Bizadão

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1917

Forrozeiro internacional

Antonio Tozzi

– Bizadão! Bizadão! Bizadão! Com essa saudação, os brasileiros da comunidade de Newark saudaram o artista e empresário artístico Lucinho Bizadão, que havia trazido o famoso grupo Roupa Nova. Ou seja, em vez de pedir bis ao grupo carioca, os brazucas de New Jersey queriam mesmo era ouvir o Bizadão, que animaria o baile.
De volta para o hotel, os próprios integrantes do Roupa Nova comentaram: “Puxa, você é querido aqui, hein?”
Na verdade, o mineiro de Belo Horizonte, que se criou em Governador Valadares, conta este caso um pouco sem jeito, porque ele mesmo reconhece que o público havia pago para assistir ao show do Roupa Nova. Mas Bizadão, verdade seja dita, já era uma celebridade regional.

A carreira de Bizadão, apelido de Lucio Marques dos Santos, começou cedo, mais exatamente aos cinco anos de idade, quando tocava triângulo e cantava músicas de Luiz Gonzaga, junto com os irmãos Reinaldo sanfoneiro de apenas sete anos de idade, e Roberto de seis anos, que se encarregava da zabumba. Logo, o trio mirim passou a ser uma das atrações da Rádio Educadora de Governador Valadares.

Logo, o trio transformou-se em quarteto, com a entrada do irmão Benilton, e em seguida virou um quinteto, com a irmã Denise. Aí, o grupo foi batizado de “Vocalistas Mirins” e mudou de ritmo, trocando o forró pelo ié-ié-ié. “Cantávamos músicas do pessoal da Jovem Guarda”, lembra Bizadão. O grupo fez sucesso local, participando de programas da extinta TV Itacolomi.

Mas a chegada da adolescência mostrou novos caminhos aos integrantes e o conjunto se desfez. Aí, Lucinho procurou outras atividades. Chegou a trabalhar na Telemig como instalador de telefones, na companhia White Martins e foi até mesmo empresário do ramo de confecções, comercializando bordados feitos artesanalmente em Muriaé, cidade do interior de Minas Gerais. Paralelamente a isto, ele nunca abandonou a música. Tocava em festinhas e em bares da noite de Belo Horizonte.

Chegada aos EUA – Na visão de Bizadão, Belo Horizonte não oferecia, digamos, muitos horizontes. Assim, em 1983, ele resolveu aventurar-se veio para os EUA. “Vim para tentar ganhar dinheiro aqui, como todo mundo”, confessou o músico.

No início, teve de se contentar com o emprego de lavador de pratos. Mas logo seu talento musical lhe abriu portas. Em Newark, Nova Jersey, cidade na qual se radicou, ele lavava pratos de dia e cantava à noite, no mesmo restaurante. A partir daí, resolveu viver de música nos Estados Unidos. Foram três anos desdobrando-se em apresentações musicais e outras atividades, para defender um dinheirinho para se sustentar.

Em 1986 recebeu um convite para tocar no Brasil Tropical, uma casa de espetáculos localizada a dez quadras da Casa Branca, em Washington. Era um sucesso. Todas as sextas-feiras e sábados, ele se apresentava em Washington e aos domingos tocava em Boston. “Ficava numa ponte aérea danada, porque continuava morando em Newark”, explica o artista.

Certa noite, entrou no Brasil Tropical o senador Ted Kennedy. Na ocasião, um grupo de capoeira estava fazendo evoluções no palco. O senador democrata pediu, então, que parasse o show porque ele queria ouvir música brasileira. Aí, lá foi Bizadão tocar para o senador ouvir. “Quando terminei de cantar, ele me chamou de lado e me disse que eu tocaria na festa dele em Cape Cod. Saiu de lá e sumiu. Um mês depois li num jornal americano que Diana Ross e Julio Iglesias haviam abrilhantado a festa do senador. Acho que o cachê deles era mais barato”, brinca Bizadão.

