Política nacional em cenário internacional

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Antonio Tozzi

Neste final de semana, realizou-se em Bal Harbour o 18º Meeting Internacional promovido pela Lide, grupo de empresários brasileiros que a cada ano reúne-se em uma cidade do exterior para trocar ideias com políticos e empresários daqueles países. Este, por exemplo, contou com a presença de Rick Scott, governador da Flórida, e de vários empresários americanos interessados em investir no Brasil.

Como na comitiva organizada pelo empresário João Doria Jr. havia um pequeno grupo de parlamentares, foi inevitável surgirem debates relativos à atual situação do Brasil. Um dos vice-líderes do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), garantiu que o Congresso vem empenhando-se para desregulamentar a economia a fim de atrair mais investimentos para o país e, segundo ele, conta com o apoio do governo da presidente Dilma Rousseff.

Já o líder do DEM no Senado Federal, José Agripino Maia, foi contundente em suas críticas ao atual governo. Ele enalteceu os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, mesmo ressalvando ter diferenças políticas com o ex-presidente petista, mas afirmou que ele foi sábio ao manter a política do antecessor e evitar a ideologização do governo, algo que sua sucessora não vem fazendo.

Também o vice-líder da oposição Cassio Cunha Lima (PSDB-PB) solidarizou-se com Maia e ambos enalteceram a palestra de Rick Scott, que pregou menos impostos e mais incentivos para impulsionar a inicativa privada e gerar mais empregos e riqueza. Scott, que já visitou o Brasil, nutre muita simpatia pelo país e é declaradamente um defensor da suspensão da necessidade de visto para os brasileiros entrarem nos EUA, algo que ele classifica como um entrave burocrático às boas relações governamentais e empresariais.

Coube ao deputado Nelson Pellegrino (PT-BA) assumir a defesa do governo brasileiro. Segundo ele, o governo, sobretudo nos últimos dez anos, dobrou o poder de compra da população de 40 para 80 milhões de consumidores, tem uma das menores taxas de desemprego do mundo ocidental (5,3%), diminuiu sensivelmente a relação de dívida com o PIB, tem a inflação sob controle e a menor taxa de juros dos últimos anos, o que se traduz em mais capacidade de investimento por parte do Estado brasileiro. Terminou sua apresentação de maneira enfática: “Quem apostar contra o Brasil vai se dar mal e perder uma grande oportunidade”.

Inevitavelmente, surgiu a discussão sobre a decisão da presidente Dilma Rousseff em cancelar a visita que faria agora em outubro aos EUA, onde seria recebida com honras de chefe de Estado pelo presidente Barack Obama por causa do episódio da espionagem americana. Ou do adiamento da visita, como fez questão de frisar o embaixador Hélio Victor Ramos Filho, cônsul-geral do Brasil em Miami.
No geral, todos concordaram com a posição adotada por Dilma (tomada, aliás, possivelmente em comum acordo com Obama), uma vez que a data da visita não era das melhores. No entanto, muitos criticaram a parcialidade da medida. Se ela foi firme com os EUA, o mesmo não ocorreu no episódio com a Bolívia. Ou seja, foram dois pesos e duas medidas. Firme com Obama, fraca com Evo Morales.

Outro vice-líder do PMDB, Ricardo Ferraço, do Espírito Santo, que é presidente do Comitê de Relações Internacionais do Senado, não poupou críticas ao Mercosul, a seu ver um bloco que está prejudicando o desenvolvimento do Brasil no cenário internacional. Enquanto o bloco do Pacífico (Peru, Chile, Colômbia e México) vai ganhando força, assim como os blocos europeu, asiático e norte-americano, o Brasil padece num bloco que quase nada tem a lhe oferecer, uma vez que os dois principais parceiros – Argentina e Venezuela – estão estagnados e pouco acrescentam em termos de desenvolvimento, além do contencioso com a Bolívia e do isolamento do Paraguai.

“Embora seja nosso destino, por sermos vizinhos, precisamos nos livrar destas amarras e buscar acordos bilaterais”, afirmou.

Ferraço foi secundado por Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura do governo Lula, que fez questão de destacar o imobilismo do Mercosul, com seus governos pouco práticos e que impedem o crescimento do Brasil. “Deveríamos fazer acordos bilaterais com Europa, EUA, países asiáticos e assim puxaríamos as outras nações do Mercosul. O que não se pode é ficar refém de ideologias ultrapassadas e de economias cambaleantes, porque uma decisão desta natureza só pode ser tomada em bloco, dificultando o comércio internacional. Isto é um absurdo!”.

Realmente, Dilma precisa romper com essas ideologias superadas, negociações com Cuba, um país que pouco tem a acrescentar ao Brasil em termos de comércio internacional, e outras decisões equivocadas se quiser manter-se como a sétima economia do mundo. Até porque o modelo brasileiro de confiar no crescimento às custas de seu mercado interno está esgotando-se e precisamos inserir-nos no mercado mundial, sob risco de ficarmos para trás e perdermos esta oportunidade de ouro que o destino nos propiciou.