Posse de Obama

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Obama toma posse e admite que terá muito trabalho, pois problemas são reais e sérios – Veja cobertura completa da Posse de Obama

Por Carlos Wesley Enviado especial – Washington D.C.
Fotos: Carlos Wesley e Agências

A residência no endereço na Pensylvania Avenue 1600, onde fica a Casa Branca, tem um novo morador – e os Estados Unidos, um novo presidente. Barack Obama tomou posse no dia 20 de janeiro, em uma cerimônia histórica, que reuniu mais de dois milhões de pessoas em Washington D.C. O AcheiUSA foi credenciado para fazer a cobertura justamente no National Mall, onde se concentrou a multidão para ouvir o primeiro discurso do 44º presidente americano da história.

A oficialização aconteceu quando, diante do presidente da Suprema Corte dos EUA, John Roberts, e com a mão sobre a mesma Bíblia usada em 1861 por Abraham Lincoln, Obama prestou juramento, garantindo que vai cumprir fielmente as suas funções no cargo mais poderoso do mundo. E o que não falta é trabalho: “Está claro que estamos no meio de uma crise. Nossa nação está em Guerra e ainda bastante enfraquecida, em consequência da ganância e da irresponsabilidade de alguns. Lares foram perdidos, empregos foram cortados e empresas destruídas. Nosso sistema de saúde é caro demais e nossas escolas apresentam altos índices de evasão”, admitiu o presidente. Ele, porém, acredita que o povo americano pode ajudar o governo a vencer os desafios, “que são reais, são muitos e são sérios”.

Obama aposta em “nova era de responsabilidade

Para tanto, Obama prevê o que chamou de “nova era de responsabilidade”, onde cada pessoa terá deveres para com a nação e o mundo. “Ainda somos a nação mais próspera e mais poderosa na face da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos que no início desta crise. Nossas mentes não são menos inventivas, nossos bens e serviços não são menos necessários do que eram no ano passado. Nossa capacidade permanece intacta”, afirmou, num dos momentos em que foi mais aplaudido.

À frente de todos os ex-presidentes vivos (seu antecessor, George W. Bush, Bill Clinton, Bush pai e Jimmy Carter), o novo líder não hesitou em tocar em algumas feridas: “Vamos proclamar o fim das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas desgastados, que por tempo demais estrangularam nossa política. E aqueles que administram os dólares da população terão que assumir suas responsabilidades: gastar com sabedoria, mudar os maus hábitos, fazer negócios à luz do dia. Porque só então poderemos restaurar a confiança que é vital entre um povo e seu governo”.

Como é tradição nos Estados Unidos, os chefes de Estado e de governo dos países estrangeiros não são convidados para a cerimônia em Washington DC, privilégio que cabe apenas aos diplomatas em serviço naquela capital. Por isso, o representante brasileiro na cerimônia foi o embaixador Antonio Patriota.

Parada começa com mais de uma hora de atraso

No caminho do Capitólio à Casa Branca, mais uma tradição nas cerimônias de posse de seus antecessores, Obama e a primeira-dama Michelle decidiram sair da limusine blindada, apelidada de ‘The Beast’, para caminhar mais próximos da população. O ato, feito pela primeira vez por Thomas Jefferson, mais de 200 atrás, foi encarado com reservas pelo serviço secreto americano: o novo presidente seria o ocupante do cargo que mais recebeu ameaças de atentado, desde a época em que lançou a candidatura no Partido Democrata. Mesmo assim, ele não hesitou e, em duas oportunidades, andou bem perto das pessoas que se amontoavam nas duas calçadas da Pennsylvania Avenue, chegando a trocar algumas palavras com algumas delas.

Centenas de outras acenavam das janelas dos prédios residenciais de um dos endereços mais nobre da capital, o que deixava os seguranças ainda mais atordoados. Segundo uma moradora da região, nas últimas três semanas o seu carro era vistoriado todas as vezes em que ela chegava em casa. “Moro no mesmo endereço há 18 anos e jamais vi tanta preocupação com a segurança. Mas acho que eles estão certos”, disse ela. Enquanto isso, Obama apressava o passo para chegar ao estande à prova de balas erguido em frente à Casa Branca para acompanhar a parada, ao lado do vice, Joe Biden. Àquela altura, o atraso na programação era de quase duas horas.

Mais de 90 entidades estavam representadas na parada, totalizando 13 mil participantes, entre eles os alunos da banda e orquestra da JP Taravella High School, em Coral Springs, os únicos selecionados pela organização para se apresentar diante do presidente. Depois do atos solenes, a noite de terça feira em Washington foi de comemorações. Segundo a programação original, o primeiro-casal do país participaria de pelo menos 10 festas, a última delas com aparição prevista para três da madrugada. Não dá para imaginar que, no dia seguinte, o novo presidente tivesse que lidar, logo cedo, com questões como a guerra do Iraque ou a queda das bolsas pelo mundo.

