Opinião: O ocaso de um

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Antonio Tozzi

Jerry Sandusky foi condenado em 45 das 48 acusações e provavelmente vai passar o resto de seus dias numa prisão. No Brasil, este nome não diz muita coisa, mas aqui nos Estados Unidos ele é simbolizado como a mais nova personificação do que há de mais sórdido num ser humano: abusador de crianças inocentes.

O homem de 68 anos de idade trabalhou a maior parte de sua vida como assistente técnico do time de futebol americano universitário da Penn State (Universidade do Estado da Pensilvânia). Ele integrava a comissão técnica do Joe Paterno, considerado um dos melhores técnicos de futebol universitário de todos os tempos por sua atuação nos jogos universitários que, aqui nos Estados Unidos, atraem tantos fanáticos como os esportes profissionais.

Uma denúncia há cerca de dois anos, porém, mudou totalmente o panorama. Outro integrante da comissão técnica denunciou Jerry Sandusky por abusar sexualmente de crianças ao vê-lo tomando banho com um menino de 10 anos de idade no chuveiro da universidade. Avisou Paterno e a direção da Penn State, mas ambos preferiram omitir-se em vez de tomar as medidas cabíveis. Insatisfeito o homem decidiu denunciar Sandusky às autoridades policiais que abriram investigação.

Foi como se tivesse sido aberto um poço artesiano. Começaram a jorrar denúncias de diversos rapazes confirmando terem sido vítimas de abuso sexual por parte de Sandusky. Até mesmo um filho adotivo juntou-se às denúncias e a credibilidade do denunciado, que negava as acusações, ficou cada vez menor.

Em pouco tempo, as denúncias foram avolumando-se e os advogados de defesa não tinham muitos argumentos para contrapor a favor de seu cliente, que parecia estar vivendo fora do planeta. Em entrevistas, ele respondia evasivamente sentir atração por pessoas mais jovens (meninos e meninas), mas que nunca havia cruzado a linha tênue da admiração pelo ato sexual.

Pouca gente acreditava nisto, e a confirmação chegou agora quando, depois de condenado, ele próprio admitiu ter mesmo se relacionado sexualmente com os então meninos, hoje homens que desejam vê-lo condenado por terem sido vítimas de uma pessoa na qual confiavam.
Embora Penn State seja uma universidade, Sandusky convenceu a direção da escola a abrir um programa para crianças com potencial atlético mas que não tinham muitos recursos financeiros. As famílias das crianças ficavam encantadas por abrir uma possibilidade de ver seus filhos conseguindo bolsas de estudo na própria universidade e ter a chance de se tornar um atleta profissional.

O objetivo, porém, era ignóbil. Sandusky acabava arregimentando meninos para seu próprio prazer sexual, tomando banho com eles, levando-os para sua casa onde ficava horas com os meninos na parte de baixo da casa, deitando-se na cama com os garotos, enfim, demonstrando claramente que gostava de estar perto dos meninos.

Aqui cabe um parentêses sobre alguns personagens próximos. Paterno, tido como um herói local, acabou morrendo de desgosto, manchando sua biografia com a omissão, os diretores da Penn State vão ter de pagar uma quantia aos denunciantes por não terem tomado as medidas necessárias em tempo hábil e, por fim, a esposa de Sandusky, uma figura que muita gente não sabe como julgar. Seria ela apenas uma pessoa ingênua que nunca desconfiou de nada? Estaria ela conivente com os atos asquerosos do marido? Ou apenas fechava os olhos a tudo em troca de uma vida confortável e tranquila?

Importante notar que há muitos Sanduskys espalhados pelo mundo. Geralmente gostam de estar em funções onde podem ficar próximos de crianças. Travestem-se de professores (as), de técnicos (as), assistentes sociais, etc. Um tempo atrás surgiu também uma denúncia sobre um sujeito que integrava a comissão técnica do Flamengo, que também estaria aproveitando-se dos meninos que procuravam o clube em busca de uma oportunidade para se tornarem jogadores de futebol.

O que se aconselha aos pais é acompanhar os filhos às práticas esportivas, ter diálogo franco com eles e estar presente, sempre que possível, nos jogos e viagens feitas pelos meninos e meninas para tentar identificar eventual desvio de atitute por parte de algum integrante da comissão técnica. Afinal, como diz o ditado, prevenir é melhor do que remediar.

Anteriormente publicado no www.diretodaredacao.com