Dos EUA ao Brasil de carro: a viagem dos sonhos de Moré e Rui (parte I)

Oitenta dias viajando numa van Plymouth dos Estados Unidos até o Brasil, percorrendo quase todos os países da América Latina, é o novo recorde estabelecido pela dupla Darci Moré, de Ribeirão Preto (SP), e Rui Machado, de Francisco Beltrão (PR)

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A façanha figura no livro dos recordes e no site www.rankbrasil.com.br. Mais do que o recorde – 28 mil quilômetros, 80 dias de estrada e 14 fronteiras atravessadas -, no entanto, o que ficou para os dois aventureiros foram as memórias de uma viagem inesquecível.

O AcheiUSA, veículo que noticiou a partida destes intrépidos brasileiros, traz com exclusividade a narrativa desta aventura incrível. Para rememorar esta viagem, Moré trouxe dois CDs lotados de fotografias que documentam os diversos locais por onde passaram.

Entretanto, para não prejudicar a reportagem e tirar dos leitores o gosto da aventura, o AcheiUSA decidiu dividir a aventura em três edições – com a primeira delas concentrando-se no período em que viajaram pela América do Norte (Estados Unidos e México). Na próxima edição, daremos destaque à passagem da dupla pela América Central e depois mostraremos como eles fizeram para sobreviver durante o trajeto por vários países da América do Sul. Vale a pena acompanhar esta aventura, que mistura momentos de êxtase com as belezas naturais, medo por situações imprevisíveis, risos por momentos inusitados e amizades com pessoas que eles conheceram durante a viagem.

Contato feito através do AcheiUSA – A data para início da viagem não poderia ter sido mais apropriada: 7 de setembro de 2004, Dia da Pátria. O marco de partida foi o centro de Miami, mais exatamente à frente do Hotel InterContinental. Os dois postaram-se em frente à van (uma Plymouth Voyager 1995, preta, devidamente preparada por Alexandre e Wender, da Alex Auto Repair) e selaram o pacto assumido há um ano. A dupla levou, ainda, mapas dos países por onde passariam e uma estratégia de logística, montada por Maura Sischetti especialmente para a viagem deles.

É bom lembrar que esta aventura nasceu nas páginas do AcheiUSA, quando Darci Moré, morador de Pompano Beach, publicou um anúncio curioso: “Louko procura loukos para viagem de carro para o Brasil”. Alguns “loukos” responderam ao anúncio, mas somente o gaúcho Rui Machado, de Francisco Beltrão, que vivia em Ocala, perto de Orlando, manteve-se firme à idéia.

Após uma série de reuniões para estabelecer o roteiro e o plano de viagem, decidiram ter chegado a hora de partir. Levaram com eles seis galões de óleo de motor, freios e transmissão para troca, víveres, uma van super equipada, que também fazia o papel de motel.

Muitas vezes eles dormiam nela por pura falta de opções ou por questões econômicas. Afinal, Moré e Rui fizeram uma viagem relativamente barata: US$ 8,4 mil, pouco em comparação com a aventura vivida e com o tempo gasto para se locomover. E tiveram de custear praticamente todas as despesas, porque não conseguiram encontrar patrocinadores. Agora, Darci Moré está planejando uma viagem pela Europa, chegando até a China. Mas para isto, admite, precisará de patrocínios, além de outros companheiros de viagem.

Roteiro pelos EUA – A saída de Miami foi tranqüila e eles seguiram para o norte, passando por Orlando, ainda na Flórida, em 16 de setembro. Depois de deixarem a cidade do Reino Mágico, foram para Boston. Durante o trajeto, porém, passaram por Atlanta, Geórgia, onde hospedaram-se na casa da irmã de Rui e conheceram integrantes do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) local. Aliás, apesar de viver no Paraná, Rui é gaúcho e faz questão de manter a tradição de seus conterrâneos.

De lá, passaram por South Carolina e North Carolina, onde visitaram a maior casa particular dos Estados Unidos, em Asheville, com 233 cômodos. “Pagamos US$ 45 cada um para visitar as dependências e demoramos quatro horas para percorrer a casa. Isto sem contar o tour pelos jardins, que possuem três alqueires na frente e mais três atrás. Os donos ficam lá, enquanto alguns músicos tocam violinos, executando músicas clássicas. É um passeio que recomendo a todos”, conta Moré.

Continuando para o norte, passaram por Virginia (onde visitaram o cemitério da cidade de Arlington, no qual são sepultados os soldados americanos mortos em guerras, como as atuais do Iraque e Afeganistão), Delaware e Maryland – Rui e Moré percorreram o túnel submerso de 60 metros de profundidade e três quilômetros de extensão por baixo do mar.

Em Washington, DC, como não poderia deixar de ser, passaram em frente à Casa Branca e deram ciao para George W. Bush. Na seqüência, foram para Nova York, posando em frente ao Marco Zero, local onde foram derrubadas as Torres Gêmeas. Passaram, ainda, por Boston, berço da intelectualidade americana, com universidades de gabarito como Harvard e MIT.

Pegando a rota para o oeste foram em direção a Chicago e estiveram em Niagara Falls, onde quase Moré errou o caminho e atravessou para o lado canadense (o que seria um problema por causa da documentação). Em Ohio, viram a usina nuclear, em Iowa estiveram na maior parada de caminhões do mundo. O local tem capacidade para abrigar 2.400 caminhões e os caminhoneiros circulam por seu estacionamento a bordo de um carrinho de golfe dirigido por funcionários. Em Nebraska, viram o relógio de sol indígena feito com carros e foram recompensados com um pôr-do-sol indescritível.

Moré admite ter ficado apaixonado pelas montanhas rochosas e geladas do Colorado. Também passaram pela estação de esqui de Lake Tahoe, Nevada, onde encontraram um urso revirando lixo em frente à cabana onde estavam hospedados. Na Califórnia fizeram o roteiro turístico, com direito a turismo por São Francisco e Los Angeles.

Mais formações rochosas foram vistas no Grand Canyon no Arizona, onde também passaram para conferir Las Vegas, a cidade dos cassinos. Finalmente chegaram à famosa Rota 66, em Novo México, onde Moré roubou a placa para sua coleção, e esticaram até o Texas, cruzando a fronteira para o México, na cidade de Laredo.

Roteiro pelo México – Entraram no país vizinho no dia 13 de outubro. Embora chocados com a pobreza, em contraste com a pujança americana, viram coisa bonitas como as pirâmides astecas, as praias de Acapulco, a paisagem desértica de Oaxaca e a bela rota turística que liga Monterrey a Tampico e Cancun.

A dupla teve de alterar o roteiro inicial por um ato humanitário. Ao encontrar um mexicano perdido, morrendo de fome e de frio, decidiram levá-lo até a capital. Na Cidade do México, teve uma grande decepção, com a cidade abarrotada de automóveis e muito poluída. “Sem dúvida, o lugar mais feio pelo qual passei”, testemunhou Moré.

Todavia, os dois viajantes trouxeram boas recordações do México. “É um país cheio de praias lindas, com boa comida, um povo hospitaleiro e custo de vida barato”, garante Moré. Está aí uma boa dica para quem quer conhecer o país vizinho.