DIÁRIO DE BORDO III – Viajando pelo norte dos Estados Unidos

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Por Chico Moura (chicomoura@gmail.com)

Especial para o AcheiUSA

Dia 11 de outubro

Após percorrer de carro os estados da Flórida, Geórgia, South Carolina, North Carolina, Tennessee, Kentucky, Illinois, Missouri, Kansas, Nebraska, Iowa e South Dakota, saímos da cidade de Rapid City, perto do Mount Rushmore, em direção a Cody, uma cidade com menos de 10 mil habitantes, no estado de Wyoming.

Pegamos a Rota 90 e fomos até a 14-16. Tarde da noite, no escuro, cruzamos o Big Horn Mountain. Foi quando eu comentei com o Carlinhos, meu filho: “Que montanha diferente… É toda branca.” Lógico, estava coberta de neve e não podíamos imaginar que saindo de Miami encontraríamos, naquela época do ano, neve, a uma altura que variava entre 13.167 pés (4.013 metros) e 9.033 pés (2.950 metros). O carro simplesmente ia subindo, subindo…

Dia 12 de outubro Cody

No mapa, parecia a melhor cidade, boa base para a nossa exploração ao Yellowstone Park. O nome da cidade é uma homenagem a William Frederick Cody, o lendário Buffalo Bill, que nasceu no Território de Iowa, hoje Estado de Iowa. Cody foi caçador, soldado e showman. Uma das figuras mais interessantes do Velho Oeste que, entre muitas homenagens, recebeu do governo uma medalha de honra pelos serviços prestados ao exército americano.

Buffalo Bill viajou por diversas regiões e por dez anos apresentou o Wild West Show, onde permanentemente exibia o escalpe de um guerreiro Cheyenne, afirmando que aquela era a sua vingança pela morte do General Custer, aquele que fora derrotado e morto na Grande Batalha de Black Hills, pelas mãos do nosso mais recente herói, Crazy Horse (veja na parte II desta série).

Mais tarde, ele criou o Buffalo Bill Wild West, uma espécie de circo que circulou por todo o país, servindo no futuro de inspiração para filmes de diversos diretores e produtores de Hollywood.

E foi exatamente na cidade de Cody que, pela primeira vez, ficamos num hotel fora da cadeia Hilton. Convenci meu filho de que a aventura, o desconhecido, seria mais interessante do que qualquer planejamento. Ah, a divergência entre a cabeça de um civil e a de um militar… Foi ali que descobrimos o Cody Hotel, um luxuoso cinco estrelas, cheio de figuras tradicionais do Oeste, com uma decoração mantendo as tradições do final do século dezenove e início do vinte. Hóspedes e funcionários vestem aqueles jeans de cowboys, cintos prateados, chapelões e botas. Ao acordar, cruzando com outros turistas, o tradicional cumprimento: “Howdy!”

Após o café da manhã, uma rápida sauna e um pulo na piscina, seguimos para o Yellowstone Park. Foi o mais longo trajeto de nossa viagem, tamanha a beleza do local. A cada curva um novo cenário, que nos obrigava a parar e tirar uma foto. Até ali eu não sabia que estávamos ao pé das Montanhas Rochosas (Rocky Mountains), a uma altura de mais de 4.000 metros.

No caminho, a primeira surpresa: a imagem de um homem andando sobre as águas de um rio. Parecia uma miragem. Pensei que fosse algum boneco ou alguma propaganda, mas não. Era, de fato, um fotógrafo andando sobre um caminho de pedras que os índios construíram, cruzando toda extensão de um rio. O interessante é que não eram grandes pedras. Mais pareciam milhões de pedrinhas criando caminhos sinuosos dentro do rio. Mais tarde descobrimos que aquele caminho era usado para um torneio anual de pesca.

A estrada 14-16 não oferecia muita segurança. A cada momento pensávamos que cairia uma pedra gigantesca em nossas cabeças. Túneis atravessando as rochas, sem muito acabamento mostrando que, ao redor, tudo era natural. Sem aquelas falsidades características dos cenários americanos. Enormes precipícios… Em um dado momento, paramos para tirar uma foto e estávamos acima das nuvens, numa mistura de névoa e neve, depois chuva e visibilidade zero. Na primeira descida, após uma curva, um raio de luz anunciando um sol distante, brilhante. Um dos espetáculos mais lindos que já presenciei em minha vida. A sensação de estar no topo do mundo, vendo o planeta terra lá em baixo, ensolarado. Ali já estávamos a uns 4.000 metros de altura. O cansaço já dava o sinal de sua graça quando alcançamos o portão Leste do Yellowstone Park – que tem quatro acessos: norte, sul, leste e oeste. A entrada leste é pelo estado de Wyoming, onde estávamos hospedados. O parque está ocupa uma área que alcança os estados de Montana, Wyoming e Idaho.

Na entrada, uma situação cômica. Meu filho mostrou os documentos de militar e a ranger (guarda florestal) disse que nós não precisávamos pagar, porque ele estava sendo transferido para Las Vegas, para servir num outro posto do exército. Foi quando eu perguntei: “E se voltarmos amanhã, temos que pagar? Se você não passar por esta guarita pode acontecer uma situação de outra transferência…” Ou seja, insinuando de que o próximo ranger também iria nos liberar. Mas, se fosse com ela, não seria possível. Descobrimos que funcionários das forças armadas em transferência não pagam pedágio através dos parques americanos.

