Carmem Gusmão cria dois quadros em homenagem a Ingrid Betancourt

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Emoção na ponta do pincel

A notícia da libertação da ativista Ingrid Betancourt, que estava em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi festejada por todos aqueles que defendem os direitos humanos e a paz. Aqui no sul da Flórida, a artista plástica Carmem Gusmão decidiu transformar este sentimento em obras de arte: as telas ‘A liberdade é vermelha’ e ‘Once upon a time’ podem ser vistas na galeria de Solange Rabello, no Miami Art District, e são, segundo a própria pintora, “um grito em formas e cores”.

Carmem conta que a idéia de criar as telas nasceu da emoção ao acompanhar a primeira entrevista de Ingrid Betancourt ao sair de seis anos de cativeiro. “Naquele momento tentei entender o que leva pessoas a roubar seis anos da vida de alguém, matar, violentar a alma, destruir para sempre a infância de crianças inocentes, treinadas para matar, tudo isso em nome dos direitos humanos. Essa catarse acabou resultando em obras intensas e cheias de vida”, explicou, ressaltando que todo artista pinta o que sente, vê e experimenta.

Na verdade, a experiência de Ingrid Betancourt já tinha impactado a vida de Carmem anos antes: durante muito tempo a brasileira acompanhou, à distância, o martírio da franco-colombiana que ficou seis anos na selva, muitas vezes acorrentada a uma árvore. Carmem fez questão, por exemplo, de guardar a cópia da carta da então refém à família, onde ela narra os fatos do cativeiro, sem contudo abrir mão da defesa da liberdade em todos os níveis: “Ela é uma mulher forte, corajosa e idealista, que serve de contraponto para os atuais ícones da nossa sociedade, como mulher-melancia e outras”.

Carmem admite que ficou impressionada quando ouviu a ativista dizer que não cortará o cabelo enquanto existirem reféns em poder dos guerrilheiros das Farc: “Isso é de um simbolismo lindo, pois cada centímetro de seu cabelo representa dor. Cabelos ao vento representam liberdade e a força de Sansão estava no couro cabeludo”, ressalta Carmem. Por isso, ela procurou expressar em uma das telas esse aspecto.

Segundo Carmem, o artista tem a obrigação de cutucar o seu público e mexer com conceitos. Ela diz que muitas vezes prepara suas obras obedecendo a um padrão estético, “para combinar com o sofá da casa dos clientes”, mas vibra com a chance de criar algo que possa contribuir com uma reflexão: “Essa nossa realidade latino-americana mostra a cratera de impunidade que nos separa de outros mundos. Quis lembrar às pessoas que podemos, e devemos, fazer alguma coisa para mudar esse estigma”, finaliza.

A liberdade depois de seis anos no cativeiro

A colombiana Ingrid Betancourt Pulecio é filha de um ex-senador e ex-embaixador com uma ex-miss, que viveu boa parte da juventude em Paris (França), onde o pai servia como embaixador da Colômbia junto à UNESCO. Já de volta ao país natal, ela se destacou como ativista contra a corrupção e o tráfico de drogas na Colômbia, e também militava na causa ambiental.

A entrada para a política foi um passo natural e ela, em pouco tempo, se tornou a senadora com o maior número de votos nas eleições de 1998. Durante seu mandato, Ingrid recebeu ameaças de morte de uma organização militar desconhecida, o que a fez enviar seus dois filhos para a Nova Zelândia. Apesar disso, ela decidiu se candidatar à presidência do país e, em fevereiro de 2002, foi raptada pelo grupo guerrilheiro das Farc durante a campanha.

Passou seis anos no cativeiro, por alguns períodos acorrentada, e foi libertada no dia 2 de julho de 2008, com 14 outros reféns, em operação do exército colombiano. Desde então, Ingrid tem participado de manifestações contra as Farc e prometeu só cortar seu cabelo depois que o grupo terrorista libertar todos os reféns (cerca de 25) que ainda estão em poder da guerrilha colombiana.

Segundo a revista Variety, diversos projetos baseados no episódio de Ingrid já foram encaminhados aos executivos de Hollywood e são boas as chances de sua história acabar nas telas. O certo, até agora, é que a ativista pretende publicar um livro sobre a experiência de passar 2323 dias prisioneira, e para isso já está mantendo contatos com uma editora européia.