‘Obamacare vai ajudar muita gente, mas não vai solucionar o problema da saúde nos EUA’

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Em entrevista exclusiva ao AcheiUSA, a diretora do Departamento de Patologia da Florida Internacional University, em Miami, Eneida Roldan garante que o problema é a sociedade americana

Joselina Reis

“O ACA é uma legislação que vai acelerar o processo de mudança na medicina, mas não é o que vai mudar o jeito que nós praticamos a medicina.”

— Eneida Roldan


Eneida Roldan

Muito se tem falado que o Affordable Care Act, conhecido como Obamacare, pode solucionar o problema de milhões de americanos sem plano de saúde, dando acesso a tratamento médico a pessoas com doenças pré-existentes. No entanto, a diretora do Departamento de Patologia da Florida Internacional University, em Miami, Eneida Roldan, garante que o problema é muito maior e os EUA estão longe de seguir exemplos bem sucedidos de sistema único de saúde, como na Europa e no Brasil.

A médica Eneida Roldan já foi CEO do sistema Jackson Memorial Hospital, do Pan American Hospital e trabalhou ativamente no Departamento de Patologia Pediátrica da Universidade de Miami. Em seu curriculum ela tem ainda mestrado em Saúde Pública e Administração de Negócios. Atualmente, ela investe suas pesquisas na área de controle da obesidade e fundou o Centro Médico para Cirurgia Bariátrica, em Miami, e é diretora do Departamento de Patologia da Florida Internacional University (FIU).

AcheiUSA: Na sua opinião, porque o Affordable Care Act (Obamacare) divide tanta opinião entre republicanos e democratas?
Eneida Roldan: Isso é mais uma questão de ideologia política do que de interesse pela assunto. É claro que todos querem que a população tenha acesso à saúde.

AU: Você acredita que o ACA vai mudar o sistema de saúde nos EUA?
ER: Nós vamos continuar tendo desafios, isso acontece por diversas razões. A primeira é que alguns estados não concordaram em expandir o Medicaid. Na Flórida, por exemplo, acredita-se que mesmo após ACA pelo menos um milhão de pessoas ainda continuarão sem plano de saúde. E outro problema seria a falta de educação em saúde. Só porque muitas conseguirão ter plano de saúde, não significa que eles terão acesso à saúde. Nós não teremos médicos suficientes para esse número de pessoas que serão beneficiadas pelo ACA. E também muitas clínicas e hospitais têm fechado as portas por causa do alto custo da saúde no país.

AU: O ACA deixou os imigrantes indocumentados de fora. Isso foi um erro? Eles poderiam contribuir com o sistema, em vez de procurar ajuda quando estão doentes e não pagar pelo serviço?
ER: Claro que nós queremos todos beneficiados com plano de saúde. Mas esse problema com imigração é um problema político e não de saúde. O setor de saúde obedece regulamentos, enquanto a imigração não for resolvida, nada pode ser feito pelos médicos.

AU: Você acha que os EUA estão preparado para um sistema público de saúde como os usados na Europa e no Brasil?
ER: Nós temos um sistema público de saúde que é mantido com verbas públicas e privadas. Seu nome é Safety Net. Em todo o país há hospitais e clínicas que tratam o paciente, não importando se ele pode pagar ou não. Nem mesmo pedem documentos para saber se o paciente é legal ou se tem dinheiro para pagar. No sul da Flórida, por exemplo, nós temos o Jackson Memorial System, assim como outros mais. Esse é o nosso sistema público, mantido pelos cofres públicos e privados.
Nos países europeus, o governo controla o sistema como um todo. Até cogitou-se fazer algo semelhante aqui. Na Europa, isso funciona, mas aqui não podemos saber. Isso ocorre por diversas razões. Primeiro, nos países europeus – não agora, mas no passado eles eram bem uniformes – eles não tinham essa diversidade populacional que temos aqui; segundo, o tipo de usuário do sistema de saúde é bem diferente. Nos EUA, o usuário procura o sistema quando está doente. Na Europa, o sistema atraí o usuário para o médico, de maneira preventiva, enquanto eles estão saudáveis. A filosofia é diferente. Nós precisaríamos de muito tempo para mudar a mentalidade nos EUA. Talvez no futuro, com muita educação. Eu digo isso não apenas sobre a educação do usuário, mas a dos médicos também.

AU: Como o ACA funcionará para os pequenos empregadores?
ER: Os empregadores que têm cinquenta ou mais empregados em período integral serão obrigados a oferecer plano de saúde para eles, ou serão penalizados. Mas ainda terão um ano para se adaptar a essa norma. Os que tiverem menos de cinquenta não serão obrigados a oferecer o plano de saúde para seus empregados. Essa situação tem levantado alguns questionamentos sobre o ACA, principalmente pela mídia. Muitos dizem que os empregadores estão agora oferecendo somente vagas para meio expediente para, propositadamente, não se enquadrarem na lei. Não posso garantir que o ACA tenha sido o motivo número um dessa mudança, mas tudo leva a crer que sim.

