Aluguel de quarto causa pesadelo a casal

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AA e MS alugaram um quarto para uma roommate desconhecida e atraíram uma tropa do ICE para a casa deles

Antonio Tozzi

Não ter documentos apropriados nos Estados Unidos torna a vida dos imigrantes ainda mais difícil. É preciso trabalhar em empregos sujeitando-se a ganhar menos do que deveria e ainda agradecer quando alguém os contrata. Por isto, muitos se defendem alugando quartos para roommates a fim de diminuir as despesas.

No entanto, fica aqui um alerta. Cuidado antes de deixar que um estranho ou uma estranha passe a viver em sua casa. Verifique seus antecedentes criminais, converse com outras pessoas e exija cartas de recomendação para diminuir a probabilidade ter uma dor de cabeça fenomenal que pode realmente prejudicar sua vida.

O casal AA e MS vive junto há sete anos e MS está grávida de cinco meses. A situação deles era de certa forma tranquila, apesar das dificuldades financeiras enfrentadas por eles no cotidiano. O pai de AA já é cidadão americano e fez uma petição para o filho receber sua residência permanente. “Tive minha I-130 aprovada em 2009 e estou aguardando na fila para obter o green card”, comentou o rapaz nascido em São Paulo, que viveu a adolescência em Goiânia.

Entretanto, a fila para green card com base em família é longa e demorada. No momento, estão sendo chamados os familiares aprovados em 2009. Ou seja, neste ritmo AA será chamado em 2017 para receber seu documento de permanência legal nos Estados Unidos.

Reviravolta na vida do casal

Ou melhor, seria chamado, porque agora houve uma reviravolta geral na vida dele e o futuro tornou-se incerto. Vamos deixar que ele e a esposa narrem o que ocorreu na manhã do fatídico dia 10 de maio.

“Publicamos um anúncio nos classificados do AcheiUSA em dezembro procurando roomamte para ajudar a diminuir nossas despesas. Aí, apareceram algumas pessoas e optamos por uma mulher que nos garantiu ter uma ficha limpa e nenhum problema com a polícia ou com a Justiça. Ela veio junto com uma amiga que a avalizou e o marido da amiga, que é americano, olhou nos meus olhos e me disse que ela era ótima pessoa”, contou MS, natural de Belo Horizonte.

Ledo engano. O casal foi descuidado e não verificou os antecedentes da roommate que eles se recusam a citar o nome. Se tivessem feito a lição de casa, certamente teriam visto no website oficial do Broward Sheriff Office que a mulher tem passagem pela polícia por furto e, além disto, era procurada pelo ICE (a divisão policial do Serviço de Imigração e Cidadania) por ter entrado duas vezes ilegalmente pela fronteira do México com os EUA e já havia sido deportada antes.

Uma equipe do ICE começou a bater com violência na porta da casa de AA e MS por volta das 6 horas da manhã. Assustado, AA abriu a porta e eles foram invadindo. “Entraram com tudo na minha casa sem nenhuma ordem judicial e começaram a falar que estavam procurando por alguém, mas não disseram quem. Minha mulher teve de subir rapidamente para se trocar enquanto eles invadiram os quartos, reviraram as gavetas e ocuparam minha casa. O grupo tinha cerca de dez pessoas, sendo que uma delas era uma mulher”, contou o brasileiro.

Finalmente, localizaram a roommate, que estava trancada no quarto, e a levaram. Perguntaram a eles se conheciam duas pessoas (um homem e uma mulher) que estavam numa cópia de fotos. O casal respondeu que não. Mais tarde veio a descobrir que o rapaz procurado era um ex-namorado da roommate. Eles também foram capturados e levados para a detenção.

AA foi levado para o ICE

Durante a confusão, eles começaram a exigir que o casal mostrasse documentos que comprovassem a permanência legal deles nos EUA. Como tecnicamente ainda estão fora do status legal, os agentes do ICE não tiveram dúvidas: algemaram AA e o levaram para um centro de triagem em Miramar. MS não foi levada por estar grávida. “Quando a abracei, senti o bebê se mexer na barriga dela”, comentou AA.

Preocupada, ela ligou para o pai do marido e os dois ficaram esperando por uma ligação dos agentes do ICE para buscar AA, que seria liberado. A chamada veio às 11h30 da manhã e os dois seguiram para o centro de triagem. O pai do rapaz entrou sozinho e deixou MS no carro. Demorou algum tempo e retornou dizendo que os agentes exigiam a presença dela. “Quando entrei lá, eles começaram a me fichar e tirar minhas impressões digitais. Só fomos liberados por volta das 3h30 da tarde”, disse a mineira.

AA saiu do local com uma tornozeleira eletrônica de monitoramento mas MS, por estar grávida, está sendo monitorada por telefone. Os agentes exigiram que o casal ponha um telefone fixo em casa para monitorá-los e assim vão retirar a tornozeleira de AA em breve.

Entretanto, isto já deixou sequelas. “Perdi meu emprego como limpador de piscinas porque o patrão quer que eu trabalhe de bermudas e não quer que os clientes vejam isto na minha perna”, queixou-se AA, que também é professor de futebol. O rapaz é habilidoso e chegou até mesmo a jogar nas categorias de base do Goiás Esporte Clube.

Agora, eles ficaram numa situação incômoda. AA está sem trabalho e precisa arcar com todas as despesas do mês, além dos custos para pagar um advogado que irá defendê-los. Afinal, eles saíram do centro de triagem com ordens de deportação e precisam encontrar um defensor que os ajude a superar este problema.

Eles devem continuar morando neste condomínio em Boca Raton até julho, mas pretendem mudar por sentir-se inseguros depois de ter conhecido a tal roommate. E não escondem a vontade de permanecer nos EUA, uma vez que eles veem o futuro deles e dos filhos que estão para vir aqui neste país. “Estudei na escola pública aqui, sempre fui cumpridor das leis e seria uma injustiça voltarmos para o Brasil”, lamentou AA.

O destino deles agora depende de um juiz de imigração, mas eles ainda não têm uma data marcada para comparecer à Corte de Imigração. E, claro, contratarão um advogado para defendê-los. “Um conselho que eu dou: nunca aceite um roommate sem conhecer a pessoas ou sem fazer um background check porque as consequências podem ser desastrosas, como ocorreu conosco”, advertiu AA.