DIÁRIO DE BORDO – FINAL: A religiosidade de Salt Lake City e a loucura de Las Vegas, The Sin City

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Por Chico Moura (chicomoura@gmail.com)

Especial para o AcheiUSA

Após a visita ao Mount Rushmore, em South Dakota, e de uma inesperada tempestade de neve no Yellowstone Park, em Montana, deixamos o nosso hotel no dia 14 de outubro, na cidade de Cody, em Wyoming, em direção a Salt Lake City, Utah.

Os limites geográfico dos mapas dos estados de South Dakota e Wyoming têm o mesmo formato. Parece que foram planejados numa prancha de arquitetura. São exatamente retangulares, quase quadrados.

Segundo o mapa, continuaríamos a dirigir para Utah, ladeando as Montanhas Rochosas. Àquela altura já estávamos acostumados às manias de cada um, e a viagem ficou mais prazeirosa. Mais cantoria, mais brincadeiras e já o gostinho da saudade.

A estrada, com retas incríveis num imenso planalto, já mostrava uma diferença de vegetação. Lembrava o sul do Brasil, os pampas gaúchos, ou a savana argentina.

De um lado, o horizonte retilíneo. Do outro, à distância, as famosas Montanhas Rochosas.

Ao cruzarmos a cidade de Evanston, no extremo sul de Wyoming, o trânsito na estrada 80 estava completamente parado, com barulho, gritos e diversos carros de bombeiros piscando à frente. Pensei em dar meia volta, para não estragar o passeio dos meninos. Tudo o que não queríamos era ver cenas de acidentes graves ou sangue pelo meio do caminho.

Pelo barulho, a coisa deveria estar bem feia. Diversos carros de polícia interdivam a estrada. Lembrei de um amiga, Suely Togeiro, que mora em São Paulo, e sempre me dizia que um simples café derramado na perna de um motorista na Dutra (rodovia que liga o Rio de Janeiro a São Paulo) ocasionava um congestionamento que atrasava a viagem em duas ou três horas.

Mas, não dava mais para voltar. E assim seguimos caminho. Saí para perguntar ao policial mais perto como tinha sido o acidente.

Homecoming

Não, não é um acidente, é o Homecoming.

Para quem não sabe, o Homecoming é uma festividade tradicional entre universidades, faculdades e até high schools americanas, onde uma escola anuncia a nova classe do ano letivo com uma festa, que inclui uma parada com banda de música, um jogo de futebol americano (normalmente), a coroação de uma rainha (queen), de um rei (king), e ainda uma apresentação especial de dança.

Só que na cidade de Evanston, a festa era animada pelos dois carros de bombeiros, as charretes, os cowboys (vaqueiros), vacas, bois, os garis, os dois times de futebol e todos os rednecks possíveis e imaginários interditando a estrada, criando um barulho ensurdecedor – um espetáculo único!

Da estrada liguei para o amigo Edson Lamardo, que saiu de moto de Fort Lauderdale e estava numa tenda com mais de 600 motociclistas no estado do Colorado, esperando pelo Joe Menezes, proprietário da loja Via Brasil, em Miami. Os dois haviam combinado viajar de moto até Los Angeles. Também troquei ideias com o cearense Alfredo Abreu, que escolheu a mesma época do ano para rodar de carro mais de 8 mil milhas pelos EUA.

Salt Lake City

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
Salt Lake City, cidade que concentra o maior número de mórmons nos Estados Unidos

Chegamos em Salt Lake City mais cedo do que havíamos planejado. Já estávamos ficando profissionais em estradas e conseguíamos administrar melhor o tempo de cada parada etc.

Voltamos para a cadeia Hilton de hotéis. O carro estava completamente sujo de sal, de neve, chuva e lama.

Enquanto os meninos faziam compras num shopping ao lado do hotel, fomos lavar o carro. Na entrada do car wash perguntamos à funcionária do balcão (que mais tarde descobri ser mórmon) se o sistema era “touch free”. Ela deu uma gargalhada e não conseguia mais parar de rir. E toda hora repetia: “Touch free? Touch free?” E tocava sugestivamente o próprio corpo.

Como poderia uma religiosa mórmon ter tamanha picardia?

No hotel, a recepcionista só faltava pular o balcão e com um sorriso permanente fazia de tudo para nos agradar. Eu disse: “Já sei, você é mórmon e por isto que é tão feliz!”

