Geraldo Sá

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O som internacional na voz de Geraldinh

Antonio Tozzi

Seu nome de batismo é Geraldo Sá. Mas, aqui na Flórida, poucos o conhecem por este nome. Porém, se você falar Geraldinho ou Gera quase todos sabem de quem se trata. Ele é uma figura bem conceituada no cenário musical e também famoso promotor de eventos. Sua personalidade facilita o contato humano, ampliado pelo fato dele sempre estar à frente de concursos, festas ou tocando nos lugares mais badalados do pedaço.

Geraldinho é o que se pode chamar de espírito indômito. Desde pequeno estava à procura de novas emoções na cidade em que nasceu: Belo Horizonte. Aos 12 anos de idade, formou a banda Zyc para tocar nos bairros. “Era uma coisa de brincadeira, nunca estudei música a sério e os cinco meninos faziam aquilo para se divertir. Eu tocava guitarra e cantava e chegamos a fazer até mesmo showmícios em BH”, conta o artista. O repertório era composto por músicas das bandas que faziam sucesso na época: RPM, Paralamas…

Primeira parada: Nova York – Sua carreira explodiria mesmo na Flórida, antes, porém, houve um desvio de rota. Insatisfeito com a falta de perspectivas em sua cidade, Geraldinho – então um jovem de apenas 18 anos de idade – conversou com o amigo Betinho (um dos sócios do Restaurante Feijão com Arroz), que na época morava no estado de Nova York e trabalhava numa fazenda, cuidando de patos, sobre a possibilidade de vir para os Estados Unidos. Betinho incentivou-o a vir e até mesmo arrumou um emprego para ele no mesmo local onde trabalhava.

Os dois amigos tinham de cuidar dos patos e alimentá-los para que seus fígados ficassem inchados e daí pudesse ser extraída uma iguaria: o foie gras, matéria-prima essencial para a elaboração do patê de foie gras. O irônico é que Geraldinho pegou tamanha aversão pela tarefa que nem mesmo quer saber do tal patê. Sua facilidade em aprender inglês o ajudou a ser promovido para o laboratório da fazenda e logo conquistou a confiança do patrão, o qual insistiu para que ficasse trabalhando lá. Ele admitiu ter ficado balançado com a proposta, afinal já estava habituado ao trabalho, às pessoas e até mesmo à neve.

Entretanto, sua vontade de conhecer lugares novos prevaleceu e ele veio para a Flórida com alguns amigos. Esbaldaram-se com a praia e o clima agradável daqui. Para se sustentar, Geraldinho trabalhou no setor de construção civil. Logo fez amizade com o pessoal e eles perceberam que o rapaz tinha talento. Sugeriram, então, que ele procurasse o Flamengo, uma casa de shows na esquina da Federal Hwy com a Sample Road.

Geraldinho foi aceito na hora e começou a se apresentar no local. Pelo menos, ele tinha uma galera cativa: o pessoal da construção. Dali, foi para o Tropicana, onde começou a tocar com Juarez, por sinal, também mineiro de Belo Horizonte.

Carreira internacional – A ginga de Geraldinho atraiu a atenção de Al Nero, um músico que tocava no Stan’s Piano Bar, um clube elegante instalado na Commercial Boulevard. “Por saber da fama do local, perguntei ao Al como deveria ir vestido. Ele me disse: ‘Vá bem vestido’. Coloquei um terno e fui para lá, onde cantei Wave e Garota de Ipanema. Recebi o pagamento e um conselho: ‘Compre um tuxedo’.

Fiquei um ano e meio cantando bossa nova e outras músicas brasileiras. Isto me abriu as portas para animar festas de aniversários e casamentos de muitos freqüentadores”, comentou.

Lauren, uma cantora americana, se revezava com Geraldinho no Stan’s. Certa vez, uma pessoa chamada Boris Selarc foi ao bar para convidar Lauren para integrar uma orquestra que viajaria para o Alasca a bordo de um navio da linha de cruzeiros Princess. Ela não foi encontrada e depois não mostrou muito entusiasmo pela proposta, por julgar que este tipo de trabalho era adequado para artistas mais velhos. Já Geraldinho ficou interessadíssimo. Fez, então, o teste e foi aceito.

Al mare – Realmente, Geraldinho era mesmo o mais jovem da turma. Aos 21 anos de idade, era o crooner da orquestra, interpretando clássicos de Frank Sinatra, Henry Mancini, Nat King Cole, Dean Martin.