AU: O “mercado online” (website do governo que oferece planos de saúde – healthcare.gov) de planos de saúde tem tido vários problemas. Por que?
ER: O que está tendo problemas técnicos é o mercado online no âmbito federal. Os estados tinham a opção de controlar o processo no âmbito local ou deixar para o governo fazer isso. A Flórida decidiu não criar seu próprio mercado. Os contribuintes do estado, então, precisam ir ao mercado federal para procurar o seu plano de saúde. Os estados que decidiram criar seu próprio mercado não estão tendo tantos problemas, porque é mais fácil controlar a demanda de um só estado que de vários ao mesmo tempo. Também os problemas ocorrem porque o governo federal não estava preparado para a demanda.

AU: Por que a saúde nos Estados Unidos é tão cara?
ER: O sistema é complexo e há muito mais entre o paciente e o médico do que se possa imaginar. Há várias camadas no sistema de saúde. Até chegar a hora em que o médico atende o paciente, o sistema é muito burocrático e dispendioso.
O médico passa por um longo período de treinamento e especialização. Depois, tem tudo o que ele usa. A tecnologia, os remédios, tudo isso leva a mais anos de estudos envolvendo outros profissionais, burocracia e despesas. Isso custa muito dinheiro. Seja o novo software para os arquivos médicos, até o novo equipamento que ele usou no paciente para ajudá-lo no diagnóstico. Os remédios, por exemplo, até chegarem no mercado, levam anos de desenvolvimento. O custo disso é muito grande e acaba tudo indo para a conta do paciente.
O que muita gente se pergunta é por que o mesmo exame pode ter preços tão diferente entre os hospitais dentro da mesma área. Isso se deve à quantidade de médicos e a especialização dos mesmos. Outro problema é o aspecto legal. Os EUA são um país muito voltado para os procedimentos legais em tudo o que acontece. Assim, os médicos precisam ter em mente que, se o resultado dos cuidados oferecidos ao pacientes não forem satisfatórios, ele (o médico) pode sofrer penalidades legais severas. Este é, com certeza, um grande fator que contribui para o custo do sistema, mas ainda não é o principal.
O custo é alto porque o paciente exige demais do sistema. O conhecimento da medicina atualmente está mais disponível do que nunca ao paciente. E ele pensa que sabe tanto quanto o médico. Este é um caso em que eu diria que o excesso de informação é prejudicial. Dar acesso à informação técnica para um leigo, é perigoso. Por causa disso, há situações em que o paciente chega ao médico e exige que um tratamento específico seja feito. Hoje, temos livros, que na minha época da escola médica só podiam ser vendidos ao estudante de medicina, disponíveis na Barnes& Nobles. O médico se encontra numa encruzilhada. Ou ele acata tudo o que o paciente pede ou corre o risco de ter de responder legalmente no futuro, caso alguma coisa aconteça, que não tenha sido detectada na visita.

AU: E a ideia de que o médico na verdade pede muitos exames para que o plano de saúde pague mais e ele, o médico, receba sua parte como comissão?
ER: Isso não acontece mais. Os médicos recebiam pelo número de exames que o paciente fazia. Mas agora, mesmo antes do ACA, as coisas vêm mudando. O ACA é uma legislação que vai acelerar o processo de mudança na medicina, mas não é o que vai mudar o jeito que nós praticamos a medicina. Essa mudança vem acontecendo há anos, décadas. Isso porque o sistema tem encontrado maneiras de conter os custos e aumentar a qualidade do serviço. Isso tem sido um ciclo de mudanças e agora o ACA vem para acelerar essas mudanças. Por isso, o foco não deve ser no ACA, precisa ser no crescimento da população, no crescimento do número de doenças crônicas, no custo da tecnologia aplicada à medicina. O ACA não vai mudar o sistema de saúde nos EUA, porque não vai mudar a mentalidade do paciente.
A única coisa que pode mudar o sistema de saúde é educar o consumidor. Ele precisa manter-se saudável. Nos EUA, pratica-se a ideologia de continuar doente. Se você estiver saudável você vai ao médico? A resposta comum é não. A definição atual de médico é a de alguém que cuida de você quando você está doente, não alguém que cuida de você quando você está saudável. Isso funciona na Europa, lá eles procuram manter a população saudável. Nós queremos isso também aqui, mas estamos acostumados a lidar apenas com as doenças porque o paciente só vai ao médico quando está doente. Na Europa, o pensamento é totalmente diferente.

