EUA: bóias-frias são vítimas de abuso sexual

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Relatório do grupo Human Rights Watch alerta para a situação de mulheres indefesas no campo

DA REDAÇÃO com dados da AP – As bóias-frias em todo os Estados Unidos geralmente sãon alvo de perseguição e agressão sexual, em parte devido à sua condição imigratória que as intimida para chamar a polícia, segundo afirma um relatório publicado nesta quarta-feira (16) pelo grupo Human Rights Watch.

A pesquisa preparada pelo grupo defensor de direitos humanos reflete dois relatórios anteriores sobre os riscos enfrentados pelas mulheres e meninas, em particular na área da Califórnia, onde vivem a maioria dos bóias-frias do país.

“Nossa pesquisa confirma aquilo que os defensores dos bóias-frias em todo o país acreditam: a violência e o assédio sexual vivido pelas bóias-frias é tão comum que algumas mulheres no campo veem estes abusos como uma condição inevitável do trabalho agrícola”, revelou o relatório.

Cerca de 630.000 das três milhões de pessoas que fazem o trabalho agrícola de temporada são mulheres. O governo federal calcula que 60% delas não têm permissão legal para estar no país.

É mais fácil para os abusadores saírem impunes do assédio sexual quando há desequilíbrio de poder, e este desequilíbrio de poder é particularmente descarado no campo, disse à The Associated Press a autora do relatório, Grace Meng.

O documento pede ao Congresso que aprove leis que protejam as mulheres imigrantes que trabalham no campo, e ao Departamento de Segurança Doméstica dos Estados Unidos que rechace regras que incentivam os policiais locais a reportar violações federais de imigração.
O relatório descreve incidências de violação, assédio, passadas de mão e uso de linguagem vulgar contra mulheres, que asseguram não reportar os atos por medo de serem demitidas, ou pior, deportadas.

Meng entrevistou 52 bóias-frias e 110 advogados, trabalhadores de serviço social, policiais e membros do setor agrícola em New York, Carolina do Norte, Flórida, Texas, Colorado, Ohio, Arizona, Pensilvânia, Tennessee e Washington, mas se concentrou principalmente na Califórnia pelo fato de haver mais bóias-frias no campo.

As mulheres que trabalham para empresas contradas são mais vulneráveis do que aquelas que trabalham diretamente para um empresário rural, afirmou o relatório.

O objetivo era demonstrar que este é um problema nacional e mostrar as travas governamentais existentes para divulgar estes crimes e abusos. E para demonstrar que é um problema de direitos humanos, disse Meng.

Embora estudos anteriores tenham revelado que até 80% das mulheres que trabalham no campo foram assediadas ou atacadas, uma advogada no coração da região agrícola da Califórnia disse que sua experiência coloca o número mais próximo à metade. Acrescentou que o problema existe em todos os setores empresariais em que há mulheres imigrantes que talvez não saibam o idioma inglês nem confiam nos policiais, apesar de as granjas figurarem como os maiores empregadores onde os abusos são mais frequentes.

Os casos raramente são reportados às autoridades, disse Amparo Yebra da organização não governamental chamada Rede de Serviços de Preservação da Família Westside, em Huron, Califórnia.

Temos tido muitas queixas, disse Yebra. A maioria das queixosas são trabalhadoras do campo, mas se têm a oportunidade de abandonar o campo para trabalhar em uma loja, alguns dos proprietários também aproveitam-se destas pessoas.

O assédio sexual no local de trabalho é ilegal na Califórnia e, segundo Bryan Little, da Federação Agrícola da Califórnia, o Legislativo identificou isto como um problema universal. O grupo de afiliação da federação, Serviços de Trabalho dos Empregadores Agrícolas, oferece prevenção contra assédio sexual e treinamento, que os empregadores devem proporcionar a cada dois anos a qualquer pessoa que trabalhe como supervisor.

A agricultura é um setor empresarial importante na Califórnia, mas parece pouco provável que aprovem esta lei só pelo trabalho agrícola, disse Little. Tem que abranger algo maior nos locais de trabalho.