Frio não foi problema

Desde as primeiras horas da madrugada do dia 20 de janeiro, centenas de milhares de pessoas começavam a chegar ao National Mall para a cerimônia de posse do novo presidente, Barack Obama. O frio na região, que atingiu cinco graus negativos, não foi suficiente para desanimar a multidão que se amontoava nas duas milhas entre o Capitólio e o Memorial Lincoln e nas diversas avenidas largas que cruzam Washington Downtown. O problema maior enfrentado pelos que fizeram questão de participar do evento foi justamente chegar ao local da cerimônia, mesmo antes do amanhecer.

Barricadas em diversos pontos impediram automóveis de chegar mais perto do destino, e quem optou por este tipo de transporte sofreu ainda com os engarrafamentos, com o preço das garagens privadas e com a falta de estacionamento. Os parquímetros foram desativados por um dia, para os veículos de emergência e para que os pedestres pudessem circular melhor. Os ônibus, que não cobraram tarifa, chegavam lotados e mesmo os trens, que representam a melhor opção para cerca de um milhão de pessoas diariamente em Washington, operaram em condições pouco usuais: um percurso que mormalmente dura 15 minutos, por exemplo, não era feito em menos de duas horas e os vagões viajavam abarrotados. Para piorar, a empresa que administra o metrô ia fechando as estações por medida de segurança, à medida que as cercanias ficavam lotadas.

Mas nada disso parecia incomodar o mais diversificado público jamais visto em uma posse. Problemas somente para aqueles cerca de cinco mil azarados que pagaram 25 dólares por ingresso para assistir à cerimônia em locais reservados e foram impedidos de entrar devido ao excesso de gente. “Isso é um absurdo, deveria ter ficado em casa”, gritava um casal com um tíquete roxo nas mãos, que dava direito a um local cercado, bem próximo ao estande destinado à parte da imprensa. Mesmo quem optou pelas áreas para a platéia em geral, especialmente as mais próximas ao palanque, não era aconselhado a deixar o local, sob pena de não conseguir voltar. Para os que ficaram mais distantes, a melhor pedida foi acompanhar o juramento e o discurso por um dos 22 telões espalhados pelo gramado.

Apesar dos mais de sete mil banheiros químicos nas redondezas, muita gente sofreu para conseguir aliviar suas necessidades. A situação, nesse aspecto, só ficou boa para uns oportunistas de plantão, que vendiam – por cinco dólares – uma espécie de roteiro intitulado “Where to pee in DC – the unofficial guide to the 2009 inauguration” (ou, na tradução livre, ‘Onde fazer xixi em Washington – o guia não-oficial da cerimônia de posse em 2009), com a localização exata de banheiros em hotéis, restaurantes e lojas que poderiam ser usados em casos extremos.

FATOS DA POSSE

1 – Tradição mantida: A ação impetrada pelo ativista ateu Michael Newdow, não vingou. Ele pedia que, no juramento de posse, fosse retirada a expressão “so help me God“ (“que Deus me ajude”), que é uma marca registrada do ato, desde o século 18. Obama disse a frase.

2 – Moda: Nem Jesus Cristo foi uma unanimidade e nem todos gostaram da roupa escolhida por Michelle Obama para o momento mais importante da vida do marido. Considerada o novo ícone da moda americana e comparada em elegância à Jaqueline Kennedy, outra primeira-dama, Michele optou por um vestido dourado da estilista cubana-americana Isabel Toledo. Dividiu opiniões.

3 – Mal-estar: Durante o tradicional almoço oferecido pelos congressistas ao novo presidente, o senador Ted Kennedy passou mal e foi levado para um hospital da cidade. Aos 76 anos e ainda um dos mais influentes políticos de Washington, Kennedy trava uma batalha árdua contra um tumor no cérebro. Por falar em almoço, o cardápio incluiu faisão e caldo de frutos do mar.

4 – Vaias: Tão logo terminou o ato no Capitólio, o ex-presidente Bush e sua esposa embarcaram para o Texas, depois de oito anos na Casa Branca. No caminho até o helicóptero das Forças Armadas, ele cruzou com um homem que exibia um cartaz com os dizeres “Prendam Bush”. Aliás, a única vaia do dia foi ouvida no momento em que o novo presidente citou o nome de seu antecessor, na primeira frase do discurso.

5 – Segurança reforçada: O esquema de segurança montado para a posse, dizem, contou com cerca de 50 mil policiais, agentes e militares de 120 diferentes corporações. Ao todo, 5.265 câmeras foram espalhadas pelos principais pontos de Downtown e não era raro encontrar atiradores de elite no topo dos prédios próximos ao National Mall e à Pensylvania Avenue, onde foi realizada a parada. O serviço secreto denunciou uma “potencial ameaça” dias antes da posse, mas pelo visto nada aconteceu.

