Velha guarda contagia nova safra de músicos

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Na falta de novos ídolos de qualidade, jovens seguem o gosto da família e se apaixonam por ídolos com anos de tradição

Miriam Andrade


Blues Etílicos, grupo de músicos que fez sucesso na década de 80, volta com tudo, com apoio dos jovens

Após ter andado meio afastado do mercado fonográfico, o velho e bom rock and roll, com suas vertentes no rythm’ blues, e até mesmo no ‘iê iê iê’ jovem guarda de Roberto e Erasmo Carlos, Wandeleya e cia. – quem diria –, está voltando com força total as paradas de sucesso no Brasil. O fenômeno, que não se limita apenas a bandas famosas nacionais, como Barão Vermelho, e internacionais, como Guns and Roses, Metallica e Sevenfold, não tardará a aterrizar no circuito de shows brasileiros nos Estados Unidos.

Para a surpresa de muitos, a nova geração de brasileiros e brasileiras, que ainda nem havia nascido na década de 80, está sendo (musicalmente falando) literalmente carregada nas costas, por seus pais, tios e tias. Todos reunidos com seus filhos e sobrinhos na mesma plateia, e até mesmo nos mesmos palcos dos concertos de rock que vem agitando o verão carioca de 2014. Ao contrário do que previa a banda de blues mais famosa do Brasil, o Blues Etílicos, (cujos integrantes da safra de 63 estão hoje em dia com cinquenta anos), os filhos da geração que assistiram ao programa da Xuxa estão mostrando que também têm o mesmo tipo de indefinição, tanto nas opiniões quanto no comportamento, quanto eles próprios tinham no início dos anos 90, quando estavam no auge de suas carreiras.

Graças à falta de grandes novos talentos no mercado da música, roqueiros, bluzeiros e MPBeiros estão aproveitando o surpreendente retorno às paradas de sucesso para relançar antigos sucessos, junto com novos trabalhos. “Sim, os nossos shows estão realmente atraindo gente de todas as idades, e não só a nossa geração”, contou entusiasmado o baixista Claudio Bedran, sobre esta nova fase de vacas gordas, informando que, além dos clássicos da banda que se tornaram famosos em meados dos anos 80, o Blues Etílicos nunca parou de compor e gravar, e, além de tocar em seus shows recentes as músicas que se tornaram clássicos, como “3° whisky” e “ O sol também me levanta”, eles estão lançando um novo CD, chamado “Puro malte”.

A música título deste novo CD do B.E (que fala do universo cervejeiro) se deve ao fato de a banda ter aproveitado o período de vacas magras (que durou pelos últimos dez anos), para também se envolver com o processo de elaboração de sua própria marca de cerveja artesanal, lançada em 2012, chamada Hellbier. Claudio Bedran contou ao AcheiUSA, que apesar da banda ter degustado cerca de 180 litros de cerveja durante a “fase de experimentos”, o Blues Etílicos faz um show sóbrio, regado apenas a “água mineral”, que, aliás, foi o título de um dos primeiros CDs da banda, batizado assim para amenizar a fama de beberrões criada e incentivada pelos críticos da época, em 1989.

“Seria bacana tocar nos Estados Unidos, mas até hoje não rolou”, contou Claudio Bedran, explicando que ao longo dos últimos 27 anos, a banda continuou unida, tocando em parcerias com outros músicos renomados como Leo Gandelman, Alceu Valença, e se apresentou em grandes eventos como a abertura do Festival Internacional de Blues. A formação original da safra de 63, composta por Gil Eduardo na bateria, Otávio Rocha (guitarra), Flávio Guimarães (gaita), e Greg Wilson (guitarra), já viu passar os hippies, os black powers, os cocotas de camisa hang ten e calça boca fina, os Travoltas e a febre das discotecas, os punks, os darks, os góticos, os metaleiros, os funkeiros, os pós isso e pós aquilo e foram tantos pós que a banda até desistiu de identificar. E concluíram: “Nada conseguiu nos sensibilizar como o velho e bom rock and roll influenciado, principalmente, por Erick Clapton e Johnny Winter”, finalizou Bedran.

Diante de uma convição tão forte, que sobreviveu quase três décadas mantendo sólidas as origens do rock, a nova geração de adolescentes do Brasil tem-se engajado não só na defesa, mas também na surpreendente idolatria das raízes mais profundas e divergentes desse ritmo que parece não envelhecer. Muito pelo contrário. Para o roqueiro Myke Mustaine, que com apenas 19 anos divide palco com o legendário ex-namorado de Janis Joplin, Serguei Pandemonium, de 80 anos, Roberto e Erasmo Carlos, além de Wanderléia, Lulu Santos, e Roberto Frejah do Barão Vermelho, são ídolos mais na moda do que nunca, além, é claro, das bandas internacionais igualmente antigas, como Iron Maiden, Metallica, Megadeth e Rolling Stones.

O guitarrista da banda de metal carioca Year Zero, Fábio Furtado, de 17 anos, curte Beatles, a banda dos anos 90 Sevenfold, Sepultura, Frejah, Paralamas do Sucesso,Titans, Raimundos e Blues Etílicos. Com uma ecleticidade rock and roll dessas, não é preciso bola de cristal para prever o próximo estilo musical a atravessar as fronteiras e ser prestigiado pela nova geração de imigrantes brasileiros que já estáchegando nos EUA.