Flórida passa a reconhecer o casamento gay

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Proibição terminou na segunda-feira (5) e irá beneficiar milhões de casais com a legalização da relação

Ana Paula Franco

ARQUIVO PESSOAL
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David Bialski e Jorge Sanchez casaram-se no mesmo dia da legalização da união gay

“Nunca pensei que nesta vida eu veria isso acontecer. Nunca imaginei que poderia viver uma vida normal, como qualquer outra pessoa, e agora, aqui na Flórida”, disse o médico-veterinário brasileiro David Bialski que se juntou a inúmeros casais em Miami na segunda-feira (5), depois das 2pm, quando o casamento gay passou a ter validade em Miami Dade. Nos demais condados da Flórida, o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo passou a ter validade a partir da meia-noite do dia 6.

David Bialski se casou com o americano Jorge Sanchez em Coral Gables no mesmo dia em que o casamento foi aprovado. “Já sabíamos que a lei estava para sair e fizemos o curso que é exigido para o casamento no final de semana anterior. Eu estava trabalhando, o Jorge me ligou e falou: ‘vamos’? Saímos e fomos nos casar somente nós dois e um amigo como testemunha”, contou.

David e Jorge estão juntos há pouco mais de um ano e já moravam juntos. “Como brasileiro, eu estava preocupado com o preconceito, em ter algum tipo de adversidade para enfrentar, mas o casamento foi super tranquilo. A juíza que celebrou foi muito simpática e foi um momento único e emocionante”, disse.

Bialski, que vive nos EUA há 17 anos, confessa que jamais esperava que o casamento fosse legalizado aqui na Flórida e já estava preparado para ir para outros estados, como New York ou Washington para se casar. “Eu dei muita sorte por ter uma família tranquila, mas sabemos que o preconceito ainda existe e é muito forte. Mas os avanços estão acontecendo e só temos que comemorar”, ressaltou.

Para o ex-agente de imigração, Ricardo de Brito, que em 2010, foi responsável, por aprovar o green card para um búlgaro casado com um americano na Flórida, onde o casamento gay ainda não era legal, deu sua opinião sobre o assunto.

“Graças a Deus o planeta está abrindo os olhos e vendo que para amar e casar não há limite de idade nem de sexo. Estou emocionado e muito feliz! Achei uma decisão sóbria e democrática. Vivemos em um pais hipócrita, colonizado por puritanos que fingem ser santos. Então, quem são essas pessoas para falarem que um casamento entre pessoas do mesmo sexo é pecado?

De Brito afirma que a USCIS nunca colocou nenhum empecilho sobre esse tema, inclusive os memorandos internos que recebiam eram sempre no sentido de orientar os agentes para tratar as pessoas de igual para igual. Para o ex-agente, esse tema trará muita controvérsia internamente na imigração. “Sim, existirá muita fraude, isso já está mais do que obvio, e com certeza o departamento de Segurança Interna aumentará a fiscalização com muito mais rigor. Evidentemente que cada caso é um caso, e não se deve generalizar”, disse de Brito.

Longa luta
A Flórida se tornou o 36° estado norte-americano a reconhecer as uniões entre casais do mesmo sexo e os casamentos gays realizados em outros estados.

Foi uma longa luta dos apoiadores da causa gay contra as leis estaduais que, respaldadas pelos eleitores em 2008, proibiam os casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

A proibição terminou depois que o juiz federal Robert Hinkle anulou em agosto a lei na Flórida por ser inconstitucional e, há poucos dias, disse que todos os auxiliares jurídicos eram obrigados pela Constituição a emitir licenças matrimoniais a todos os casais gays que as solicitassem.

Esta última sentença de Hinkle acabou com qualquer dúvida ou possível oposição dos 67 condados da Flórida a emitir licenças de casamento homossexual, cuja associação argumentava que a decisão judicial só era aplicável aos dois condados onde foram apresentadas as exigências.

“É um acontecimento histórico. Termina na Flórida uma proibição discriminatória e chega a igualdade matrimonial para milhares de famílias `de casais homossexuais`”, disse à Agência Efe Carolina González, diretora da União Americana de Liberdades Civis da Flórida (ACLUF).

González ressaltou que a ordem do juiz fará não só que os “secretários da Corte comecem a emitir licenças de casamento homossexual”, mas o “reconhecimento de benefícios diretos” legais dos casais do mesmo sexo.

Nesse sentido, explicou González, a legislação ampara casais como a ACLUF que defendeu nos tribunais, um casal lésbico que estava junto há 47 anos e, após uma das partes ficar viúva, o “certificado de falecimento mostrava que ela não era casada” e, portanto , não era beneficiada das prestações do seguro social de sua companheira morta.

Proibição prejudicial
A ativista dos direitos civis disse que a proibição prejudicava muitos casais homossexuais de outros estados que, ventilando a possibilidade de se mudar para viver na Flórida, descartavam essa possibilidade porque “perderiam benefícios” pelo não reconhecimento do casamento homossexual.

Além disso, prosseguiu González, no distrito de Miami Beach “existe um bom número de casais gays, que “atraem muito” a comunidade lésbica, bissexual, gay e transgênero (LGBT) do país. “É um dia formoso para a realização do casamento gay, mas também para ressaltar a luta do casais por seus direitos legais”.

No próximo sábado, a igreja Unity on the Bay, do movimento espiritual “Novo Pensamento”, realizará em Miami um casamento em massa e gratuito ao qual serão convidados todos os casais homossexuais casados, na Flórida ou outros estados, que queiram renovar seus votos ou contrair matrimônio.