A violência caseira

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Mais de 33% dos crimes cometidos em Palm Beach foram entre familiars

Muitos brasileiros vieram para os Estados Unidos em busca de uma segurança que não sentiam em grandes cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo. No entanto, na América, a violência está dentro de casa: um terço dos assassinatos ocorridos nos primeiros três meses deste ano no condado de Palm Beach, por exemplo, foram cometidos entre familiares. Em Broward e Miami-dade a situação não é muito diferente.

A violência doméstica assusta as autoridades, que têm divulgado informes para facilitar a identificação, com antecedência, de possíveis indícios que podem levar a tragédias como a que aconteceu com uma família de Lake Worth, há poucos meses. Em janeiro deste ano, Alexandre Tomas, um imigrante sem emprego e depressivo, tirou a vida da mulher e do filho de quatro anos – Sidney e Julian Gift, respectivamente – antes de se suicidar.

Alexandre demonstrava, segundo especialistas, o típico comportamento do que a polícia chama de “domestic abuser”: estava em depressão depois que a mulher ameaçou deixá-lo e porque não conseguia arrumar trabalho, demonstrava agressividade fora do comum e vagava pela casa como um zumbi. A peça que faltava para completar esse triste quadro era uma arma e ele a comprou duas semanas antes de consumar os crimes.

“Conseguimos reduzir os assassinatos praticados por gangues, graças a um esforço para combater as atividades destes grupos, mas os crimes de violência doméstica são mais difíceis de serem combatidos, pois ocorrem entre quatro paredes e as vítimas em potencial não costumam denunciar fatos que podem indicar algum perigo”, afirmou o tenente Michael Wallace, responsável pelo grupamento contra crimes violentos em Palm Beach. De acordo com as estatísticas do condado, a maioria das mortes da categoria ‘violência doméstica’ ocorreu com o homem matando a mulher. “É comum eles pensarem “se eu não posso ter você, ninguém pode” e aí cometem os crimes”, atestou o sheriff Scott Shoemaker, que cuida especificamente destes casos.

Antes de Alexandre Tomas, outro imigrante cometeu crime semelhante. Lorenzo Nunes matou a mulher, Glenda Santiago, em West Palm Beach, quando desconfiou que ela estava saindo com outra pessoa. “O período mais crítico para as vítimas de abuso sexual é quando o agressor desconfia que a relação pode acabar”, alertou Michael Edmondson, que trabalha junto à procuradoria do Estado da Flórida. E como é difícil impedir que estes agressores cometam os crimes, o fundamental é prestar atenção aos sinais – e comunicá-los imediatamente à polícia. As vítimas são transferidas imediatamente a um local seguro e confidencial e, no caso de imigrantes, podem até se qualificar ao green card.

Outro alerta das autoridades é que os índices deste tipo de crime costumam crescer em épocas de crise financeira, como a que vivemos nos estados Unidos, mais especificamente na Flórida.

Um alerta para a comunidade

O AcheiUSA publicou, recentemente, uma série de matérias a respeito da violência doméstica. Nos textos que fizeram parte das edições 167 e 168 (entre agosto e setembro de 2007), psicólogas, advogados e assistentes sociais falaram sobre algumas formas de abuso e dicas de onde buscar ajuda. “Precisamos mostrar às vítimas destes crimes que elas não estão sozinhas e que existem meios de ajuda”, disse na ocasião a pastora Eliane Menezes, voluntária da organização ‘Women in Distress’, do condado de Broward.

Da mesma forma, a psicóloga Karina Lapa destacou a importância de que as mulheres, que representam 90% do universo das vítimas deste tipo de crime, denunciem à polícia o tratamento que recebem em casa: “Só assim será possível interromper o ciclo e a perpetuação de um modelo patriarcal, que não combina com o terceiro milênio”, destacou, antes de acrescentar que as imigrantes são alvo preferencial deste tipo de atitude, pela sua vulnerabilidade.

De fato, as mulheres muitas vezes se recusam a denunciar seus companheiros: “Elas amam o parceiro e têm esperanças de que as coisas vão melhorar”, admitiu Jeannie Hoban, integrante do Conselho de Violência Doméstica de Palm Beach. Ela ressalta que nos casos acontecidos em 2008, nenhuma vítima reportou à polícia qualquer abuso ou ameaça, apesar de eles terem sido depois comentados por familiares, depois das mortes.

Em outra matéria publicada pelo AcheiUSA, em fevereiro de 2007 (edição 153), a psicóloga Neide Bruno disse que há meios de detectar se o companheiro/companheira tem algum desequilíbrio que possa culminar em um crime: “O ciúme exagerado, o sentimento de posse, a falta de controle e o abuso físico não são provas de amor. A idéia de que o amor pode curar tudo é infundada”, ensinou a psicóloga.