AU: Você acredita que muitas pessoas estarão motivadas a comprar os planos de saúde através do mercado online do ACA?
ER: Eu acredito que boa parte da população vá comprar os planos e fazer bom uso deles. Mas, em termos gerais, precisamos de mais educação sobre saúde. Todos sabem que o ACA está investindo recursos em um programa chamado ‘navegadores’. São pessoas que explicam o ACA para o usuário. Isso não é educação de saúde. O que precisamos é de um sistema de educação na área de saúde. Por isso que muitos em Washington acreditam que o meio mais viável de educação de saúde seria investir no plano chamado HAS (Health Savings Accounts – poupança da saúde, em português). É um tipo de plano de saúde que, se por um lado tem um dedutível alto, por outro lado premia o paciente que demonstre estar cuidando preventivamente da própria saúde. No final do período, o dinheiro é devolvido para o consumidor ou usado no plano para o próximo ano. O problema é que muitos acham que isso não é justo para com os doentes que vão muito aos médicos. Por isso, há muita divergência em Washington. Alguns políticos querem que o ACA ofereça as duas opções. O HAS é oferecido por algumas seguradoras. Eu acredito que algumas pessoas, sim, serão beneficiadas, mas o modo como isso foi desenvolvido financeiramente, colocando todo mundo no mesmo cesto, saudáveis e não, vai funcionar como qualquer outro plano de saúde. Os saudáveis vão pagar pelos doentes. O ACA vai aceitar todo mundo, com doenças preexistentes ou não, porque o recurso virá da obrigação de todos pagarem.
O desafio será forçar o jovem que não tem trabalho regular a comprar um plano de saúde, pagando cerca de $100 por mês, sendo que a penalidade no primeiro ano é de apenas $90. A ideia é trazer todo mundo para um sistema que precisa de recursos para custear os doentes que antes não usavam o sistema.

AU: Qual a diferença entre a implementação do ACA na Flórida e nos outros estados?
ER: A maior diferença é que a Flórida não expandiu o Medicaid (sistema de saúde para os mais pobres). O ACA ofereceu uma oportunidade para os estados expandirem o Medicaid, oferecendo incentivos financeiros na casa dos bilhões de dólares, mas a Flórida foi um dos que recusaram esse recurso. Os recursos iriam proporcionar para milhões de pessoas a oportunidade de entrarem no sistema, coisa que antes não era possível. O motivo da recusa pode ter sido político. Mas, depois de recusar, o governador Rick Scott voltou atrás e agora está deixando o problema para os senadores em Tallahassee resolverem o assunto. Os estados têm até três anos para decidir. Pode ser então que a Flórida ainda entre no plano de expansão do Medicaid e garanta parte dos bilhões que Washington oferece. Enquanto isso não acontece, sabemos que pelo menos um milhão de pessoas na Flórida continuarão sem plano de saúde, mesmo com o ACA em vigor.
Essas pessoas vão continuar dependendo do Safety Net, porque eles não podem pagar nem os planos do mercado online.

AU: O que acontece se o consumidor não conseguir se cadastrar e comprar um plano de saúde até dia 15 de dezembro?
ER: O prazo expira em 15 de dezembro para quem quiser cobertura a partir de primeiro de janeiro. A penalidade para quem não comprar um plano é de $90 para o primeiro ano. Vale lembrar que, se por exemplo chegar fevereiro e o consumidor perceber que não gostou do plano que escolheu, ele tem até março para trocar sem ter que pagar multa. Ninguém será penalizado até março, porque esse é um período de adaptação. Depois disso o valor da multa cresce anualmente.

AU:Se o imigrante é um estudante internacional nos EUA, ele pode comprar um plano de saúde pelo mercado online?
ER: Os estudantes vão continuar no plano de saúde dos pais até a idade de 26 anos, e na Flórida até a idade de 30 anos se provarem que necessitam. Estudantes internacionais, não. Eles devem manter seu plano de saúde através do seguro internacional, o que é uma das exigências para o visto. As faculdades exigem que eles tenham o plano antes da matrícula.

AU: O imigrante indocumentado que tem o social security que não dá permissão para trabalho legal, ele pode usar o mercado e comprar um plano de saúde?
ER: Não. Um dos critérios do ACA é que o consumidor precisa ser legalizado no país. Esta é a razão pela qual o USCIS está também envolvido no ACA. Porque quando você está dentro da faixa da pobreza, ou um pouco acima dessa faixa, o governo vai oferecer subsídios para que você pague seu plano de saúde. Então você precisa estar legalizado. Uma coisa puxa a outra.