A ponte Kiev e Caracas

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Antonio Tozzi

Deixando de lado o caldeirão em que se transformou a guerra civil na Síria que, segundo dados, já deixou mais de 60 mil mortos e milhares de desabrigados sem que os protagonistas tenham chegado sequer a um esboço de acordo, o mundo vê eclodir mais dois conflitos em países distantes, mas que têm algo em comum: a ojeriza por regimes opressores.

Em Kiev, capital da Ucrânia, os opositores saíram às ruas debaixo de um frio intenso para protestar contra o presidente Viktor Yanukovych, que se aliou firmemente a Vladimir Putin. O Kremlin quer assegurar a ex-república soviética em sua órbita e, para isto, acenou com o pagamento de dívidas e perdão de outros débitos.

A oposição, porém, rejeita categoricamente qualquer reaproximação com o regime da Rússia. Depois de ter penado bastante sob o jugo de Moscou, é natural que o povo queira distanciar-se do algoz de outrora. Afinal, ter vivido quatro décadas sob a égide do comunismo é motivo mais do que suficiente para o povo rejeitar o regime.

O que os oposicionistas defendem é a aproximação com a Europa Ocidental e com os Estados Unidos, mudando, assim sua órbita política e econômica.

Uma série de países da União Europeia (UE), entre eles França e Alemanha, agora pedem sanções contra Kiev como um gesto de solidariedade com o povo ucraniano. Essa é a primeira vez que a União Europeia levantou a hipótese de impor sanções ao governo de Yanukovych. Até agora, o foco estava em tentar mediar entre os dois lados do conflito, além de pedir ao presidente Yanukovych que reconsiderasse sua recusa em fortalecer laços comerciais com a UE e em aceitar um pacote de resgate do FMI.

Dessa forma, trata-se de uma mudança significativa na abordagem europeia à crise.

Mas é difícil ver como a imposição de sanções poderia mudar o cenário – além de estimular Yanukovych a dar as costas à Europa de vez.

Estrategicamente, o presidente russo, Vladimir Putin, tem se mantido em contato por telefone com Yanukovych. O porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov foi cuidadoso ao insistir que o presidente russo não ofereceu qualquer conselho ao governo, mas afirmou que a Ucrânia era um “Estado irmão e amigo e um parceiro estratégico” e que a Rússia usaria toda sua influência para reestabelecer a paz e a ordem.

Nos Estados Unidos, o foco tem sido tentar persuadir Yanukovych a tirar as forças do governo das ruas e a agir com moderação. Segundo relatos, o vice-presidente, Joe Biden, falou com o presidente ucraniano pelo telefone e sugeriu que seria responsabilidade dele acalmar a situação e abordar as “preocupações legítimas” dos manifestantes.

Esse jogo de palavras diplomático esconde os verdadeiros interesses dos protagonistas do jogo político. É evidente que a Rússia não tem a menor intenção de ver seu aliado e vizinho fugir à sua órbita geopolítica. Já os ocidentais veem na aproximação com a Ucrânia uma excelente oportunidade de expandir seus tentáculos nos países que formavam o extinto bloco soviético. E o povo por já conhecer os métodos de Moscou quer aproveitar para escapar do raio de ação da Rússia. Simples assim.

Tão simples como vem caracterizando-se a situação na Venezuela. O país que tem a sorte de possuir jazidas de petróleo quase inesgotáveis não tem a mesma sorte quando se trata de governantes. Depois de sofrer com o caudilho Hugo Chávez, agora está nas mãos de seu sucessor Nicolás Maduro, um sujeito com menos inteligência e menos carisma de seu antecessor.

Diante da insatisfação popular, motivada pela completa falta de infraestutura e projeto de nação, os oposicionistas pedem a renúncia do presidente. Em vez de ter a humildade de aceitar as críticas e procurar corrigir os defeitos, Maduro começa a enxergar fantasmas. Ou seja, sua primeira medida foi expsulsar três representantes diplomáticos dos Estados Unidos da Venezuela, acusados de agitação estudantil, como se isso fosse solucionar a crise de governo e de credibilidade pela qual passa o país sul-americano.

Perdido naquele confuso projeto bolivariano, Maduro e seus seguidores tentam de todas as maneiras recorrer a palavras de ordens e a slogans inócuos como forma de mobilizar as massas. Claro que a população já não mais se deixa levar por estes cantos de sereia que prometem o paraíso e entregam o inferno.

Assim, os mártires vão crescendo, como é o caso da Miss Turismo da província de Carabobo, Génesis Carmona, atingida por uma bala disparada pelas forças leais a Maduro, quando seu crime era somente protestar contra a falta de perspectiva na Venezuela de hoje.

Não é à toa que o sul da Flórida recebe cada vez mais cidadãos venezuelanos inconformados com os desmandos do bufão que está no poder e interrompendo o crescimento do país. Perto de Miami, a cidade de Weston já é ironicamente conhecida como Westonzuela, tamanho o número de venezuelanos que se mudou para lá. E eles não param de chamar familiares e amigos…