O que será da Venezuela?

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Antonio Tozzi

E o que estava sendo esperado foi confirmado na última terça-feira (5): Hugo Chávez, presidente da Venezuela, morreu. Depois de ter sofrido muito com um câncer maligno na região pélvica, o mandatário não resistiu e faleceu. O criador da chamada “revolução bolivariana” fez um tratamento intensivo em Cuba, mas os esforços dos médicos cubanos foram insuficientes para curar o líder populista.

A grande pergunta que fica agora é esta: O Partido Bolivariano conseguirá manter o comando do país após a perda de seu líder ou a oposição finalmente ganhará o poder? O principal candidato oposicionista é o atual governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles Radowski. Ele foi derrotado por Chávez na última eleição em novembro, mas obteve 44% dos votos.

Agora, em menos de um mês, como reza a Constituição da Venezuela, deverá ser realizada uma nova eleição e o candidato situacionista deve ser o atual vice-presidente Nicolás Maduro, um ex-motorista de ônibus, sem título universitário, que já havia sido ungido como seu sucessor pelo próprio Chávez antes de morrer.

Em princípio, Maduro, se confirmado como candidato oficial, deve vencer a eleição, aproveitando-se muito da popularidade do antecessor e do clima de comoção que tomou conta do país pela morte de Chávez, considerado como “pai dos pobres”. Do lado da oposição, talvez Capriles queira se preservar para a próxima eleição e outro desafiante pode constar na cédula eleitoral a fim de legitimar o processo eleitoral venezuelano.

Caso o vice-presidente confirme seu favoritismo, pouca coisa deve mudar no governo do país. Ou seja, deverá manter a amizade com os governantes de Cuba, do Irã, da China e de outros países que não se destacam por seu viés democrático. Em contrapartida, deve prosseguir o distanciamento com os EUA, mesmo depois do aceno feito pelo presidente Barack Obama para que as duas nações voltem a ter relações diplomáticas.

Vale lembrar que o clima entre EUA e Venezuela está bem azedo. Em janeiro de 2012, a cônsul Livia Acosta Noguera foi declarada persona non grata pelo Departamento de Estado dos EUA. Em represália, as autoridades venezuelanas fecharam o consulado em Miami. Por causa disto, cerca de 20 mil pessoas da Flórida, Geórgia, Carolina do Norte e do Sul registradas como eleitoras no sul da Flórida tiveram de votar no consulado de Nova Orleans.

Pouco antes do falecimento de Hugo Chávez, dois funcionários da embaixada dos EUA foram expulsos após terem sido acusados pelo governo venezuelano de tentarem obter informações juntos aos militares.

Um país que deve estar torcendo muito para que a política externa não mude é Cuba. Os irmãos Castro, Fidel e Raúl, que governam o país beneficiam-se do petróleo subsidiado fornecido pela Venezuela, que tem ajudado o país neste momento.

A morte de Hugo Chávez foi recebida de maneira controversa. Enquanto alguns lamentam a morte daquele a quem chamam de líder e a quem muitos artistas de Hollywood reverenciaram, como foi o caso de Sean Penn, Oliver Stone e Danny Glover, entre outros, adversários políticos e parte do povo venezuelano consideraram que Chávez não passava de um farsante e de um populista, com vocação para ditador.

Tanto que sua subida ao poder foi a grande responsável pelo aumento de exilados venezuelanos no sul da Flórida, a ponto da cidade de Weston, no sul de Broward, ser ironicamente rebatizada como Westonzuela em função da grande quantidade de sul-americanos daquele país que saíram de lá para se estabelecer nos EUA.

Agora, diante da confirmação da morte do principal adversário político, muitos se mobilizam para ajudar a colocar no poder alguém mais afinado com suas ideias, ou seja, líderes que valorizem o espírito empreendedor em vez de apenas atuar como o “Grande Pai”.

A figura contraditória de Chávez conquistou a admiração dos menos favorecidos por ter desenvolvido políticas que atendessem os pobres, dando-lhes alimentação básica, moradia acessível e combustível barato. O preço do litro da gasolina na Venezuela custa $0.10, o que representa quase uma doação.

Entretanto, esta benevolência tinha o objetivo de angariar simpatia e consolidar sua imagem perante o povo menos culto e bem informado. Por sua vez, ao comercializar o principal item produzido na Venezuela por um preço irrisório, Chávez erodiu as finanças públicas e colocou o risco de o país se tornar inadimplente ao não cumprir seus compromissos internacionais. Lógico que o fato de ser uma semiditadura contribuiu para que não houvesse questionamentos na emissão de dinheiro e títulos públicos sem o devido lastro.

Uma coisa é certa. Seja lá quem for que assuma o poder, está mais do que na hora de parar com estas teorias conspiratórias como aquela de que o câncer contraído por Hugo Chávez teria sido consequência de um vírus inoculado por agentes da CIA (Agência de Inteligência dos EUA). Ou a de que há espiões americanos espalhados por toda a Venezuela.