O sonho americano continua vivo

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Apesar da crise econômica e do endurecimento das leis, brasileiros continuam chegando

O cenário para os imigrantes na América atual é desfavorável e as perspectivas, duvidosas. Ninguém nega que o país está em recessão, o que tem provocado índices recordes de desemprego, e o governo admite o endurecimento das leis contra os indocumentados. Mesmo assim não são raras as tentativas de entrada ilegal nos Estados Unidos, como provam as estatísticas da polícia de imigração americana na fronteira com o México e também dois fatos ocorridos nos últimos 15 dias no sul da Flórida, quando a guarda costeira deteve grupos de latinos – inclusive brasileiros – tentando dar início ao sonho americano pelo litoral.

Mas o que ainda move tantos estrangeiros a abandonar a esperança de viver em sua pátria-mãe para buscar uma vida melhor num país que não lhes é mais simpático, mesmo tendo pela frente tantas adversidades? O AcheiUSA procurou abordar esse fenômeno, em especial na comunidade brasileira, afinal as notícias que temos são de que nosso país está em uma situação privilegiada no mundo, com economia forte e possibilidade de crescimento a curto prazo, apesar da crise mundial.

O goiano V. pode falar de experiência própria. Ele chegou à Flórida há pouco mais de um mês, realizando um sonho de adolescente, alimentado há pelo menos uma década, de morar nos Estados Unidos. Por três vezes ele tentou o visto de turista, sem sucesso, mas decidiu que o revés não seria suficiente para fazê-lo mudar de idéia. Em setembro deste ano, ele pagou cerca de 12 mil dólares para um ‘tubarão’ – traficante de seres humanos que atua no circuito Caribe-EUA – e passou pelo menos nove dias em Nassau (Bahamas) até conseguir ‘penetrar’ em território americano. “O capitão do barco disse que seria arriscado vir naquela época e esperamos o momento certo”, explicou V., de 28 anos.

Ele não sabe exatamente o porquê de ter tomado a decisão de arriscar a vida para chegar à América. “Minha vida não estava ruim lá, mas tenho uns amigos aqui que estão se dando bem e resolvi tentar. Qualquer problema eu volto para o Brasil”, diz V., sem muita convicção. No barco que trouxe o goiano até uma praia em Palm Beach, ironicamente no dia 11 de setembro, havia outras sete pessoas, sendo cinco brasileiros. Ele e um dos companheiros que conheceu na viagem conseguiram emprego como lavadores de piscina, mas ele admite que tem ficado mais tempo em casa do que efetivamente trabalhando. Mas não pensa em ir embora… por enquanto.

A psicóloga brasileira Karina Lapa acredita que a vinda dos imigrantes para os Estados Unidos têm relação com a esperança de prosperar ou, pelo menos, melhorar em algum aspecto da vida, apesar de todos os problemas. “Realmente o país não perdeu o apelo e ainda representa a terra das oportunidades para muita gente. Além do mais, é da nossa natureza o desejo de viver algo novo, de expandir ou, como chamamos em psicologia, de manifestar essa pulsão de vida”, explica a profissional, que vive há 16 anos na América. Outros fatores que podem motivar a mudança, segundo ela, são um trauma, a violência no país natal e até a fuga de alguma situação.

Riscos

Karina comentou os riscos enfrentados pelos indocumentados para chegar aqui. “Penso que estas atitudes demonstram um certo complexo de invencibilidade comum no ser humano, de achar que os males só acontecem com o próximo”, afirma a psicóloga. Ela questiona a atitude da brasileira que foi presa há 15 dias tentando entrar ilegalmente pelo litoral do sul da Flórida, com um filho de seis anos, e faz um alerta: “Não posso criticar, até porque não estou na pele dela para saber a motivação para enfrentar tantos perigos, como morte, doença ou, como aconteceu, prisão. Mas as pessoas precisam entender que os atos podem ter conseqüências, às vezes até irreversíveis”.