A vilã de plantão

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Antonio Tozzi

Com a disputa da Copa das Confederações no Brasil, conquistada brilhantemente pela Seleção Brasileira em partida memorável na final contra a Espanha (nº 1 no ranking da FIFA), nosso país viveu um dilema. Enquanto parte dos brasileiros comemorou o título, outra parte reagiu negativamente sob a alegação de que o título serve apenas para desviar a atenção dos reais problemas do país, exacerbados nas recentes manifestações, e houve ainda quem jurasse que a conquista não passasse de uma armação da FIFA para aplacar a ira do povo brasileiro contra os desmandos dos governantes da nação em todos os níveis.

Por falar em FIFA, ela emergiu como uma das vilãs dos manifestantes que se insurgiram contra a entidade máxima do futebol mundial por causas de suas imposições para a realização da Copa das Confederações este ano e da Copa do Mundo em 2014.

Analisando friamente, isto me parece totalmente fora de propósito. Ora, ela detém os direitos do mais cobiçado torneio de futebol do planeta e, para isso, estabelece regras e condições aos países pleiteantes a fim de conceder o direito de realizá-lo em seus territórios.

Se voltarmos no tempo, mais exatamente para 2007, veremos Lula e Ricardo Teixeira, respectivamente presidentes do Brasil e da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), comemorando à larga a vitória do Brasil sobre os outros países que concorriam pelo direito de organizar a Copa do Mundo de 2014. Os brasileiros saíram nas ruas para festejar e isto confirmou o Brasil como um player no cenário mundial. O espetáculo repetiu-se depois quando o COI (Comitê Olímpico Internacional) confirmou o Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de Verão em 2016. Apenas que, naquela ocasião, mudou o parceiro. Em vez de Teixeira, estava Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).

Ora, quem contestaria a primazia de o Brasil estar no centro das atenções mundiais durante quatro anos, ratificando o país como uma nova estrela econômica? Pois é, mas contestaram. E no pior momento, em minha opinião. As pessoas foram às ruas para protestar contra uma série de problemas vividos pela população, tais como impunidade, insegurança, falta de infraestrutura básica, transportes e, sobretudo, corrupção.

Aí é que entra em cena a FIFA como a super vilã. A entidade foi acusada de querer impor suas regras, afastar a população mais carente dos estádios, ganhar com o superfaturamento das obras de construção dos estádios e de formar um poder paralelo ao conseguir inclusive derrubar um veto federal que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em estádios brasileiros para acomodar os interesses da Budweiser, um de seus megapatrocinadores.

Ora, vamos nos ater aos fatos. Quando Lula, Ricardo Teixeira e outros dirigentes elaboraram a proposta para atrair a Copa do Mundo de 2014 para o país eles leram as exigências (ou, pelo menos, deveriam ter lido) e concordaram com as condições impostas pelos dirigentes da FIFA para a realização do evento. E isto incluía a venda de bebidas alcoólicas em estádios, a construção de novos estádios e outros quesitos, hoje contestados.

Se não quisessem, os dirigentes simplesmente poderiam abrir mão da concorrência e liberar a FIFA para procurar outro país que concordasse em sediar o evento, de acordo com as regras estabelecidas pela entidade. Mas não foi o que ocorreu. Políticos e dirigentes de futebol venderam ao povo a ilusão de que tudo seria fantástico para o Brasil com a vinda do evento.

Claro que não se pode deixar de enaltecer o ganho do país com a Copa do Mundo, que será revertido em divulgação da imagem do país no exterior, em aumento de faturamento do setor de serviços, com a vinda de turistas. Hotéis, bares, restaurantes vão ter muito movimento e, com isto, a economia do país vai revitalizar-se, inclusive com a geração de mais empregos, ainda que temporários.

A vinda dos eventos acelerou, ainda, as obras de infraestrutura que serão benéficas para a população dos grandes centros urbanos. Mas, infelizmente, o ritmo demorado e o superfaturamento das obras coloca em risco sua credibilidade. Relatórios apontam que o custo de organização da Copa do Mundo de 2014 é três vezes maior do que as anteriores, a comprovar a desconfiança do povo. E muitos estádios foram financiados com juros camaradas concedidos pelo BNDES, ou seja, pelos impostos pagos pelos contribuintes brasileiros.

Apesar de tudo, penso que os eventos deixarão um legado interessante para o esporte brasileiro. Estádios novos, com bons gramados e estrutura de primeiro mundo. Pode-se não gostar dos dirigentes da FIFA nem dos da CBF, que certamente não são santos, mas ambas são entidades privadas e não vivem às custas dos contribuintes.

Por isso, concordo pelnamente com Joseph Blatter, quando inquirido sobre como a FIFA estava interferindo nos assuntos nacionais: “Foi o Brasil que pleiteou o evento. A FIFA não impõe nada a nenhum país. Tapa com luvas de pelica em quem quer colocar nas costas da FIFA a resolução dos problemas socioeconômicos brasileiros.