Violência que atravessa fronteiras

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Aumenta o número de sequestros de parentes de emigrantes mexicanos que vivem nos EUA

Os sequestros sempre foram um desafio para a polícia do México e fazem parte de uma história de crueldade e dor no país. Uma nova modalidade, porém, tem assustado não apenas os habitantes mas também os emigrantes que atravessaram a fronteira dos Estados Unidos: as vítimas preferenciais são parentes de mexicanos que vivem na América. Um dos casos mais recentes foi o de um fazendeiro de 80 anos de idade do estado de Zacatecas, que foi mantido em cativeiro por vários dias, até que o filho pagasse o resgate nove mil dólares, as economias de toda uma vida de trabalho duro nos EUA.

Uma série de sequestros similares, vitimando pessoas com parentes nos Estados Unidos, alarmou tanto a região que muitas pessoas fecharam suas casas e seguiram para o norte, alguns legalmente outros não, em busca de segurança com parentes na Califórnia e outros estados americanos. “Os sequestradores escolhem como alvo os familiares de moradores dos EUA, pois sabem que estes têm dinheiro”, lamentou Santana Lujan, um fazendeiro da região. “Os parentes de mexicanos que vivem nos Estados Unidos se tornaram uma fonte de lucro para a indústria do criminal mexicana”, confirma Rodolfo Garcia Zamora, professor da Universidade Autônoma de Zacatecas, que estuda tendências migratórias. Ele conta que centenas de famílias imigraram por medo de sequestro ou extorsão e a maioria deles está tentando de tudo para não voltar para casa. “Em vez disso, eles tiram seus parentes do México”, explica.

A relatada movimentação de pessoas do Estado de Zacatecas para os Estados Unidos é outro sinal de que a falta de segurança no México é um dos fatores que impulsiona o fluxo de imigrantes pela fronteira. A violência acrescenta uma nova camada de incerteza à frágil questão da imigração mexicana, já em dificuldade por causa da crise econômica americana. Especialistas que observam de perto mudanças nos padrões de imigração dizem que ainda é muito cedo para estimar o impacto da violência relacionada ao tráfico de drogas e da perda de empregos de milhares de imigrantes nos Estados Unidos. Mas até o momento, previsões de um êxodo em massa de mexicanos desempregados de volta a seu país parecem prematuras.

Ao invés disso, parece que o padrão do Estado de Zacatecas (onde muitas pessoas têm familiares nos Estados Unidos) pode ser um bom indicador do que acontece em todo o país. A criminalidade no México, aparentemente, tem mantido os mexicanos nos EUA e estimulado outros a tentar entrar na América. Afinal, como diz o ditado, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. “Os mexicanos ao norte da fronteira estão desempregados e sofrem com a perseguição por parte das autoridades de imigração”, avaliou Denise Dresser, uma cientista política baseada na Cidade do México.

A época de festas de final de ano foi emblemática para comprovar que o problema está assustando a comunidade: durante o período natalino era comum encontrar veículos com placas de estados americanos como Arizona e Califórnia circulando pelas ruas de Jerez ou Tijuana… não dessa vez.