Isabel Gouveia

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Gravurista e pintora de emoções

Antonio Tozzi

Isabel Cristina Cardoso Gouveia. Nome de princesa, alma de artista. Mineira de Ituiutaba, Isabel construiu sua carreira em São Paulo, cidade para onde mudou depois de ter conhecido seu então marido em Goiás. Agora, ela veio para a Flórida e trouxe consigo sua arte para os EUA.
Morando atualmente na cidade de Lantana, no condado de Palm Beach, Isabel dedica-se às artes plásticas há mais de 20 anos. Tudo começou quando ela fez o curso de Desenho Industrial na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), uma das mais conceituadas faculdades de São Paulo no segmento de Artes.

Paralelamente à sua formação profissional, Isabel começou a trabalhar numa instituição financeira: Delfin Caderneta de Poupança. Para quem não sabe, o grupo foi liquidado e, obviamente, seus funcionários foram demitidos. Daí, Isabel foi para a Rosset Tecidos, uma empresa ligada à estampa e cores.

Entretanto, numa reviravolta, nove meses depois, os funcionários da extinta Delfin foram contratados pela Caixa Econômica Federal. Isabel fixou-se, então, na tradicional instituição financeira brasileira, onde trabalhou por 17 anos, desempenhando a função de secretária. Enfim, emprego estável, aposentadoria garantida e salário razoável.

Virada de mesa – De repente, Isabel sentiu que era o momento de mudar. À semelhança de um comercial de TV veiculado pela Escola Panamericana de Artes, também de São Paulo, ela resolveu virar a mesa. Trocou a segurança da carreira de bancária (no caso da CEF, de economiária) pela aventura de se tornar uma artista conhecida no cenário mundial. Pediu dois anos de licença não remunerada e se mandou para os Estados Unidos. Depois de tentar Nova York e Atlanta, acabou vindo para o condado de Palm Beach, onde fixou residência.

Entretanto, neste meio tempo Isabel foi construindo sua carreira como artista plástica. “Cursei o Liceu de Artes e Ofícios (perto da Pinacoteca do Estado de São Paulo) e trabalhei no atelier livre no Museu Lasar Segall, onde desenvolvi trabalhos de gravura”, conta a artista.

E a busca incessante pelo aperfeiçoamento a levou a fazer um curso com Paulo Pasta, um dos mestres brasileiros na arte da gravura, no Museu Brasileiro da Escultura.
Exposições – Isabel Gouveia começou a expor em 1990, numa mostra coletiva realizada na Galeira Sesi/Fiesp, em São Paulo, em comemoração ao décimo aniversário do Centro Cultural do Liceu de Artes e Ofício. Quatro anos depois, ela integrou o time de gravuristas que fez uma exposição da Estação Santa Cecília do Metrô de São Paulo.

Chegou, então, a vez de fazer exposições individuais. A primeira delas aconteceu – como não poderia de ser – no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal, em São Paulo, em 1995. Afinal, por que não prestigiar Isabel, funcionária da instituição e artista talentosa? Dois anos depois, ela realizou outra mostra individual, desta vez no Espaço Cultural Banco do Brasil, também na capital paulista.

Mostras fora de São Paulo – 1996 marcou a saída das obras de Isabel Gouveia dos limites do estado de São Paulo. Este ano ela participou de uma coletiva no VII Salão de Artes Plásticas do Samape, em João Pessoa, na Paraíba, e suas obras fizeram suas primeiras aparições no cenário internacional, ao serem expostas numa coletiva: 9ª Mostra Internacional “Pequenas Formas Gráficas”, realizada na cidade de Lodz, na Polônia.

No ano seguinte, mais duas coletivas com o mesmo título “Conexão III”: uma no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, em Olinda, e outra no Núcleo de Arte Contemporânea da UFPB, em João Pessoa. A Fundação Cultural, de Uberaba (MG), abriu suas portas, em 1998, para receber a mostra “Múltiplas Tendências”, com obras de Isabel Gouveia expostas em seu estado natal.

