Emílio Santiago morre, mas sua obra vive

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Um dos mais talentosos cantores brasileiros morreu esta semana, vítima de um acidente vascular cerebral

Tonia Elizabeth

Emilio SantiagoEmílio Santiago morreu na quarta-feira (20), aos 66 anos. Emílio estava internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Samaritano, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, depois de sofrer um AVC (acidente vascular cerebral) no dia 7 de março. De acordo com o hospital, ele teve complicação no quadro clínico de AVC (acidente vascular cerebral) isquêmico – quando falta circulação de sangue no cérebro.

O corpo do cantor foi velado na Câmara de Vereadores, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, e o enterro realilzado na quinta-feira (21), no Cemitério Memorial do Carmo, no túmulo que Emílio comprou em 2006 para a mãe.

Ele tinha uma ligação sentimental com o sul da Flórida, local para onde vinha sempre que queria descansar. Ele fez muitos amigos aqui e chegou até mesmo a ter um imóvel na região. Muitas pessoas da comunidade tiveram o privilégio de privar de sua amizade e aqueles que o conheceram sempre enalteceram sua camaradagem e alto astral.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1946, formou-se em Direito, instado por seus pais, pela Faculdade Nacional de Direito. Mas a música falou mais alto. Em casa, seu ouvido apurado selecionava o que havia de melhor na época, na voz dos cantores Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Anísio Silva, entre outros. Depois, João Gilberto e a bossa nova conquistam de vez o jovem bacharel.

Seus amigos o incentivavam a participar dos festivais que então fervilhavam e Emílio foi vencedor na maioria deles. Participou também de um programa de grande audiência e prestígio na época: “A Grande Chance”, apresentado por Flávio Cavalcanti, conquistando a todos com sua voz grave e a suavidade de sua interpretação. Daí para o primeiro disco foi um pulo: gravou “Transas de Amor”, um compacto para a Polydor, gravadora que o contratou e onde gravou 11 discos. Nesse ínterim, gravou para a CID seu primeiro disco, produzido por Durval Ferreira, que foi o passaporte para sua projeção nacional.

Cantou na noite, em várias casas do Rio e de São Paulo, o que lhe deu “tarimba” e que confirmou, de maneira definitiva, a sua escolha pela música em vez da carreira de advogado. Fazendo shows por todo o Brasil, seu nome crescia e Emílio se afirmava como cantor de diferentes estilos, das baladas aos sambas suingados. Foi, em 1988, então, convidado por Roberto Menescal e Heleno Oliveira para fazer o primeiro disco da série “Aquarela Brasileira”, releitura de clássicos brasileiros que se tornou sucesso imediato e surpreendeu a todos, pois o cantor colocou voz em 20 músicas em menos de seis horas. Começou, também, a colecionar prêmios, discos de ouro e de platina e a ter canções de grandes compositores como tema de novelas, sendo isso reservado aos cantores de maior sucesso no país.
Sofisticação e bom gosto

A partir das “Aquarelas”, dois elementos ficaram bem claros na carreira de Emílio Santiago: a sua voz inigualável e a capacidade de escolher um repertório sofisticado e de extremo bom gosto.

E o terceiro belo álbum de Emílio Santiago, gravado em 1977 e ora reeditado pelo selo Dubas Música, “Feito para Ouvir” é dos títulos mais classudos da discografia de Emilio Santiago. A (boa) ideia foi de Roberto Menescal, na época diretor artístico da gravadora Philips. Menescal sabia que o intérprete começara sua carreira cantando na noite carioca como crooner de boates como a Flag, na qual se apresentava na companhia de trio liderado pelo pianista Laércio de Freitas e quis que Emilio fizesse um disco que captasse essa atmosfera íntima da noite. “Feito para Ouvir”, como conta o próprio Emílio em texto escrito para a oportuna reedição do álbum, foi gravado praticamente ao vivo, em dois ou três dias de estúdio. O fino repertório mesclou temas já entoados pelo intérprete na noite casos do samba-canção Rua Deserta (Dorival Caymmi, Hugo Lima e Carlos Guinle) e de Olha Maria (Tom Jobim, Chico Buarque e Vinicius de Moraes) com músicas selecionadas sem obviedade ou preguiça por Menescal e pelo produtor do disco, Roberto Santanna.

O mais recente álbum de Emílio Santiago, o primeiro pelo selo de sua propriedade, a Santiago Music, intitula-se “Só Danço Samba”. Produzido por José Milton em 2010, o CD é uma homenagem ao “Rei dos Bailes” Ed Lincoln, e serve também para comemorar seus 40 anos de carreira. Com standards da era do sambalanço e clássicos da música brasileira, como “Samba de Verão” (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle), “Só Danço Samba” (Tom e Vinícius), “Falaram Tanto de Você” (Durval Ferreira/ Orlandivo),”Sambou, Sambou” (João Donato/João Melo), “Vou Rir de Você” ( Helton Menezes) e “Na Onda do Berimbau” (Oswaldo Nunes) que remetem ao tempo dos bailes e foram hits em sua época.

O disco, por todos estes predicados, ganhou formato audiovisual e virou DVD, que já está nas lojas via gravadora Biscoito Fino em parceria com a Santiago Music. O DVD, que também traz hits dos cantor e standards internacionais, foi gravado no Citibank Hall de São Paulo.