Europeus comemoram derrota de Bush, mas questionam seu impacto

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Muitos europeus receberam com satisfação a arrasadora derrota sofrida pelo partido do presidente dos EUA, George W. Bush, nas eleições de terça-feira, e esperam que os democratas ajudem a colocar fim aos desentendimentos entre o velho continente e os norte-americanos.

Analistas, no entanto, disseram que a política externa do país não deve mudar de um dia para o outro, especialmente em relação ao Iraque, e avisaram que os democratas podem ser mais difíceis de lidar do que os republicanos quando se trata de assuntos como o comércio internacional.

A simpatia dos europeus pelos EUA virou pó depois de um período de solidariedade que se seguiu aos ataques de 11 de setembro de 2001. Atualmente, o governo Bush é visto, em muitos países, com suspeita ou mesmo com hostilidade declarada.

O pleito de terça-feira, no qual os republicanos perderam o controle da Câmara dos Deputados, foi interpretado como um golpe contra Bush e uma chance para que se leve mais equilíbrio à ordem mundial.

“Há menos Casa Branca na América agora e um pouco menos de América no mundo”, afirmou Dominique Moisi, conselheira especial do Instituto Francês de Relações Internacionais.

“O fim da América (de Bush) é uma boa notícia para todos os que amam a América”, acrescentou.

O governo Bush afastou-se gradativamente da Europa e de grande parte do resto do mundo a respeito de uma série de assuntos, entre os quais a crise no Iraque, a prisão norte-americana da baía de Guantánamo (Cuba) e a recusa em assinar o Protocolo de Kyoto, o acordo internacional sobre as mudanças climáticas.

O Grupo Socialista do Parlamento Europeu, o segundo maior bloco do órgão depois dos conservadores, comemorou o resultado das urnas nos EUA, afirmando que Bush havia saído “bastante enfraquecido”.

“Estamos aliviados agora que conseguimos ver o começo do fim de um pesadelo mundial de seis anos”, afirmou Martin Schulz, presidente do grupo, que reúne 201 parlamentares.

INTENÇÕES DOS DEMOCRATAS

Segundo a Constituição dos EUA, o presidente determina a política externa do país. Apesar de o Congresso ter alguma influência na área por meio das comissões de supervisão, muitos analistas não esperam que os democratas exijam qualquer mudança imediata — especialmente a respeito do Iraque.

“Os democratas devem tornar a vida de Bush mais difícil, mas não vão ficar muito no caminho dele porque não desejam ser prejudicados pela derrota no Iraque”, disse François Heisbourg, da Fundação para Estudos Estratégicos em Paris.

No entanto, alguns políticos europeus acreditam que os democratas tentarão convencer a Europa a se comprometer mais profundamente com alguns assuntos internacionais, em especial com o Afeganistão.

“Isso deve acontecer”, disse Karsten Voigt, do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. “E eu tenho certeza de que eles vão exigir dos europeus que participem não apenas de missões humanitárias, mas também de missões militares em Darfur (no Sudão).”

A Alemanha mantém cerca de 2.900 soldados no Afeganistão, a maior parte deles estacionados em regiões relativamente mais calmas. O país recusou-se até agora a ceder às pressões norte-americanas para enviar militares a áreas mais perigosas.

Analistas também advertiram que os democratas são mais protecionistas na área comercial. Essa postura deve acabar com as esperanças de que seja firmado um acordo internacional de comércio, porque Bush não deve conseguir do Congresso os poderes especiais de que precisa para firmar um documento do tipo.

“Em vista disso, não haverá qualquer chance de os EUA ajudarem a reavivar a rodada de negociações de Doha sobre o comércio mundial, apesar de esse acordo poder estar irremediavelmente morto, independente do que aconteça”, escreveu a colunista Bronwen Maddox, no jornal britânico The Times.

“Isso significa o fim das esperanças de que os EUA poderiam aceitar um corte nos subsídios agrícolas e poderiam obrigar a Europa a fazer o mesmo”, disse.

Mas tais preocupações não diminuíram a satisfação sentida em muitas capitais européias devido à derrota do partido de Bush em uma época de crescente insatisfação com a liderança norte-americana.

Mesmo os moradores do maior aliado europeu dos EUA, a Grã-Bretanha, pareciam satisfeitos com o fato de Bush ter perdido a maioria no Congresso.

“Ele não é mais o líder que já foi. Ele não parece estar tomando decisões. Parece que não há qualquer coerência nas medidas adotadas por ele”, disse John Howard, gerente de uma empresa de Londres.