Foi um aprendizado valioso. Ele ficou seis anos viajando em navios de três grandes companhias (Royal Caribbean, Carnival e Princess), conhecendo lugares como o Caribe e o Alasca – local pelo qual se apaixonou. “É lindo observar as baleias e os golfinhos nadando ao lado do navio e ver as montanhas verdejantes ao fundo. Acompanhei os salmões subindo as corredeiras para a desova. É um espetáculo fascinante. Visitei Juneau (a única capital americana onde só se chega de barco ou de avião) e pude sentir a exuberância daquela natureza agreste, além de ter conhecido esquimós. Enfim, uma experiência fascinante. Todos deveriam conhecer o Alasca”, sugeriu.

Pois é, apesar dos lugares bonitos, e da rica convivência com pessoas de todas as nacionalidades – “Para mim, foi excelente para aprimorar meu inglês e meu espanhol, além de aprender francês e italiano” -, com as quais travou amizades que se perpetuaram através de cartões postais e, mais tarde, evoluíram para os e-mails, Geraldinho sentiu que havia chegado o momento de procurar outras alternativas. Mais uma vez, seu espírito inquieto se manifestou. Claro que os alojamentos menos nobres do navio somados ao repertório com pouca variação contribuíram para sua tomada de decisão.

Os cartões postais esmaecidos e as coleções de selos e moedas (já esquecidas) foram o que restou de suas viagens em navios de cruzeiros embalando os sonhos dos passageiros. Além das imagens, sempre vívidas, dos lugares visitados e das pessoas com quem conviveu.

Promotor de eventos – Depois de ter abandonado o comodismo de cantar as mesmas músicas, com os mesmos arranjos e acompanhado dos mesmos músicos, Geraldinho partiu para outra. Ele juntou-se a Guto e formaram a dupla Guto e Gera, que se incumbiu de promover o Clube Mombaça. A boate lotou. O sucesso foi tão grande que, na segunda semana, o gerente da Emerald City (outra boate de Fort Lauderdale) contratou os rapazes para promover o local. Foram seis meses de agito, com a casa sempre cheia. Eles realizaram o concurso As Panteras e criaram outras atrações. Conseguiram, sobretudo, o equilíbrio ideal entre homens e mulheres, algo que todo dono de casa noturna gosta.

Depois de seis meses, Guto e Gera foram promotores do Velvet Lounge, uma casa menor e com clientela mais selecionada. Lá, fizeram o concurso Garota Destaque.

Como o trabalho no Velvet Lounge era mais tranqüilo, Geraldinho pôde voltar a se dedicar à música. Ingressou na banda Sugar Loaf, que fez shows no Clevelander, em South Beach, e no Brazil Brazil, em Broward. Nesta época, conheceu o pianista Cláudio Caldas, que serviu como seu orientador profissional. “Com o Cláudio passei a ver que me faltava a ginga brasileira, possuía o swing internacional, mas carecia deste elemento. O Cláudio me deu uns toques fantásticos e pude enriquecer minha cultural musical”, disse Geraldinho.

Fase mais sossegada – Depois de ter inaugurado o Golden Princess, na época o maior navio do mundo, em uma turnê pelo Caribe, Geraldinho decidiu dar um tempo com os cruzeiros marítimos. Sua intenção é dedicar-se mais à sua vida pessoal – sobretudo agora que encontrou um novo amor.

No momento, está bastante ativo. Além de manter a Masonry Experts (sua companhia de construção), tocar sexta-feira, sábado e domingo no Churrascos, Geraldinho é mestre de cerimônias do Karaokê, com apoio do AcheiUSA, realizado todas as quintas-feiras no Restaurante Feijão com Arroz.

Apesar de toda esta atividade, ele pensa em gravar um disco com canções próprias e versões de canções internacionais. Pode ser seu segundo disco, pois no primeiro, batizado de “Dance”, uma coletânea de vários ritmos (bolero, valsa, cha cha cha, merengue, samba), ele assina como Geraldo Janeiro. “Quando gravei, me sugeriram que usasse algum nome que remetesse a Brasil. Aí, escolhi Janeiro por causa da cidade do Rio de Janeiro”, explicou.

A continuar neste ritmo, ele vai tornar-se Geraldo Janeiro, Fevereiro e Março, porque Geraldinho está a todo vapor. Portanto, um mês só é pouco para resumir a intensa atividade deste artista da comunidade.

Ou melhor, das comunidades, porque como um camaleão Geraldinho é capaz de se adaptar a qualquer situação.