Opinião: Indocumentados: à sombra de uma espada

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Por: Jehozadak Pereira

Ser imigrante indocumentado nos Estados Unidos é um exercício de sangue frio, perigo a cada esquina e o risco de sair de casa e ser deportado para a sua terra de origem a qualquer instante.

Com a entrada em vigor do Programa Comunidades Seguras, isto se torna cada vez mais evidente e o cerco tende a se fechar cada vez mais, mostrando que a América é sim uma nação de contrastes e mazelas que vão se avolumando e oprimindo o trabalhador imigrante. Uma prova das mazelas e da injustiça que cerca ou que se abate sobre o indocumentado é a possibilidade de comprar, registrar, pagar o seguro e poder ter um carro em seu nome sem que ninguém lhe pergunte nada sobre documentos. A partir daí, se depender das autoridades, o carro vai ficar parado na garagem, pois se o seu dono ousar ir na esquina corre o risco de ser preso e ter seu veículo rebocado para o depósito mais próximo.

Há também aqueles que trabalham construindo ou conservando estradas,consertando pontes mas que não podem dirigir nelas.

Também servem as mesas, cozinham, limpam as casas, cuidam dos filhos, entregam jornais, constroem, pintam, trocam lâmpadas, pisos, portas, janelas, telhados, consertam carros entre tantos outros afazeres, mas não são dignos de ter documentos.

Hoje, aqueles que acreditaram nas promessas do então candidato Barack Obama que dizia que tudo se pode mudar, encorpam as fileiras dos que são verdadeiramente indigentes sociais, pois vivem num limbo onde o que falta são documentos válidos que lhes permitam o mínimo de dignidade como seres humanos.

Em milhares de cidades Estados Unidos afora, ser parado no trânsito e não ter documentos significa ir parar na court mais próxima e dali ter que enfrentar um processo de deportação, tudo porque as autoridades que governam são intolerantes ao extremo. Aliás, por falar em intolerância, cada vez mais se vê e se ouve falar acerca de atitudes de racismo, preconceito e xenofobia contra imigrantes, o que aumenta ainda mais o nível de incerteza de quem não tem expectativa em curto prazo.

O que fazer então diante deste quadro de coisas, que apontam para um futuro pouco promissor e sombrio? Ir embora e deixar para trás anos de luta, de privações emocionais e de desgaste físico, mental, espiritual, social e pessoal? Ou ficar mais um pouco e se submeter e se sujeitar a todo tipo de humilhação, como por, exemplo, não ter documentos válidos, ou ter de viver aos sobressaltos cada vez que se é parado no trânsito ou se ouve bater nas portas?

Se estes políticos que estão aí deixando de legislar, porque, segundo eles, qualquer benefício aos imigrantes é inaceitável, olharem no espelho do passado verão que seus parentes eram tão imigrantes quanto o são os mais de 12 milhões de indocumentados de agora.

Só que insistem em negar o que tiveram de benefício.

Muitos brasileiros principalmente têm ido embora e enfrentado a triste realidade de fim de feira que existe no Brasil de hoje, com sua criminalidade e corrupção exacerbada, e que se tornou prática recorrente e comum por causa da impunidade, onde se rouba muito, se mata por qualquer trocado, e as coisas funcionam ainda como se estivéssemos em pleno governo imperial com todas as suas precariedades.

Resta-nos saber que as nossas agruras em solo americano foram as mesmas de um grupo de peregrinos europeus que, fugindo da perseguição, aportaram em Plymouth, Massachusetts, e preferiram todas as dificuldades do novo mundo a voltar atrás. As lutas e a adaptação à nova realidade foi custosa e difícil, mas mesmo assim resolveram insistir mais um pouco, ainda que isto lhes custasse algumas vidas e sonhos.

Apesar de todas as hostilidades, encontraram suporte junto aos índios e trabalharam arduamente como todos nós fazemos. Depois da primeira colheita resolveram comemorar, e refletir sobre tudo aquilo que haviam enfrentado pelo caminho e em terras americanas.

O resto da história todos nós já sabemos, e fica o exemplo de que para se conquistar alguma coisa, por mais custoso que seja, tem que se lutar com todas as forças, tem de ter esperança de que dias melhores virão, mesmo que possa parecer que os dias serão escuros e pouco promissores, sempre sob a ameaçadora espada nas suas cabeças.