Casal de arquitetos brasileiros viaja em aventura pelas Américas

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O carioca Leonardo Pinheiro e a mineira Daniele Pinna estão conhecendo de perto povos e culturas de outras nações

Antonio Tozzi

Viajar talvez seja o prazer predileto das pessoas. Todos querem ver outras civilizações, conviver com outras culturas, falar outros idiomas, mas, na verdade, a maioria das pessoas viaja mesmo é nas reportagens de revistas e cadernos de turismo em jornais e nos mapas geográficos do que de verdade. Os compromissos e o cotidiano são os grandes empecilhos para a maioria das pessoas por o pé na estrada.

O casal Leonardo Pinheiro e Daniele Pinna, porém, resolveu não ceder ao comodismo e partiu para uma aventura que já dura 15 meses por todo o continente americano. A recompensa não poderia ter sido melhor: mudar a filosofia de encarar a vida e aprender a compreender diferentes culturas. Eles garantem estar valendo a pena, mesmo com os contratempos enfrentados durante a viagem.

Acompanhe a entrevista dos viajantes, com exclusividade para o AcheiUSA. Quem quiser acompanhar toda a aventura de Leonardo e Daniele, pode acessar o site www.infinitahighway.com.br.

AcheiUSA – Em primeiro lugar, gostaria que vocês se apresentassem para nossos leitores. Quem são vocês e onde começou esta viagem?
Leonardo Pinheiro e Daniele Pinna – Somos um casal de arquitetos brasileiros, apaixonados por viagens, não importa se longas, curtas, perto ou distante estamos sempre à procura de novas experiências e lugares. Após passarmos um período de férias no Egito em 2009, decidimos que era hora de fazer uma longa viagem e escolhemos as Américas. O diferencial desta para todas as outras que já tínhamos feito é que ao invés de irmos de avião optamos por cruzar todo o continente de norte a sul de carro.

AU – Desde quando vocês estão viajando e de quem partiu a ideia?
LP e DP – Apesar de termos falado sobre fazer esta viagem a primeira vez em setembro de 2009, somente a partir de março de 2010 conseguimos dar início aos preparativos, e finalmente no dia 13 de fevereiro de 2011 partimos da cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, rumo ao desconhecido. O gosto por viajar sempre foi algo comum entre nós e seria difícil dizer de quem partiu a ideia. Tudo começou com uma conversa sobre viajar para a Argentina, Uruguai e Chile, porém as coisas foram ganhando proporções e quando percebemos já estávamos dizendo para todos que iríamos de carro até o Alasca.

AU – Quem definiu o roteiro da viagem? Que tipo de carro vocês estão usando nesta aventura?
LP e DP – Como o prazo para nos prepararmos não era tão longo, e uma das coisas que não pretendíamos abrir mão era da data que estipulamos como partida, acabamos por dividir as tarefas. Eu, Daniele, como gosto de história e turismos fiquei encarregada de montar o roteiro e Leonardo ficou responsável pela parte do carro. O carro talvez seja a parte mais intrigante desta viagem, estamos a bordo do brasileiríssimo Troller!

AU – Como vocês fazem para se manter? Estão sendo patrocinados por algumas empresas ou precisam se virar sozinhos?
LP e DP – Durante este um ano que tivemos para preparar o roteiro e o carro, também nos mobilizamos para juntar o máximo de dinheiro possível, entramos num regime de contenção de gastos e trabalhamos muito nos finais de semana em projetos extras. Tentamos por muito tempo firmar parcerias, mas não obtivemos sucesso em nossos contatos, as empresas se mostram mais interessadas em oferecer alguma coisa em troca no momento em que a viagem for concluída, mas o fato é que até o momento temos nos virado e, claro, sempre com o apoio de nossos familiares.

AU – Quanto tempo demoraram para planejar a viagem e quais os itens essenciais nesta empreitada? Sei que pretendem ir para a Europa diretamente. Isto já está definido?
LP e DP – Levamos praticamente um ano para nos planejarmos. Nosso carro é pequeno e para transformá-lo em nossa casa por um longo tempo tivemos que fazer algumas adaptações que consideramos essenciais, dentre elas, o projeto de um móvel para ser adaptado no lugar dos três bancos traseiros onde pudéssemos organizar nossas coisas pessoais, compramos uma barraca de teto onde dormimos pelo menos 50% de toda viagem, substituímos os amortecedores originais por esportivos, visto que percorremos terrenos bem acidentados, sobretudo na América do Sul e também levamos no teto dois galões extras de combustível e uma caixa de alumínio com peças sobressalentes. Embora tudo isto seja essencial, sem dúvida não teríamos a oportunidade de estar compartilhando nossas andanças com outras pessoas se não fosse pelas filmadoras, câmera fotográfica e lentes! O projeto para a Europa é algo que surgiu durante o caminho, nunca fez parte dos nossos planos iniciais, na verdade, bem poucos têm conhecimento dele. Só saberemos exatamente se ele irá ter início neste ano após setembro, que é quando o verão acaba nos Estados Unidos e pretendemos retomar as estradas. O principal empecilho para a realização desta nova etapa da viagem é a questão financeira, já que o orçamento para ela não foi previsto, e esta tem sido a grande razão para insistirmos em parcerias, e até mesmo em trabalhos mensais como fotógrafos e fornecendo informações sobre os locais que visitamos. Embora ainda não esteja definido, estamos certos de que no que depender de nós irá acontecer. Sabemos por experiência própria que quando alguém deseja muito fazer alguma coisa e se esforça para isto, acaba conseguindo.