Ela foi super gentil. Pegou todos os mapas possíveis e imaginários e alertou que não tínhamos correntes nos pneus, sendo portanto impossível passar por uma determinada estrada, onde supostamente cairia uma tempestade de neve.

O Yellowstone Park é o primeiro parque nacional americano. Criado em 1872, recebeu o nome por causa do rio Yellowstone, que corre por quase toda a região. É ainda composto de montanhas, cachoeiras, lagos, uma das maiores florestas petrificadas do mundo e, os famosos gêisers. São 55 quilômetros de largura por 72 quilômetros de comprimento, em cima do maior vulcão do mundo, o Caldera Volcano. É um espetáculo único: um anel de fogo circundando diversos pontos, numa das maiores atrações turísticas dos Estados Unidos.

A atração mais famosa é o Old Faithful Geiser. E, como não poderia deixar de ser, os americanos criaram um verdadeiro espetáculo na hora marcada da erupção. Um enorme relógio anuncia quando será o próximo show da natureza. O nosso, marcado para as 4:20 da tarde, atrasou e o locutor, durante os cerca de quatro minutos em que o Velho Fiel fez forfait, se desculpou dizendo que aquilo era atípico, etc e tal… De repente, um enorme jato de gases e água quente sai em erupção. Parecendo de fato que o vulcão inteiro iria explodir. Mas a explosão foi de alegria. Palmas. De turistas de todo o mundo.

No caminho, fomos observando as placas anunciando a presença de animais selvagens. Durante algum tempo não vimos nem um passarinho. De repente, aparece um corvo monstruoso. Parecia que estávamos sendo atacados, como no filme Os Pássaros, de Hitchcock. Maiores do que os nossos tradicionais urubus do Brasil, os corvos andavam (sem levantar voo) pelas estradas, subiam nos carros e pareciam estar num eterno bate papo entre eles. A partir daí, começamos a procurar o Zé Colmeia e o Catatau, personagens já bastante conhecidos de nós, brasileiros.

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
Chegada ao Yellowstone National Park

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Old Faithful Geiser, uma das atrações turísticas

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Manada de bisões pasta no Yellowstone National Park

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O elk, um dos maiores veados do mundo, habita aquela região

De repente, uma manada de bisões (os famoso búfalos americanos) se aproxima em direção à estrada. Um espetáculo que não poderíamos deixar passar. Esperamos uns dois minutos e eles cruzaram a nossa frente. Tranquilos, gordos e mansinhos. Pareciam tão amiguinhos que até dava vontade de brincar. Foi quando um deles, preocupado com a segurança do seu baby de algumas toneladas, se enfureceu e deu uma virada brusca, e corremos para o carro. Mais tarde, numa das lojas de souvenirs do parque, vimos alguns filmes mostrando a ferocidade e o perigo que os turistas experimentaram no passado. A partir daí, ficamos de olho nos ursos, veados, lobos e raposas que cruzaram os nossos caminhos.

Após esperar pelo Old Faithful entrar em erupção, voltamos tranquilos para a saída do parque. Olhamos o relógio e planejamos que seria mais rápido voltar pelo caminho proibido já que, aparentemente, não havia sinal de qualquer tempestade de neve e o carro era uma BMW, portanto deveria estar acostumado a qualquer tormenta europeia. Então (após uma votação), voltamos pelo caminho mais curto e mais perigoso. Eu e o meu filho Carlinhos sabíamos que este caminho seria o mais difícil, o mais cansativo e estressante. Mas, como somos meio parecidos, encaramos a jornada. Após muito sacrifício, chegamos à saída (do lado leste) do parque. Ao chegar, vimos uma placa de closed. Fechado, pela tempestade de neve.

Mas qual tormenta? E aí? Como sair do parque? Encarar por mais 4 ou 5 horas no escuro uma tormenta? Um casal de namorados nos seguiu de carro e perguntou como sairíamos daquela situação. No idea…

Isto poderia trazer um certo pânico para qualquer pessoa normal, mas não para um soldado que acabara de chegar da guerra do Afeganistão e um civil meio louco, como eu. Vamos raciocinar. Com duas crianças dentro do carrro, sem pneus (correntes) de neve. E aqueles animais que provavelmente iriam cruzar o nosso caminho. O que fazer?

Foi quando eles começaram a aparecer. Pela primeira vez na minha vida cruzei com um elk, um veado gigantesco, cheio de chifres enormes, encarando o BMW. Enquanto ele não saiu da estrada nós não piscávamos. Aquele silêncio mortal. Parecia um filme de terror. A cada curva, um deslizamento e o perigo aumentando.

Liguei para um número de telefone, que me informou: devido à tormenta de neve, a melhor saída seria por Montana (norte do parque), umas 3 ou 4 horas de estrada no meio da noite e da tormenta…

A uma velocidade que variava entre 20 e 30 milhas por hora, conseguimos sobreviver à tormenta.

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
Cartaz do show comandado pelo lendário Buffalo Bill

Viajando pelo norte dos Estados Unidos
Vista das encantadoras Rocky Mountains no estado de Wyoming

À certa altura, o carro de um ranger nos acompanhou, e ele disse que se chegássemos a Mammoth Hot Springs, estaríamos salvos, sairíamos por Montana. E, não importando o tempo, estaríamos vivos!

O final da história é que chegamos ao hotel às duas da manhã, sãos e salvos….

Não percam o próximo capítulo: a religiosidade de Salt Lake City e a loucura de Las Vegas, The Sin City.


Diário de Bordo: uma volta pelos Estados Unidos com Chico Moura