À espera do Batman

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A nota de falecimento, semana passada, do ator Adam West, aos 88 anos, trouxe uma onda de nostalgia. A informação passaria em branco, por se tratar de um artista de pouca relevância não fosse ele quem deu vida nas telas ao popular Batman dos quadrinhos. A série dos anos 60 se tornou desde a estréia um cult icônico por inúmeras razões e sua imagem ficou associada ao personagem até o fim da vida mas dentro da avalanche de memórias desencadeada por saudosos comentaristas da mídia em todos os países aponta para observações mais profundas.

Pra início de conversa, fica claro que o século XX vai se despedindo aos poucos e tudo que de melhor representou seus melhores momentos é celebrado com pungência ao ser relembrado, como a popular série que Adam protagonizou. Em meio ao contexto histórico complexo, quando o mundo vivia intensa revolução cultural e profundos questionamentos, a série se destacava por abordar a eterna luta do bem contra o mal de maneira simples, sem elocubrações de moral e valores, aonde a violência era simbólica, substituída por onomatopéias e ninguém morria de verdade. Enquanto mesmo ainda sob o impacto do desastre da segunda guerra os Estados Unidos despejava soldados no Vietnam e a América Latina embarcava na idade média das ditaduras, em Gotham tudo era divertido e fácil de resolver com o cinto de utilidades do Batman. O escapismo televisivo e a crítica social inteligente se encontraram ali em sua melhor forma. Cenas com os vilões, cujos capangas eram geralmente mascarados, apareciam com a imagem inclinada, subjetivamente sugerindo que o mal é torto e que os covardes ocultam sua identidade.

A série sugeria basicamente uma nova frente de batalha para uma geração que se via impotente de lidar com a intolerância reinante, batalhas pelos direitos civis, igualdade entre os sexos, conflitos mundiais, ditaduras opressivas e lutas de classes: o campo das idéias. Em um episódio, Pinguim se candidata à prefeitura de Gotham e para detê-lo, Batman se candidata também. No debate antes da eleição, Pinguim tenta distorcer os fatos mostrando uma foto sua sendo preso, com vários policias ao redor e interpreta a cena como prova que anda cercado por corretos guardiões da lei e a seguir mostra uma de Batman prendendo vários criminosos e insinua que o oponente vive cercado de bandidos ao seu lado. A estratégia do Pinguim funciona até o momento dele mesmo se atrapalhar e ser desmascarado pelo herói. Parece familiar? pior que é.

A série durou pouco, em meio a tantas outras e o mundo seguiu seu rumo. O começo do fim do século XX se deu na era Reagan, culminou com a queda do muro de Berlin, pareceu avançar com o fim da rixa entre socialismo e capitalismo, na união das ideologias em prol do bem estar social, que brotou na Europa a partir dos anos 90 e se despediu tragicamente na queda das torres gêmeas, evento que inaugurou oficialmente o início da era do terrorismo.

Não é à toa que atualmente as salas de cinema são inundadas por filmes de super-heróis. Até a Mulher Maravilha foi convocada agora para resgatar uma geração inteira que anda à procura daquele paladino da justiça. Hoje os vilões continuam os mesmos, continuam mascarados e manipulativos, continuam covardes e megalômanos só que mais letais e continuamos à espera do Batman pra nos salvar. Pinguim está na casa Branca, Senhor Gelo em Moscou, Rei Tut em Brasilia. O Charada e outros vilões tentaram se criar na Europa, sem sucesso mas debandaram pro Oriente Médio e fundaram o Estado Islâmico. Vivemos um episódio real e nada imaginário do seriado Além da Imaginação, com pegada de filme de terror. Aonde está o Batman para nos salvar?