Imigrantes indocumentados do Alabama nomeiam procuradores para cuidar dos filhos

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Crianças cidadãs americanas podem ficar abandonadas se os pais forem deportados

Apavorados por causa das medidas imigratórias restritivas recém-aprovadas no Alabama, famílias que vivem ilegalmente no país estão tomando atitudes que seriam inimagináveis há apenas alguns dias: os pais estão pedindo aos amigos, parentes, colegas de trabalho e conhecidos para cuidarem dos filhos que ficarem para trás, caso os pais sejam presos ou deportados.

Vários imigrantes ilegais assinaram documentos na semana passada outorgando a terceiros a guarda de seus filhos, caso seja necessária, revelou um grupo de assistentes sociais. Um casal de indocumentados que reside no condado de Shelby conseguiu que o chefe prometesse mandar os três filhos deles – todos os três cidadãos americanos – para o México, caso os pais fossem presos por causa da nova lei.

Um dos principais defensores da nova medida, o senador estadual Scott Beason, disse que essas preocupações não foram levadas em conta quando a lei foi discutida, e que tais histórias estavam sendo orquestradas para “mexer com o coração” e criar simpatia pelos imigrantes ilegais.

“Sempre que eu saio, não tenho certeza da volta,” disse uma mulher, às lágrimas. “Não posso parar de trabalhar. Minhas filhas precisam de sapatos e de outras coisas.”

A assistente social Jazmin Rivera ajuda todas as semanas a dezenas de imigrantes hispânicos no preenchimento correto de procurações para amigos e outras pessoas que possam cuidar das crianças com risco de ficarem abandonadas.

“As pessoas estão com medo, e querem ter certeza de que seus filhos vão ficar em segurança caso aconteça alguma coisa com os pais,” disse Rivera, diretora da Coalizão para Interesses Hispânicos do Alabama.

Já o senador Beason, republicano por Gardendale, duvida que casos do tipo sejam tão comuns como se fala.

“Eu faria de tudo para ficar com minha família”, ele disse. “Não consigo compreender que alguém possa deixar seus filhos para trás,” completou.

A lei do Alabama, considerada por muitos como a mais rígida dos EUA, foi aprovada este ano pela câmara estadual do Alabama, controlada pelos republicanos, e assinada pelo governador Robert Bentley. Uma juíza federal bloqueou algumas partes da lei, mas os pontos principais permanceram – incluindo uma medida que autoriza a polícia a deter sem direito de fiança os suspeitos de serem imigrantes ilegais. Na sexta-feira (7), o departamento de Justiça dos EUA e grupos de direitos civis demandaram a uma corte de apelações federal a suspensão da lei, argumentando que sua aplicação poderia trazer discriminação até mesmo para os residentes legais.

Entretanto, a lei permanece em vigor, pelo menos até o dia 29 de novembro, quando a corte de apelações vai ouvir as demandas.

Os pais de família imigrantes dizem que não têm escolha senão buscar ajuda para a guarda dos filhos, porque temem que as crianças – muitas delas cidadãs americanas – fiquem sozinhas em casa ou mandadas para abrigos, caso os pais sejam de repente vítimas da nova lei.

Cristina Gonzalez, 28, disse que perguntou informalmente ao zelador do condomínio onde mora de aluguel se ele poderia cuidar da filha de dez anos, caso ela e o marido fossem presos por estarem em situação irregular no país. A menina, cidadã americana que coleciona medalhas por bom aproveitamento nas aulas, precisa terminar a escola na América, e está profundamente adaptada ao Alabama. Gonzales disse que seus outros três filhos, entretanto, são muito pequenos para ficar aqui, e iriam com ela para o México, embora sejam todos cidadãos americanos.

“Temos medo de voltar para o México por causa das drogas, dos cartéis e das matanças”, disse Gonzales. “E temos medo de ficar aqui por causa da lei.”

De acordo com a nova lei, uma simples abordagem policial por causa de uma infração de trânsito pode gerar supeitas de o motorista estar ilegalmente no país, e por isso ser preso, sem direito à fiança, se não apresentar prova de residência legal. Vários distritos policiais disseram que ainda não estão observando a lei porque os policiais ainda não receberam treinamento adequado aos detalhes da lei.

E não são apenas os pais de família que estão assustados com a nova lei. Os filhos também estão preocupados com o que possa acontecer com os pais.

Os pais de Jose Perez o trouxeram para os EUA do México, onde nascera, quando ele ainda era bebê. Hoje, ele é um rapaz de 15 anos que está na high school e mora ilegalmente no Alabama. Jose, com forte sotaque sulista e o sonho de um dia tornar-se enfermeiro, teme ser forçado a voltar para um país que jamais conheceu, e tem medo do que possa acontecer com seus pais caso eles sejam detidos. Ele já viu a família de um amigo dividida porque alguns membros estavam ilegais e foram deportados para o México.

“Foi horrível ver uma amiga que considero quase como irmã chorar deseperada ao ser obrigada a despedir-se da mãe e da irmãzinha menor”, contou Perez, que vive com os pais e um irmão mais velho num subúrbio de Birmingham.

Enquanto a corte de apelações não julga o caso, Maria Azamar reza para que a lei seja suspensa. Ela mora ilegalmente nos EUA, já teve uma das filhas deportada, e agora cuida com uma procuração da neta de 4 anos. Azamar, 40, disse que é difícil explicar para a menina porque a mãe e os amigos estão voltando para o México.

“Eu não quero dizer para ela que nós não somos bem-vindos aqui”, disse Azamar.