Discos gravados e empresário artístico – Naquela época ele lançou seu primeiro disco, um compacto simples batizado apenas de Lucinho com as músicas No Brasil Tropical e Chinelo Velho, uma de cada lado do disco. Depois, ele gravou seu primeiro “CD”, na verdade, um compacto duplo gravado em Boston com quatro canções destacando o vocabulário usado pelos brazucas que vivem nos Estados Unidos. Este disco marcou defintivamente o apelido de Bizadão, que antes era conhecido como Lucinho.

O Bizadão marcou a fase áurea de Bizadão. Entre 1988 e 1990, ele foi o pioneiro em trazer artistas brasileiros para se apresentar diante da comunidade brasileira nos EUA. Ele trouxe, entre outros, Raimundo Fagner, Roupa Nova, Chitãozinho e Xororó, Trio Parada Dura, Maria Alcina, Gonzaguinha, Alceu Valença Emilinha Borba, Celso Adolfo, Paulinho Pedra Azul, Belchior, Rubinho do Vale, Tavinho Moura e Sérgio Reis. “Aproveitei para fazer meu nome, porque abria todos os shows, me apresentando sozinho, tocando violão ou cavaquinho e acompanhado de uma bateria eletrônica”, comenta. Na década de 90, participou do disco Rei Momo, de David Byrne (ex “Talking Heads”), tocando cavaquinho em duas faixas, juntamente com Herbert Viana, do Paralamas do Sucesso.

Ele conta que no show de Gonzaguinha, em Connecticut, um sujeito sentou no palco e esbarrou no pedestal, acertando a boca do artista. Irritado, Gonzaguinha começou a chutar discretamente o “mala”. Enquanto tentava tirar o cara, descobriu que ele era um hispânico que insistia para que Gonzaguinha cantasse “La Montaña”, de Roberto Carlos. “Imagine só…”, ri Bizadão.

Com sua bateria eletrônica, ele era um verdadeiro show man: “Fazia um baile de carnaval sozinho, com o pessoal fantasiado enquanto eu ia cantando sambas enredos”. A música levou Bizadão a 20 estados americanos e ele detém um recorde de 13 participações na Festa da Independência organizada pelo empresário João de Mattos, em Nova York.

Forró assumido – Em 1996, ele gravou seu primeiro CD (desta vez, CD de verdade) “What The Hell Is Forró?”, produzido por Sérgio Sá, com músicas próprias e composição de Sá e Guarabyra. A partir daí, Bizadão voltou às raízes e partiu para dedicar-se apenas ao forró.

“Mas meu estilo é forró pé de serra”, destaca o artista, voltando aos tempos de dona Gizelda, a mãe cearense que cantava as músicas de Gonzagão e incutiu o gosto pelo forró aos seus filhos.

Depois de 12 anos de EUA, ele resolveu voltar ao Brasil, mais exatamente a Belo Horizonte, sua cidade natal. Formou um conjunto e começou a apresentar-se nas principais casas de shows da capital mineira. Lançou então o CD “Forró Pegando Fogo”, com músicas de sua autoria.

Mesmo morando no Brasil, continuou fazendo shows no nordeste dos Estados Unidos. Em janeiro de 2003, surgiu o convite para voltar a morar no país, mais exatamente na Flórida. Atualmente, apresenta-se todos os sábados no Feijão com Arroz, com o zabumbeiro Rodrigo (por sinal, seu sobrinho, filho de Reinaldo) e a banda que toca na casa noturna de Pompano Beach.

Satisfeito por estar morando na Flórida, onde o clima é mais ameno, Bizadão já tem outro projeto engatilhado; lançar um novo disco. Já vem compondo músicas para isto. O que não é difícil para quem, aos oito anos de idade, compôs sua primeira canção. Seu processo de composição é intuitivo, baseado em inspiração. “Faço uma canção (letra e música) em 15 minutos”, orgulha-se.

Quem quiser conferir o trabalho de Bizadão, deve assistir seus shows no Feijão com Arroz, e até mesmo adquirir um disco seu. No dia 26 de novembro, Bizadão e Uz Kabra do Forró tocarão no Manray Club (antiga Millenium), na Federal Highway. Para saber mais sobre Bizadão e seus discos, consulte seu site www.cadeseucd.com.br/bizadao ou envie um e-mail para bizadao@cadeseucd.com.br. Pode estar certo que ele responde!