Salt Lake City é a cidade que abriga o maior número de mórmons dos Estados Unidos. Alguns poucos ainda praticam a poligamia. De uma regra geral, desenvolveram uma cultura única com um extraordinário senso comunitário. Dedicam a maior parte do seu tempo servindo à igreja, e os jovens, quase sempre, optam por viajar pelo mundo pregando a sua doutrina. No Brasil, podemos identificar os jovens mórmons pelas suas calças escuras, camisas brancas de mangas curtas, sempre pedalando em diferentes bicicletas. Eles têm uma “Lei de Saúde”, que abomina as bebidas alcoólicas, cigarro, café, chá, ou qualquer substância que vicie.

Daí a explosão de alegria e liberdade da senhora do car wash, que repetia: “Touch Free! Touch Free!”

Salt Lake City foi uma das cidades mais bonitas e de maior religiosidade de nossa viagem. No dia seguinte fomos para Las Vegas, a Cidade do Pecado.

Durante a viagem, já tínhamos a manha de controlar os horários, os mapas, a internet, as pesquisas de hotéis, qual o melhor local para comer e os pontos mais tradicionais de cada cidade.

Las Vegas

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
Em Vegas tudo é mega: a maior loja de souvenirs do mundo

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
Com 140 metros de altura, a réplica da Torre Eiffel, no Hotel Paris de Las Vegas

Em Las Vegas, no estado de Nevada, resolvemos ficar numa região mais familiar, um pouco distante da Strip, a rua principal dos cassinos, e nos hospedamos em Henderson, o local onde mora o casal Ciro e Cristina Batelli.

O nosso amigo Mr. Vegas (recentemente entrevistado por Tonia Elizabeth para o AcheiUSA) não estava na cidade. Como sabemos, ele está gravando uns especiais para o programa do Faustão, mostrando curiosidades pelo mundo. Mas conseguimos falar com a Cristina, sua esposa. Ela deu um apoio logístico, e combinamos sair no dia seguinte para conhecer a cidade.

Liguei para o Adam Gomes, filho do nosso amigo Luizinho, de New York. Eles abriram uma churrascaria, a Via Brasil, localizada no 1225 South Fort Apache Road, a dez minutos da Strip.

A Strip, entre a Sahara Avenue e a Russel Road, é a rua principal de Vegas. A rua do pecado, dos cassinos, das lindas prostitutas, dos bares, bebidas, drogas e shows. Está situada numa região de mais ou menos uns cinco quilômetros de extensão. Os grandes hotéis e cassinos da cidade estão localizados nessa área. Para se ter uma ideia, dezenove dos 25 maiores hotéis do mundo estão localizados na Strip, totalizando uma oferta de 70 mil quartos.

O Adam me disse que o pai, Luiz Gomes, e o sócio (no restaurante Plataforma, de New York) João de Matos estavam hospedados no Arias. Ligamos para o Arias, reservamos cinco lugares e fomos jantar num dos mais luxuosos cassinos de Las Vegas. A um preço de 40 dólares por cabeça, pode-se comer uma lagosta, stone crabs e todos os frutos do mar (ilimitados), com diversas opções de comida pelo sistema all you can eat. Além disto, por toda a noite, o vinho é de graça.

Quase impossível encontrar os amigos Luizinho e João de Matos num cassino de Las Vegas, entre mais de 500 mesas diferentes. Uma verdadeira loucura. Andamos pela Strip e conhecemos os hotéis: Mandala Bay, Sahara, Caesar Palace, onde Ciro Batelli foi durante muitos anos vice-presidente, The Venetian, New York, New York, uma réplica perfeita da Big Apple, Luxor, com sua tradicional pirâmide do Egito, Paris, com sua Torre Eiffel de 140 metros de altura, Excalibur, um verdadeiro castelo medieval, Flamingo, onde originariamente foi rodado o filme Ocean’s Eleven, MGM Grand, o maior da cidade, e o Bellagio, a construção mais cara e luxuosa até agora.

Las Vegas oferece diversão para toda a família. Alguns cassinos têm parques temáticos e parquinhos de diversão para as crianças. Até os postos de gasolina oferecem opções de jogo, com muitas máquinas caça-níqueis etc.

A viagem parecia não ter fim. Após 18 dias na estrada, começamos a sentir saudades da nossa caminhada, das nossas manias. No MacCarran International Airport, a despedida das máquinas caça-níqueis. Voamos para Los Angeles e de lá voltamos para Miami.

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
Na entrada do hotel Arias, em Las Vegas: Carlos Moura, Julia Moura, Marcella, Eric e Chico Moura

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
No aeroporto MacCarran, a despedida de Las Vegas.


Diário de Bordo: uma volta pelos Estados Unidos com Chico Moura