Martha Luizza, A mineira com alma baiana

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Vanuza Ramos

Se Daniela Mercury não estivesse já sido apelidada de furacão, certamente o codinome cairia como uma luva para a mineira Marta Luiza de Andrade Cardoso – agora rebatizada Martha Luizza-, nascida em Governador Valadares mas que tem no sangue herança baiana e quando sobe no palco se transforma. Canta para cem pessoas com uma entrega invejável e o entusiasmo de quem está cantando para público de dez mil.

Não por acaso foi no axé que ela se encontrou como artista. “A primeira vez que vi uma banda tocando foi na Bahia. Me deu uma coisa esquisita; eu senti algo diferente e no dia seguinte fui atrás da banda”, explica Martha, que na época tinha 13 anos e nunca havia pensado em cantar.

Não pensava em cantar profissionalmente, porque amadoristicamente já dava o ar da sua graça em festas de amigos, na escola e também cantava em coral de igreja, já que a mãe era evangélica e a influenciava a seguir sua doutrina. “Eu gostava de me mostrar; onde tinha uma festa eu estava lá, cantando ou encenando”, lembra a cantora. Ela até recorda um dos maiores vexames que já passou na vida, numa comemoração de escola.

“Era a festa da diretora da escola e eu tinha que levar uma pomba branca, um símbolo de paz. Mas eu não achei e peguei no quintal da vizinha um pombo cinza. Eu levei o tal pombo para festa e quando soltei ficou todo mundo rindo e me criticando, dizendo que eu tinha levado um urubu para a diretora”, conta.

A primeira oportunidade – A história da qual ela ri hoje poderia ter se transformado num drama na vida da garota, se ela não fosse sapeca e extrovertida o suficiente para encarar tudo com normalidade. E era com esse espírito que ela buscava novas oportunidades de expressar sua arte, até então represada. Uma dessas oportunidades surgiu aos 13 anos, quando foi passar uns dias na casa da tia em Fonte Nova, Salvador. “A minha tia era diferente da minha mãe; era toda pra frente, moderna e eu gostava de ficar lá. Uma noite ela me levou para uma festa, num clube. Foi a primeira vez que eu ouvi uma banda da Bahia tocando”, relata.
Foi a tal banda, que se chamava Samanta Band, que a fez sentir “algo esquisito”.

O destino de Martha estava decidido a partir daí: viver no palco.
No dia seguinte ao show ela foi em busca da banda e mentiu, dizendo que sabia cantar. O líder da banda deu uma chance para ela, claro, mas ela foi ‘desmascarada’ logo. “Na primeira vez que eu subi no palco fiquei nervosa, errei a letra, foi um desastre”, conta, rindo. Claro que a carreira na Samanta Band durou apenas uma música, mas Marta não desisitiu.
Programa no rádio – A mineira-baiana partiu então para outro grupo. Correu atrás da Banda Essa, que também cantava axé. Dessa vez encarou o trabalho com os pés no chão; começou como backing vocal.

Mas, um dia – sempre tem um dia – a vocalista e o dono da banda, que eram namorados, brigaram. Foi a oportunidade perfeita para Martha mostrar trabalho. Com um pouco mais de experiência ela segurou bem a nova missão e a partir daí não parou mais. Fez vários shows, com a banda, depois voltou para Governador Valadares e trabalhou em bares, cantando MPB. Também nessa época viveu outro vexame que não esquece. “Eu achava tudo fácil; eu via alguém fazendo alguma coisa e queria fazer também. Então eu achava que estava pronta para cantar na noite. E eu vi um rapaz tocando num bar e o chamei para tocar comigo”, diz Martha. O músico, que não era dos melhores, só tocava bolero. Mas isso Martha desconhecia. E a dupla surpreendeu o público, que não parava de pedir para que eles saíssem do palco. “O cara era péssimo; todo mundo pedia para a gente parar. E as caixas de som também eram péssimas”, recorda às gargalhadas.

Em sua carreira, constam passagens por São Paulo, shows de rádio – “Eu tinha o programa de rádio, o programa da Tia Mel, voltado para crianças”, relata – e muitas outras noites em bares – estas bem sucedidas.
Por trás dos montes – Em 2000, com a primeira gravidez, veio também a vontade de cruzar fronteiras. O primeiro destino foi Portugal. “Eu fiquei um ano trabalhando lá, cantando na noite”, diz.

Mas o país dos patrícios não prendeu a irrequieta Martha, que em 2001 se separou do pai da sua filha e resolveu vir para os Estados Unidos. A primeira filha, que tinha nascido em Portugal, ficou no Brasil, e ela veio para os EUA. Recomeçou em New Jersey, cantando na banda Zoom. Depois integrou a Brasil Energy e a Pimenta Malagueta. Paralela à carreira musical também fazia uns bicos aqui e ali, em limpeza de casa.

O frio a impulsionou a vir para a Flórida, há três anos. Aqui desenvolveu muitos trabalhos com grupos locais; cantou no restaurante Feijão com Arroz e fez seu nome na banda Made in Brazil, do bom baiano Teo.

Travessa e de personalidade difícil, ela às vezes se permite ter acessos de raiva e passionalidade antes dos shows; e não raramente briga com tudo e com todos. “Mas não é estrelismo, é estresse. Às vezes sou bem estressada mesmo, é coisa de berço; minha mãe era assim. As pessoas também não têm idéia de como é estressante; é um monte de coisa que acontece ao mesmo tempo, antes dos shows; são muitos probleminhas que surgem. Não é fácil não. Mas eu espero que as pessoas possam me desculpar por isso”, se justifica a cantora.

Os vários projetos – O excesso de atividade, ao mesmo tempo, é um problema que ela mesma cria para si. Como não consegue ficar parada, está sempre inventando algo novo. Criou um site em parceria com um amigo, o Tribo Digital, mas o projeto não continuou. Criou o grupo Tequila Girls, com uma proposta mais cênica, o que também não decolou. “Não evoluiu por falta de espaço; as pessoas não entendiam a proposta do grupo; viam as meninas de outra forma”, afirma. Era um grupo formado só por meninas que dançavam, enquanto ela cantava. Vez por outra as meninas atuavam também, no palco. Foi um projeto “ mal compreendido”, segundo Martha.

A verve teatral ainda impulsiona a cantora, que agora se apresenta com o bailarino Roberto Dias, cantando e interpretando, em bares e restaurantes. “ Eu gosto de teatro; com o Roberto (Dias) eu canto, usando figurinos. É quase uma personagem”, revela encantada.

Paralelamente canta na banda Made in Brazil e se apresenta também com Martha Luizza e Banda Nova. Com sua empresa, a Casca de Coco Productions, tenta viabilizar esses e muitos outros projetos. Um deles foi o festival de MPB, realizado pelo produtor Cacá Santos mas que vem contando com a organização de Martha na regional Flórida. Vem preparando também o seu primeiro disco, independente, com composições próprias e em parceria com o músico João Baiano. “Vai ser um disco com MPB, Bossa Nova e baladas de axé”, define a artista.
Na região, poucos vocalistas têm o mesmo desempenho em palco, que pode ser definido como vibrante. Sua performance põe abaixo preconceitos e faz até os mais ina-mistosos se contorcerem e admitirem seu talento, quer gostem ou não da pessoa Martha. Ela é um dos muitos casos em que a artista suplanta a pessoa. E é assim!

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Contato

Atualmente a cantora Martha Luizza está organizando a regional Flórida do Festival de MPB. Ela pode ser contactada pelo telefone (754) 368-1427 ou pelo e-mail cascadecoco@hotmail.com.