O esporte como catarse

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Antonio Tozzi

Foi um espetáculo lindo de se ver. O Atlético Mineiro conquistou a Copa Libertadores da América ao derrotar o Olimpia do Paraguai no tempo normal e depois na série de cobrança de pênaltis.

Mas o objetivo aqui não é comentar o jogo ou mesmo enaltecer a conquista do clube mineiro. O que causou mesmo espanto foi a arrecadação. Os 56.557 pagantes (58.620 presentes) que foram ao Mineirão na noite de 24 de julho de 2013 proporcionaram a maior bilheteria da história do futebol nacional: R$ 14.176.146,00.

Isto, por si só, já seria um fato consagrador. Porém, houve mais. Foram registradas cenas de pessoas rindo à toa, comemorando com amigos ou mesmo com gente que nunca tinha visto antes na vida. Torcedores se abraçando, com lágrimas nos olhos, sem camisa, fantasiados tomaram as ruas de Belo Horizonte para comemorar o feito. E cantaram o hino do clube, gritaram os nomes dos jogadores e do técnico, demonstrando uma alegria incontida que se renova sempre que um clube com muitos torcedores ganha um título importante.

Ou seja, o espetáculo feito pela torcida do Galo repetiu o que os corintianos haviam feito no ano anterior quando também ganharam pela primeira vez o mais importante título continental de futebol pela primeira vez. E este fenômeno verifica-se com os torcedores dos principais clubes de futebol do Brasil.

Corrigindo, com os principais clubes de futebol do mundo. Desde os calorosos italianos até os apaixonados latino-americanos passando pelos fleumáticos ingleses e pelos contidos alemães, todos explodem de alegria ao ver seu clube do coração conquistar um título tão almejado. Chego a imaginar que, às vezes, a conquista de um clube supera a da própria seleção nacional do país.

Corrigindo mais uma vez. Isto ocorre também com torcedores de outros esportes, como basquetebol (vimos isto recentemente em Miami com o bicampeonato do Miami Heat), beisebol, hóquei e futebol americano, entre outros.

A pergunta que fica é esta: por que tanta alegria por algo tão intangível? Ora, se alguém vai dar-se bem com a conquista são os jogadores, membros da comissão técnica e diretores do clube. Os torcedores, por sua vez, passada a euforia, vão descobrir que não ficaram nem um pouco mais ricos ou pobres. Podem gastar ainda uma grana extra para adquirir itens que celebram a conquista do clube do coração a preços bem salgados. Aí, é um tal de comprar camisas, bonés, camisetas, chaveiros e outros artigos supérfluos que carregam com eles o escudo do clube campeão.

Embora não seja psicólogo, é interessante analisar este fenômeno de massa. Durante um breve período de tempo 90 minutos, no caso do futebol -, o torcedor se desliga de tudo. Ele esquece as contas a pagar, os problemas familiares, a chateação no emprego, enfim, qualquer coisa que não seja o jogo que está sendo disputado naquele retângulo coberto de grama com duas traves e 22 jogadores disputando uma bola. Os que não conseguem enxergar a paixão subjacente ao futebol, são irônicos: “Ora, deveriam evitar a briga e dar uma bola para cada um deles”.

O torcedor apaixonado, no entanto, quer viver cada momento. Ele vai ao estádio, assiste aos jogos de seu time na TV, torna-se sócio torcedor, ouve programas esportivos no rádio, acompanha o noticiário de seu clube nos jornas e na Internet e está pronto para aplaudir e para vaiar. A não ser, é claro, as indigitadas torcidas uniformizadas que se tornaram exércitos paramilitares que provocam brigas e arruaças e ainda produzem seus próprios itens tirando, assim, receita dos próprios clubes que elas dizem representar. Ou seja, se alguém escolhe comprar uma camisa de uma determinada facção de torcida organizada deixa de comprar a camisa oficial do clube que geraria receita para o próprio clube investir mais no futebol profissional e ainda manter os fornecedores de uniformes que geralmente pagam um bom dinheiro para vestir os clubes de maior torcida.

Ser torcedor é algo difícil de definir. O sujeito muitas vezes troca programas bem mais agradáveis para assistir a um jogo de futebol. Seja no estádio seja pela TV. Isto no decorrer dos tempos deteriora relacionamentos. A não ser que a esposa ou namorada também goste de futebol, algo que parece vem aumentando nos últimos tempos. O duro mesmo é quando se tem de “dormir com o inimigo”. O marido e a esposa torcem para clubes diferentes, normalmente arquirrivais, deixando os filhos do casal numa situação desconfortável. “O que devo fazer? Torcer para o time do meu pai ou da minha mãe?”, perguntam-se.

Independente da escolha, o jovem torcedor vai perpetuar o comportamento de seus pais e passar para seus filhos a paixão de torcer. Sem dúvida, é algo saudável, desde que não interfira na vida pessoal. Isto é, não impeça alguém de estudar, trabalhar, namorar, etc. Parafraseando um conhecido slogan, poderíamos dizer: “Torça com moderação”.