Parque temático no México recria a emoção da travessia pela fronteira

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Jornada inclui perseguição policial e até negociação com coiotes

Era só o que faltava. Um parque temático no México promete oferecer aos visitantes as emoções vividas por um imigrante tentando entrar ilegalmente pela fronteira dos Estados Unidos. Pagando cerca de 20 dólares pelo ingresso, o turista participa de uma espécie de jogo, onde pode ser surpreendido por uma perseguição policial com direito a tiroteio e precisa atravessar um rio e locais ermos. Como se isso não bastasse, ainda tem que lidar com os traficantes de pessoas, chamados de ‘coiotes’.

O mais interessante do Parque EcoAlberto, em Hidalgo, localizado a 400 milhas ao sul da fronteira, é que os guias da jornada são mexicanos que já passaram por esta experiência – de verdade –, mas optaram por retornar (ou foram mandados de volta) ao seu país natal. A iniciativa recebeu o apoio do governo mexicano por ser uma forma de conscientizar a população dos riscos da travessia ilegal. O pacote dura quatro horas e é oferecido todos os sábados à noite.

Os organizadores capricham nas dificuldades. Os ‘indocumentados’ passam por situações insólitas e quase reais, como a de ficarem com os olhos vendados depois de serem capturados pela patrulha da fronteira. Desnecessário dizer que o parque faz o maior sucesso entre os mexicanos, até porque um entre dez habitantes daquele País vai, em algum momento da vida, tentar a travessia, de acordo com as estatísticas – são 1.400 pessoas tentando entrar ilegalmente pela fronteira todos os dias.

O parque, de qualquer forma, já tem contribuído para evitar o êxodo de mexicanos. Antes da inauguração do complexo, em 2004, 90% da cidade de El Alberto havia deixado a localidade em direção à América. No entanto, com a geração de empregos promovida pelo empreendimento, muitos moradores optaram por tentar a vida no México mesmo. Agora, com a criação do pacote do imigrante, alguns até estão dando assessoria sobre a travessia.

Apesar do incentivo do governo e da tentativa de fazer do parque um memorial às mais de seis mil pessoas mortas na fronteira entre o México e os EUA nos últimos 15 anos, as críticas não são poucas. “Acho de um profundo mau gosto. Daqui a pouco eles vão inventar de fazer um parque temático para simular a vida dos famintos da África”, lamentou um ativista mexicano.