“São Paulo Gravura Hoje/Mostra Rio Gravura” foi o nome da mostra realizada no Palácio Gustavo Capanema, da Funarte, no Rio de Janeiro, em 1999. Esta exposição coletiva, considerada pela própria artista como uma das melhores entre as que participou, significou uma mega exposição de gravuras. “Para mim, foi excelente por ter reunido o melhor do estado de São Paulo, escolhido por Maria Bonomi e Renina Katz (dois grandes nomes das artes plásticas brasileira). Por isso, fiquei muito feliz de ter sido convidada para expor minhas obras”, exultou Isabel, que em 2001 e 2002 participou de cinco mostras.

Desembarque nos EUA – Os Estados Unidos da América pareceu a melhor alternativa para a artista, que veio em busca da divulgação de seu trabalho. Mais do que isto: começou a produzir novos trabalhos. “Aqui desenvolvi uma nova série de quadros, que, acredito, possam ser mais atraentes para o público americano”, revelou a pintora e gravurista, que agora está aventurando-se por uma nova forma de arte, o mosaico elaborado com cerâmica, um misto de obra de arte, ornamento e mesa para ser usada na área externa: “O artista precisa sempre estar recriando-se”.

Aqui nos EUA ela começou a dedicar-se mais fortemente à arte neste ano. Em 2004, uma de suas obras foi exposta numa residência em Gables Estates, mas é a partir de 2005 que seu trabalho começa a ser valorizado. Ela está na exposição promovida da TVAA (Texas Visual Arts Association) National 2005, no Irving Arts Center, da cidade de Irving, no Texas, Isabel teve duas de suas obras selecionadas para a mostra. Detalhe: apenas 92 trabalhos foram selecionados de um total de 1420. E ela foi uma das escolhidas entre 480 artistas que se candidataram à mostra. “A seleção foi efetuada por um júri gabaritado e para mim é importante participar desta mostra”, diz Isabel, que também teve a obra “Hanging Fruits II” escolhida para o Contemporary Drawing Show 2005, na TW Wood Gallery & Art Center, na cidade de Montpelier, em Vermont.

Para participar destas mostras, Isabel verifica os locais que estão aceitando inscrições dos trabalhos de artistas. “Logicamente, é preciso analisar quais mostras são mais compatíveis com minha obra. E todo mês envio dois a três slides para os responsáveis pelas exposições. Este ano estou investindo mais em arte e estou satisfeita porque já começou a dar resultado”, sorriu.

Ela conseguiu até mesmo alguém que esteja disposta a apostar em seu talento. A restauradora de arte Mary Girard, americana casada com um brasileiro, tem ajudado informalmente Isabel Gouveia na divulgação de seu trabalho e orientando-a sobre quem procurar aqui nos EUA. “Informalmente, ela é minha marchand. Só falta oficializarmos nossa relação”, concluiu a artista plástica.

Definir a obra de um artista ou a corrente artística à qual pertence é uma tarefa que somente críticos de artes plásticas podem fazer com propriedade. Admito, não sou expert em pintura ou gravura para poder emitir uma opinião abalizada sobre o tema. Portanto, em vez de bancar o analista, julguei ser melhor abrir espaço à própria definição da artista sobre seu próprio trabalho. Vale a pena ler seu depoimento (no box abaixo).

AUTO-ANÁLISE DA OBRA ARTÍSTICA

“A arte veio para mim sem grandes explicações. Sempre apreciei os livros, e a partir deles os desenhos, as pinturas e as gravuras.

A gravura foi a primeira forma de expressão a me chamar a atenção e a despertar a vontade de fazer algo em arte. Gosto de sentir as marcas, as texturas do relevo da tinta no papel. Através dela pude fazer algo, inspirado nas formas que vejo na natureza: referências do serrado, típicas do meu país, das vegetações com suas sementes pendentes, seus frutos, suas marcas no relevo trazendo uma paisagem quase minimalista, que me emocionam pela sua simplicidade.

A pintura veio pouco depois, apaixonei-me pelas cores, essas que causam uma certa estranheza, parte do meu trabalho. As formas foram depurando-se, simplificando-se na busca de uma essência, talvez como pretexto para fazer pintura, de camada sobre camada e construir um espaço de cor.

Na arte, onde quase tudo já foi feito, gosto de aprender com os mestres do passado, mas é olhando para o contemporâneo límpido e mínimo que me situo.

Busco ultrapassar os meus limites, fazendo e colocando na tela a minha poética, o que vem do meu interior, para satisfazer esta vontade enorme de pintar e de expressar algo.”