Curitiba, verde que te quero verde

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A Pásargada do poeta pernambucano Manuel Bandeira bem que poderia ser lá, no sul do Brasil

Por: Léa Ferencz

Os americanos que foram conferir a Copa Cultural Brasil na Biblioteca de Key Biscayne no sábado dia 21 de abril saíram entusiasmados com o que aprenderam sobre a nossa fascinante capital do Paraná. Quanto aos brasileiros que compareceram, foi como redescobrir aquele pedaço da nossa terra. Afinal, muitos de nós que vivem aqui, nem sempre conseguem atualizar-se com as coisas boas que acontecem lá.

Ideias que hoje estão sendo discutidas como sistemas para cidades sustentáveis do amanhã a serem implantados em vários pontos do mundo, já são realidade em Curitiba há muitos anos. O que pode ser o futuro para outros, já é uma realidade na capital paranaense, vivida com pleno êxito.

A palestra foi apresentada ao público presente por Adriana Riquet Sabino, presidente do Centro Cultural, e pela arquiteta e urbanista Maria Elisa Mercer que trabalha no mais importante escritório de Arquitetura e Urbanismo dos EUA, a DPZ (Duany Plater-Zyber Company).
Paralelamente à palestra, as crianças presentes aprenderam como transformar lixo em arte com a artista Silvana Soriano na oficina de reciclagem de papel.

Transporte público

Um dos grandes problemas das grandes metrópoles é o trânsito, que nos faz perder boa parte das nossas vidas sentados nos nossos carros ou em ônibus em intermináveis engarrafamentos. A cidade de Curitiba conta um sistema de transporte público dos mais inteligentes.
Em 1974, a capital paranaense implantou um revolucionário sistema de transporte que pouco a pouco foi mudando a própria geografia da cidade.

O sistema consta de uma rede integrada de transporte conectando toda a cidade e, através de apenas uma passagem, é possível transitar por quilômetros, pois a troca de ônibus nos terminais é gratuita. Há os expressos biarticulados vermelhos que trafegam nas canaletas exclusivas e por isso funcionam como um metrô de superfície. Há menos paradas e atingem maior velocidade. Este sistema é também chamado BRT, do inglês Bus Rapit Transit. Os ligeirinhos são linhas complementares, implantadas nos anos noventa, com ônibus prateados que servem as estações tubo. Este sistema ganhou o carinhoso apelido por ser ainda mais rápido. Passageiros aguardam sua chegada numa plataforma elevada, facilitando o embarque e desembarque em nível e com a tarifa paga no tubo, não dentro do ônibus. As estações são cobertas e possuem elevadores hidráulicos para cadeirantes. Com paradas menos frequentes, os ligeirinhos trafegam na pista da esquerda, inovando o design dos veículos com portas do outro lado. Apesar de compartilharem ruas e avenidas não exclusivas, os ligeirinhos têm prioridade sobre os carros. Complementando a rede, ainda existem os ônibus amarelos alimentadores que cobrem toda a cidade, os verdes chamados interbairros e outras linhas especiais como a Interhospitais e a linha turismo, esclarece Maria Elisa. O sucesso do transporte coletivo em Curitiba é tal que transporta por dia mais de dois milhões de pessoas, volume maior do que a população curitibana!

A eficiência do transporte público nessa capital brasileira é um exemplo mundial. As vias estruturais foram estabelecidas como eixos de crescimento, recebendo maior densidade populacional, fator indispensável para operação de transporte em massa. Além disso, os terminais nos bairros oferecem usos múltiplos, associando o transporte a serviços de utilidade pública, como é o caso das Ruas da Cidadania.

O sistema implantado em Curitiba serviu de inspiração para diversos sistemas de transporte, tais como os implantados em Bogotá (Colômbia), o Transmilenio, Santiago de Chile (Chile), o Orange Line de Los Angeles, Califórnia, além de um futuro sistema de transportes na Cidade do Panamá (Panamá), do Sistema Transmetro na Cidade de Guatemala (Guatemala), os Metrobús da Cidade do México e a Transcarioca na Cidade do Rio de Janeiro.

Recentemente, o atual prefeito Luciano Ducci anunciou investimentos do PAC para a implantação do metrô curitibano, com a Linha Azul sendo a primeira a ser construída, conectando a Cidade Industrial ao sul da cidade (CIC-SUL). Planos preveem a transformação das canaletas da Linha Azul em um extenso parque linear, acrescenta Maria Eliza.

Lixo que não é Lixo

Em 1989, Curtiba tornou-se a primeira cidade brasileira a implantar o pioneiro programa “Lixo que não é Lixo”, que promove a separação doméstica do lixo reciclável que posteriormente é recolhido pela prefeitura. Esta e outras iniciativas receberam um prêmio em 1990 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a mais importante organização que trata de assuntos do meio-ambiente.

Câmbio Verde

O Câmbio Verde foi criado como uma modificação dos programas “Compra de Lixo” e “Lixo que não é Lixo”. Trata-se de uma troca de materiais recicláveis por frutas e legumes.

Em junho de 1991, havia um excedente na produção de hortifrutigranjeiros na área metropolitana de Curitiba e os produtores estavam encontrando dificuldades para vender seus produtos. Os fazendeiros iriam acabar transformando seus produtos em adubo ou ração para o gado.

O governo resolveu ajudar os fazendeiros de forma criativa e com custo baixo: encaminhar o produto excedente para as famílias com baixa renda de 0 a 3,5 salários mínimos.

Câmbio Verde nas escolas

Esse é um programa no qual as escolas municipais têm como objetivo conscientizar as crianças sobre a necessidade de separar o lixo e sobre os benefícios para todos, uma vez que o meio-ambiente é um bem de todos.

Os alunos levam lixo reciclado e em troca recebem, cadernos, brinquedos, chocolates, ingressos para shows e peças de teatros. Nada mal, não é mesmo?

Para participar do programa, cada aluno tem que levar cinco quilos de material reciclável (papel, papelão, garrafas, pet, vasilhames) em troca recebe uma bolsa com legumes e frutas.

Uma cidade visivelmente verde

Entre as cidades brasileiras, Curitiba é a que tem o maior índice de área verde por habitante: são 52 m2* (segundo a Organização Mundial de Saúde, o mínimo recomendado é 12 m2). Porém mem sempre foi assim. Em 1971, a cidade contabilizava parcos 0,5 m2 por habitante e a população era três vezes menor do que a atual de 1,8 milhão de moradores. Este quadro só pode ser mudado graças a campanhas de conscientização da população, como a ‘Nós damos a sombra e você a água fresca’.

“Esta condição de cidade verde também advém de seus inúmeros parques, que, além de servirem como áreas de recuperação e preservação ambiental, também celebram a riqueza cultural de seu povo, composto por imigrantes italianos, alemães, poloneses, ucranianos, árabes e japoneses. Cada uma destas nacionalidades representadas por um parque, praça ou memorial” acrescenta Maria Elisa.

Outros cartões postais da cidade incluem o Jardim Botânico, a pedreira Paulo Leminksi ao lado da Ópera do Arame, o Museu Oscar Niemeyer e seu belo centro histórico.

Enfim, ainda que enfrente os males das grandes metrópoles, como o tráfego a despeito de seu sistema de transporte exemplar, essa é Curitiba: uma cidade organizada, planejada que respeita a qualidade de vida de seus moradores. Fico com a impressão de que, se Manuel Bandeira fosse vivo, Curitiba poderia ser a sua Pasárgada, um lugar onde todos nós podemos nos sentir reis e rainhas, sem nenhum estresse e muito verde para trazer enfeitar o mundo.