AU – Vocês encontraram problemas em algum trecho da viagem, do tipo ser roubado, carro quebrado, etc? E como foi feita a travessia do Canal do Panamá?
LP e DP – O primeiro contratempo que tivemos na viagem foi na Argentina, na pequena cidade de Trelew onde abriram nosso carro enquanto visitávamos um museu e roubaram nossos dois GPS e um Ipod com nossa coletânea musical. Perto de Bariloche furamos nosso primeiro pneu e depois outro, atualmente estamos no terceiro jogo de pneus. Depois um amortecedor quebrou no meio da estrada quando estávamos indo de Cochabamba para La Paz, na Bolívia, este episódio dos amortecedores voltou a causar dores de cabeça a primeira vez que estivemos nos Estados Unidos e todos começaram a vazar, até que finalmente a empresa que também é brasileira nos enviou quatro novos amortecedores, sendo que o envio de dois ficou por nossa conta. Tivemos uma cruzeta quebrada no Canadá, um problema com a junta de cabeçote que ainda precisa ser trocada, mas para tanto iremos desmontar o motor do Troller e checar se não há danos também no cabeçote e depois encomendaremos as peças do Brasil. A última dor de cabeça que tivemos foi com nosso cartão de débito clonado no México e que só descobrimos quando tentamos sacar dinheiro e nosso saldo era de R$0,00. Já se passaram mais de três meses do ocorrido e, embora o banco tenha devolvido o valor indevidamente retirado, ainda falta nos ressarcir os juros cobrados no valor em que ficamos negativos.Como ficamos mais tempo na América do Sul do que o planejado, optamos por enviar o carro de Cartagena diretamente para Miami, pois não poderíamos correr o risco de chegar ao Alasca depois do verão. De acordo com as leis vigentes de cada país, o carro e todo o seu conteúdo precisa ser vistoriado pela polícia de narcóticos antes de entrar no container e ser lacrado. A vistoria nos tomou um dia inteiro, mas por fim o carro recebeu o ok e fechamos o container. Voamos para Miami para aguardarmos a chegada do nosso carro que deveria demorar apenas quatro dias, mas no terceiro dia descobrimos que nosso container tinha ficado no porto de Cartagena devido a um erro no novo sistema portuário. O resultado disto foi que, ao invés de quatro, ficamos doze dias em plena alta temporada em Miami aguardando o carro, e por suspeita de drogas no porto da Colômbia novamente nosso container foi aberto e vistoriado, levando em consideração que a chave estava conosco eles chamaram um chaveiro para fazer o serviço, tivemos a sorte do agente aduaneiro ficar presente durante a nova vistoria, mas, sem dúvida, este foi um dos momentos mais indigestos nesta viagem. Existe um projeto de inaugurarem um ferry do Panamá para Cartagena onde os passageiros poderão viajar juntamente com o carro, mas ainda não entrou em vigor. Tomara quando estivermos por lá este nosso transporte já esteja em funcionamento para evitarmos o longo tempo de espera e consecutivamente gastos.

AU – Vocês estão viajando há um ano e quatro meses e quanto tempo mais pretendem ficar na estrada até voltar para casa?
LP e DP Alcançamos os quinze meses previamente previstos, estivemos nos dois extremos do continente (Ushuaia no sul da Argentina e Prudhoe Bay no norte do Alasca) assim como percorremos os 85.000km de estrada. Deixamos de fazer planos com prazos e iremos curtindo os lugares num ritmo mais lento, desfrutando com mais calma as novas descobertas. Além disto, recebemos um convite para realizarmos trabalhos voluntários como viajantes, o que certamente nos deixará ainda mais alegres e entusiasmados em não somente levar um pouco de cada lugar mas como também deixar um pouquinho de nós.

AU – Vocês viajam com dólares no bolso e vão trocando por moedas locais ou usam algum outro tipo de alternativa?
LP e DP – A questão de lidar com o dinheiro é uma das mais simples para nós. Não gostamos de viajar com muito dinheiro no bolso, preferimos usar os cartões de débito e crédito. Quando já estamos no novo país, vamos ao caixa e sacamos na moeda local. Dólares só usamos mesmo nos países onde for a moeda oficial.

AU – Durante este longo período fora, quais foram as principais dificuldades enfrentadas? E o que consideram estar sendo extremamente valioso para a vida pessoal de vocês?
LP e DP – Viajar de carro é bem diferente de você pegar um avião e mergulhar rápido no local de destino, isto porque você quando vai por terra enfrenta problemas diferentes: policiais corruptos te parando para pedir propina, pneus furados no meio do deserto, tem que se preocupar onde vai estacionar o carro, revisões, enfim, envolve uma série de precauções que não seriam necessárias em viagens aéreas. Existem dias em que experimentamos muitas emoções e sensações diferentes: frio, calor, medo, alegria, cansaço, saudade, mas todas enfrentadas e apreciadas. Viver novas experiências por si mesmo muda velhas opiniões e nos possibilita ter novas a partir de um contato real com novas culturas e pessoas, e não somente ver, ler e ouvir sobre elas através da televisão, livros e internet.Poderia dizer que hoje somos mais tolerantes, observadores, respeitadores das diferenças e ainda mais apaixonadas por viajar!

AU – Vocês estão filmando tudo e tirando fotografias para transformar este material em um documentário e em um livro. Vocês já têm contrato assinado com alguma produtora e/ou editora?
LP e DP – A ideia de escrever um livro está sendo amadurecida. Acreditamos que podemos contribuir com futuros viajantes e até mesmo pessoas que queiram dicas de lugares para visitarem, mas por enquanto não contatamos nenhuma editora.