Gore Vidal critica homofobia dos EUA em suas memórias

0
690

Gore Vidal acaricia um gato enorme, na sala de sua casa em Hollywood Hills, ao argumentar, de uísque em punho, que as atitudes puritanas dos Estados Unidos em relação ao sexo fez desse “o país mais estúpido da Terra”.

Gore Vidal acaricia um gato enorme, na sala de sua casa em Hollywood Hills, ao argumentar, de uísque em punho, que as atitudes puritanas dos Estados Unidos em relação ao sexo fez desse “o país mais estúpido da Terra”.

Aos 81 anos, Vidal não é conhecido à toa como a pessoa mais rabugenta dos EUA. Há poucas brigas com as quais o famoso romancista, dramaturgo e polemista não se envolveu nos últimos 50 ou 60 anos. E, neste momento, o alvo de sua ira é o comportamento dos norte-americanos em relação à homossexualidade.

Há anos, ele fala abertamente sobre sua sexualidade, mas não aceita se definir nesses termos.

“Dizem por aí que a atividade sexual é o equivalente da identidade humana. Que idéia mais maluca. Se alguém é vegetariano, não significa que seja inimigo de todos os que comem carne. Isso significa que um vegetariano, toda vez que vê carne no prato dos outros, mata açougueiros ou quebra restaurantes?”

Dito isso, Vidal inicia um mergulho pelo universo de seus gostos e desgostos, um assunto presente em detalhes no segundo e recém-publicado volume de suas memórias, “Point to Point Navigation” (navegação ponto a ponto).

O título do livro remete às experiências dele durante a Segunda Guerra Mundial, quando serviu a bordo de um navio da Marinha no mar de Bering, uma região onde os nevoeiros são tão frequentes que era impossível ver as estrelas, o que obrigava o comandante a navegar olhando para os acidentes geográficos presentes no mar ao invés de ficar olhando para sua bússola.

PONTOS NO MAR

No livro, Vidal passa de uma pedra para outra, de um assunto para outro, de uma pessoa para outra, algo semelhante ao que faz quando conversa.

O ataque contra a homofobia transforma-se em uma história sobre o primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli, no poder no século 19, e depois em uma previsão sobre o colapso da economia norte-americana.

Colecionador de pessoas e de anedotas estranhas ou reveladoras a respeito delas, Vidal pode soar como se conhecesse alguém mesmo que esse alguém tenha vivido mais de 100 anos antes dele.

Essa atitude torna-se evidente, por exemplo, quando conta como os homossexuais são perseguidos, o que o leva a citar os problemas enfrentados por Disraeli pelo fato de ter sido o maior outsider a ocupar o cargo de premiê britânico.

“Ele era um judeu convertido à Igreja da Inglaterra. Mas continuava a ser um judeu na opinião do arcebispo de Canterbury. Disraeli recebeu uma visita do arcebispo, que lhe disse: ‘Estamos um pouco preocupados sobre sua religião. O senhor nasceu judeu, mas converteu-se ao anglicanismo. O senhor nomeará bispos. Sendo assim, devo perguntar-lhe qual sua religião pessoal’.”

“Disraeli respondeu: ‘Todos os homens inteligentes possuem a mesma religião. Mas nenhum homem inteligente diz qual religião é essa”‘, afirmou Vidal.

É dessa forma que o escritor fixa os limites até onde irá ao falar sobre sua vida pessoal.

Vidal diz que ele e alguns de seus amigos mais próximos, como o dramaturgo Tennessee Williams, sofreram devido à homofobia, mas acrescenta não estar interessado em discutir sua vida sexual ou até mesmo sua vida. Ele se recusa a ser classificado segundo sua sexualidade.

“Não costumo escrever sobre mim mesmo. Então, achei que deveria ter algum talento que me separava dos autores americanos interessados em escrever apenas sobre eles mesmos. Eu sei que o fim está próximo. Sendo assim, achei ser o momento de fazer uma recapitulação”, afirmou Vidal.

E isso lhe dá a chance de escrever coisas ternas sobre seu companheiro de 53 anos, Howard Auster, que morreu de câncer no cérebro e no pulmão depois de os dois terem regressado aos EUA vindos da Itália, onde moraram por 30 anos. Vidal diz que espera ser enterrado ao lado de Auster.