas que ao entrar na pele causam irritação profunda, que pode durar anos mesmo com tratamento.

Mesmo no Brasil tem alguns hidroides (parecem pequenas “arvorezinhas”) que queimam a pele caso entre em contato–arde muito, principalmente quando encostamos nos lábios–é, eu tenho que olhar bem perto das rochas e por mais bem protegidos que estejamos, sempre tem um jeitinho de encostar a parte exposta da pele. Tem corais que também queimam a pele, outros “só” irritam um pouco.

Ah, tem os isópodos, crustáceos marinhos que se alimentam de sangue de peixes–ou de mergulhadores. São mais ativos à noite, e são atraídos pela luz de nossas lanternas. Já tive que sair da água várias vezes por causa deles, geralmente vêm às dezenas. Também são capazes de encontrar 5 milímetros de pele exposta, e vão se grudar ali para sugar o sangue. E, é claro que dói na hora de arrancá-los da pele, já que eles se prendem com suas garras.

Há arraias e enguias que dão choque–mas só acontece isso se você tocar nos animais, como eu que meti o dedo em uma achando que estava morta no fundo–bzzzzzzzzzzzz! Peixes-pedra com veneno poderoso são bem conhecidos–mas esses geralmente ferem banhistas ao serem pisados. Em mergulho é mais difícil, embora não seja impossível (não, esse eu ainda não testei).

Agora, outro animal que poucos conhecem e que pode ser mortal, é o Conus, um molusco com concha em formato de cone e que usa seu veneno para paralisar e comer vermes e peixes. Aqui no Brasil existem várias espécies, mas nenhuma com veneno potente o suficiente para matar um humano. Em compensação, nos oceanos Pacífico e Índico tem de montão. Como são conchas bonitas, os turistas acabam pegando na mão para admirar ou levar para casa, e aí é que acontece a caca. Apesar do animal entrar na concha quando ameaçado, ele tentará se livrar do que quer que seja que o está segurando. Ele consegue se esticar e picar a mão da pessoa, que em poucos minutos pode morrer por parada respiratória. O veneno ataca o sistema nervoso central, e aí, babau!

Então, tubarão? Nah…….