Novo Brasil em alto mar

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Jorge Moreira Nunes

Passei sete dias num cruzeiro pelo Caribe e me mantive propositalmente longe dos noticiários. Voltei com a esperança de que depois das eleições a histeria de final de campeonato nessas eleições tenha passado, mas encontrei tanta ou mais sandice nas redes sociais que antes da vitória de Dilma. Se as baboseiras ficassem limitadas às redes, tudo bem – elas são mesmo um mundo de fantasia onde todo mundo é perfeito, honesto, bonito e feliz.

Mas, depois que meia dúzia de gatos pingados liderados por um artista decadente reuniram-se na Avenida Paulista para pedir a volta da ditadura, ficou provado o efeito amplificador na estupidez humana que causou a distorção da realidade promovida pela propagação de notícias falsas durante a campanha. Pior ainda quando esse efeito vem aliado à ignorância e a uma certa burrice atávica. Ir à rua para protestar contra o direito de protestar é o resumo da ópera bufa desses ‘manifestantes’, carbonos perfeitos dos ‘idiotas da objetividade’ rodrigueanos.

Do outro lado da realidade, um novo Brasil aparece onde a gente menos espera. O MSC Divina, onde naveguei, é um barco italiano, com predominância de passageiros europeus, especialmente italianos, obviamente. Mas, além de europeus e americanos, havia uma quantidade surpreendente de brasileiros a bordo, a ponto de todo o material promocional do cruzeiro ter versões em português e de os anúncios feitos pelos alto-falantes serem feitos também em português. Boa parte da tripulação arranha o português, e o próprio capitão do navio confessou que estava aprendendo a língua por conta do aumento crescente no número de brasileiros que navegavam no seu barco. A música brasileira estava por toda parte, da indefectível bossa nova nos piano bars ao forró e axé das festas de entretenimento. Havia muitos brasileiros entre a tripulação também, mas todos trabalhando nas posições mais bem remuneradas, e nenhum nos serviços mais puxados de bordo, como faxineiros e camareiros.

Impossível que com tantos brasileiros reunidos assim a gente não acabe interagindo, e aí descobre-se que, diferente do que se esperaria do país pobre e miserável que se descreve no louco mundo facebookiano, eles não são milionários, políticos ladrões ou privilegiados em geral (como era a regra em cruzeiros há pouco mais de dez anos). A grande maioria é de profissionais liberais e pequenos empresários com suas famílias, vindos de toda parte do Brasil, gente simples em férias, que ascendeu na última década a um patamar de poder aquisitivo inédito na história da classe média brasileira. Esses brasileiros não são mais a exceção, são a regra, e em número suficiente para fazer uma companhia de cruzeiros europeia tratar a nossa cultura e nossa língua com prioridade em seus barcos navegando pelo Caribe.

É o resultado visível de uma mudança que alguns talvez não percebam. A classe média brasileira está invadindo o exterior, tomando de assalto shopping centers e cruzeiros pelo mundo, gastando bilhões de uma prosperidade que inexplicavelmente é negada por ela própria. O bombeamento de recursos na base da pirâmide social empurrou a classe média para um novo patamar econômico, e ela invadiu em massa lugares antes exclusivos para poucos privilegiados. Quem foi beneficiado diretamente pelo esforço na redistribuição de renda da última década percebe com facilidade a melhoria na vida, já que ela sanou necessidades básicas como comer e morar, mas é interessante notar que boa parte da classe média não tem essa mesma percepção de melhoria e julga que a vida era muito melhor há uma década, ao ponto de desejar a volta de um status quo, tanto econômico quanto político, muito pior do que o atual.

Essa avaliação errada da própria situação foi causada por uma distorção de realidade gerada pela disseminação de uma série de informações falsas ou deturpadas, principalmente no interesse dos que se sentem ameaçados pela perda da exclusividade no usufruto dos privilégios que detiveram durante séculos no Brasil. 

A força da classe média brasileira não tem que ser demonstrada em passeatas bisonhas na Avenida Paulista pela volta de ditaduras, mas através do seu crescente poder econômico, que vem sendo indiretamente expandido pela injeção de recursos na base da pirâmide social. Felizmente somos um país rico o suficiente para bancar com folga essa tão devida movimentação numa estrutura social estancada há séculos, que além de tirar a fome dos miseráveis vem empurrando a classe média brasileira para cruzeiros pelo Caribe e apresentando finalmente o resto do mundo para ela.