“A Polícia não vai entregar ninguém para a imigração”

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Durante reunião com comunidade brasileira sheriff Scott Israel divulgou nova resolução interna da polícia em Broward

Joselina Reis

Seguindo a mesma resolução de outros chefes de polícia nos Estados Unidos, Scott Israel, sheriff no condado de Broward, divulgou na noite de quarta-feira (6), durante reunião com a comunidade brasileira, que desde o dia 17 de julho de 2014 uma resolução interna proíbe a retenção de qualquer imigrante indocumentado e a entrega do mesmo ao ICE (Polícia de Imigração) se não houver uma causa justa. “Nós não trabalhamos para o ICE, não vamos deter ninguém para o ICE, não vamos chamar o ICE”, repetiu o sheriff para uma platéia de brasileiros que lotou a sala de reuniões da Padaria 2000, em Deerfield Beach.

A resolução foi baseada em duas ordens judiciais de outros estados americanos em que a Justiça afirma que “deter os imigrantes sem uma causa justa atendendo a ordens do ICE é uma violação dos direitos civis”. Neste caso, diz a resolusão interna do BSO (Broward Sheriff Office), nem mesmo “um mandado de busca emitido pelo ICE pode ser usado para deter uma pessoa”. Durante a reunião, os sheriff pediu que cópias do documento fossem entregues aos presentes.

Scott afirmou que os policiais do condado estão orientados formalmente através de um “Legal Bulletin” divulgado internamente no departamento, que somente haverá detenção de pessoas imigrantes que forem por uma causa justa. Ele afirmou que a polícia tem como foco o trabalho em cinco áreas: assassinatos, crimes sexuais, crimes envolvendo crianças vítimas, assalto e invasão de residências. “Nosso trabalho é manter a segurança. Se você é vítima de uma crime, nós vamos te ajudar na busca por justiça. Vamos trabalhar para te manter aqui até que a justiça seja feita”, disse ele.

Desde o início de sua administração, em 2013, o sheriff vem tentando convencer a comunidade imigrantes indocumentada a não ter medo de delatar crimes. Agora, além de afirmar que não vai entregar o indocumentado para a polícia de imigração, Israel ainda disse, em público, que os advogados do BSO vão “trabalhar arduamente para manter o imigrante `vítima ou testemunha de um crime` no país, trabalhando para extender seu visto, até que justiça seja feita”.

Ainda na mesma linha de aproximação com a comunidade de imigrantes, Scott Israel criou este ano o programa Suporte à Comunidade (Community Support Division). Nele, os integrantes representam comunidades, falam o idioma e, de preferência, são imigrantes ou descendentes de imigrantes. “Nós sabemos que nem todo problema se resolve com uma arma na mão. Por isso a necessidade de ter trabalhando conosco pessoas que tenham alguma ligação com a cultura e a língua que aquela comunidade fala”, explicou.

Até então, a única comunidade que ainda não tinha um representante no CSD era a brasileira. Na noite de quarta-feira (6), Scott Israel apresentou a detetive brasileira Millie Palushaj, como sendo a nova integrante do grupo e responsável pela conexão com os brasileiros. Ela vai trabalhar no Departamento de Polícia em Deerfield Beach. Até então, quando havia necessidade de um oficial que falasse português, o policial do grupo especial Swatt, Ricardo Braga, era chamado.

Redução de crime
Durante a reunião, Scott Israel aproveitou ainda para reinterar o foco do seu trabalho em seu mandato que vai até 2016: a diminuição da prisão de jovens que comentem crimes menores. De acordo com estatísticas da sua administração, 65% dos que comentem um crime de menor proporção e são presos, voltam a cometer o mesmo crime em menos de dois anos.

Desde que tomou posse, ele implementou o Civil Citation Program, onde os jovens recebem uma medida sócio-educativa ao invés de serem presos. “Lugar de jovem é na escola e não na cadeia, onde ele aprende ainda mais como cometer crimes”, afirmou o sheriff comemorando a estatística de que o condado de Broward, sob sua tutela, conseguiu reduzir em 30% a criminalidade nos últimos dois anos.

Reunião
A reunião entre o Sheriff Scott Israel e a comunidade brasileira foi organizada pelo Centro Comunitário Brasileiro. Ainda estavam presentes na reunião, o presidente do CCB, Urbano Santos, representando o Consulado Geral do Brasil em Miami, o vice-cônsul, Leonardo Faria, e o deputy Consul, Luiz Guilherme Costa Koury, além de representantes de algumas prefeituras do condado.

Comunidade comemora, mas ainda desconfia

Para o presidente do CCB, Urbano Santos, a reunião com o sheriff e a apresentação pública da resolução interna do departamento de polícia afirmando que não há nenhum tipo de acordo com o ICE, significa a vitória de uma luta de muitos anos. “Muitas prisões de brasileiros foram feitas injustamente. Acabar com esse acordo entre ICE e BSO é uma luta de muitos anos, foi uma busca incansável. Hoje, com essa resolução do sheriff, afirmando que não vai honrar com o acordo com a imigração, se alguém for parado, preso e o ICE for contactado, o sheriff vai ter que fazer alguma coisa para honrar seu compromisso com a comunidade”, disse o presidente do CCB.

Mal conseguiu a primeira vitória, explica Urbano, o CCB já está planejando a próxima batalha. Dessa vez, o foco é a carteira de motorista para os imigrantes indocumentados. Com a chegada das eleições, o CCB quer mobilizar a comunidade imigrante (não só brasileira) para mostrar a força do voto imigrante em novembro.

Para tanto, o CCB planeja criar um banco de dados com um milhão de nomes imigrantes (eleitores ou não) para mostrar aos candidatos a governador e outros cargos públicos a força da comunidade imigrante. “Se juntarmos a comunidade brasileira e caribenha podemos fazer uma grande diferença. Esse grupo só vai apoiar os candidatos que defendem o projeto de carteira de motorista para imigrante, como nos outros estados. Até os que não podem votar, conhecem pessoas que votam e podem ser um agente de persuação nas próximas eleições”, afirmou Santos.

Para Silair Almeida, porta-voz da Flórida no Conselho de Brasileiros no Mundo, todo mundo esperava essa resolução há muito ttempo. “Era um absurdo essa conexão entre a polícia do condado e a polícia de imigração. Ser multado por falta de documento é normal e está na lei, mas a prisão era uma arbitrariedade. Agora, o sheriff vem corrigir esse problema”, acredita ele, lembrando que isso foi promessa de campanha de Scott Israel.

As histórias de prisões, entregas do imigrante para o ICE, seguido pela deportação ainda são um fantasma para a comunidade brasileira. Por isso, alguns acreditam, mas ainda desconfiam. “Você tem que acreditar, fazer o quê? Na época do outro sheriff `Al Lamberti` ele também falava que não entregava para o ICE, mas muitos foram presos e deportados porque foram pegos sem carteira de motorista. O que tem que ser feito é liberar a carteira de motorista para que todos possam andar em paz”, disse a brasileira Rosangela Silva, moradora em Deerfield Beach.

“Eu conheço várias histórias. Principalmente das blitzen da polícia com o ICE na área do Seabra `supermercado`. Eles chegavam e levavam o pessoal. Quem não tinha documento era deportado. Infelizmente, o problema que vivemos é o risco de os imigrantes correm quando decidem buscar um sonho”, lembra Odoardo Agnelli, morador de Boca Raton.