6 – Extra: Mal havia acabado o discurso de posse – sem exagero, uma meia hora depois – as ruas da cidade já estavam tomadas pela edição extra do ‘Washington Post’. Na capa, o título ‘Obama faz o juramento’ (ou “Obama takes oath”) e a foto do novo presidente com a mão na Bíblia, ao lado da primeira-dama, Michelle Obama. Cada exemplar era vendido a dois dólares, ou seja, mais caro do que a edição normal.


Brasileiros marcam presença na cerimônia

Comunidade estava feliz por participar de momento histórico

Quem acompanhou a transmissão da posse de Obama pela televisão percebeu que, no meio da multidão, tremulava uma bandeira brasileira, em pleno National Mall. O pernambucano José Adelmo, que mora há apenas um mês em New York, nâo pensou duas vezes: queria viver o momento histórico com as cores do nosso país. “Muita gente reclamava quando eu balançava a bandeira, pois acabava atrapalhando a visão do palanque, mas achei importante demonstrar que a nossa comunidade está depositando muita confiança neste governo”, disse o biólogo, que veio para a América para um curso de inglês intensivo e planeja voltar ao Brasil dentro de dois meses.

Próximo a ele estava outro brasileiro, Nestor Pereira, de Minas Gerais, que já faz dos Estados Unidos a sua casa desde 1998. Mesmo sem um emprego fixo nos últimos dois meses, Nestor, que trabalha com construção civil na região de Atlanta, decidiu gastar algumas de suas economias para acompanhar a cerimônia em Washington: “Eu e dois amigos viemos de carro para a posse. Eu quero contar para os meus filhos, no futuro, que participei de um evento único”, disse o mineiro de Muriaé. Nestor, que está em situação irregular nos EUA, tem esperança de que a administração de Obama vai tratar melhor dos imigrantes. No entanto, ele sabe que isso não será de uma hora para a outra, mas até lá quer apenas continuar ganhando seu dinheiro honestamente na obra.

Da mesma forma, a carioca Luiza Heck, que estuda Ciências Políticas na capital americana, prevê dias melhores para o país com a mudança de governo. Ela e a amiga Maria Isabel, também do Rio de Janeiro, que estava de passagem por Washington, estavam deslumbradas com a festa: “É uma sensação boa estar aqui. O clima é de um grande festival”, resumiram as duas, que inclusive prestigiaram também o concerto musical no fim de semana anterior. E teve brasileiro que aproveitou o turismo pelos Estados Unidos para uma esticadinha até o National Mall com o objetivo de testemunhar a história: o designer gaúcho Sandro Londero, acompanhado da mulher e da tia, mudou o itinerário da viagem para aproveitar a festa em torno de Obama. “Valeu o esforço”, garantiu.


“Eu estava lá”

Por Carlos Wesley

Em quase 20 anos de profissão, tive o privilégio de participar de importantes coberturas jornalísticas, como a Rio-92 (a conferência mundial do meio ambiente), o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello e as buscas pelo helicóptero de Ulisses Guimarães após a queda no mar de Parati, apenas para citar três delas. Graças à função de repórter, entrevistei pessoas como o Dalai Lama, os ex-presidentes Itamar Franco e Mikhail Gorbachev, Gilberto Gil, Jane Fonda e Romário, entre outras tantas celebridades. No entanto, nada do que eu vivi neste tempo todo foi comparável à experiência de fazer parte da cerimônia de posse do novo presidente americano, Barack Obama, em Washington DC, graças ao credenciamento do AcheiUSA.

Corro o risco de parecer deslumbrado, mas realmente todos os dois milhões de participantes daquela festa (parecia que havia pelo menos o dobro de gente) tinham realmente a sensação de que se tratava de um momento especial. O clima era de que, a partir daquele dia, tudo seria diferente. E é isso que esperamos do novo presidente: mudanças.

Mas é claro que as transformações não virão apenas com a troca do ocupante da Casa Branca. Como Obama bem disse em seu discurso, cada um que vive nos Estados Unidos – incluindo aí os imigrantes, já que escolhemos viver aqui – deve fazer a sua parte. E a comunidade brasileira tem que estar preparada para mais este desafio e, quem esteve em Washington ou mesmo assisitiu à cerimônia pela televisão, se sentiu energizado para tal.

Da minha parte, infelizmente não consegui cumprimentar o presidente, como pediram minha família e meus amigos do AcheiUSA. Devido ao forte esquema de segurança, foi impossível para qualquer mortal chegar sequer perto de Obama. O máximo que eu consegui foi uma foto com o boneco do presidente… mas a emoção foi real e as lembranças vão ficar para sempre.


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