Histórico

Quadrilha flagrada pela PF importou R$ 1,1 bi ilegalmente

Grupo tinbha depósito em Miami, onde mantinha mercadorias. A PF teve ajuda da polícia americana para desbaratar a quadrilha

Depois de quase dois anos de investigação, a Receita Federal e a Polícia Federal deflagraram na madrugada desta quarta-feira(17) uma mega-operação para desmantelar a maior esquema de fraudes no comércio exterior já descoberto no Brasil. Batizada de “Dilúvio”, a operação mobilizou 1.200 agentes da PF e da Receita em oito Estados – PR, SC, SP, BA, RJ, PE, CE e ES – e nos Estados Unidos, onde a quadrilha tinha ramificações. Até a noite de hoje foram presas 95 pessoas. A Justiça expediu 118 mandados de prisão.

Também foram cumpridos 220 mandados de busca e apreensão até mesmo em grandes lojas de departamento e empresas. Entre os presos está o líder do esquema, o empresário de São Paulo Marco Antônio Mansur.

A organização atuava há cerca de 10 anos num complexo esquema, que envolvia dezenas de empresas de fachada e empresários laranjas para a importação a preços subfaturados de produtos de marca, principalmente eletroeletrônicos, equipamentos de informática e telecomunicações, pneus, carros, embalagens, perfumaria, vitaminas, motos, tecidos, materiais cirúrgicos e baterias. Empresas varejistas também estão envolvidas no esquema. A Receita calcula que cerca de R$ 1,1 bilhão foram importados pelo grupo de forma ilegal nos últimos quatro anos.

Pelo menos R$ 500 milhões, pelos cálculos da Receita e da PF, deixaram de ser pagos em impostos nesse período. Mas o valor pode ser muito maior, disse o secretário da Receita, Jorge Rachid. Segundo ele, o subfaturamento chegava, em média, a 50% do valor real do produto, permitindo a sonegação Imposto de Importação, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Confins) e Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), além do Imposto de Renda.

EUA – Com a colaboração do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, a PF e a Receita também fizeram operações de busca e apreensão em estabelecimentos controlados pelo grupo brasileiro em Miami, com a autorização da Justiça americana. Foi encontrado em Miami um grande depósito de mercadorias que seriam embarcadas para o Brasil. Foi a primeira vez que houve esse tipo de cooperação, afirmou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

O braço do grupo em Miami, Adilson Soares, se apresentou aos agentes da PF e já está a caminho do Brasil. Soares deverá ser preso ao desembarcar no País, segundo a PF. Ele era responsável pela Feca International, empresa que atuava nos Estados Unidos junto aos grandes atacadistas internacionais.

O grupo de Mansur já tinha sido alvo das investigações na Operação Narciso, que desmantelou no ano passado o esquema de subfaturamento na Daslu, famosa loja de produtos de luxo de São Paulo.

O esquema também abastecia com produtos o grupo de Law Kim Chong, considerado o maior contrabandista do País, que está preso. “A Operação Narciso foi uma chuva perto do dilúvio de hoje”, definiu o diretor-executivo da PF, Zulmar Pimental. É ele o profissional da PF que costuma batizar as operações da organização.

De acordo com Pimentel, foram expedidos 118 mandados de prisão e cerca de 220 de busca e apreensão no Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Espírito Santo.

Os principais clientes do grupo eram empresas de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Cerca de 24 empresas comercializavam os produtos importados pela quadrilha. Esses reais importadores, muitas vezes, tinham conhecimento e até participavam das irregularidades. O esquema permitia a eles expressiva redução dos custos, o que garantia vantagem em relação aos preços da concorrência. A PF suspeita que a própria Daslu ainda estaria comprando produtos de importadoras de fachada do esquema.

Fontes que participaram das investigações informaram que entre as empresas que receberiam mercadorias do grupo estão a Shoptime (canal de TV de venda de produtos), a CIL Informática de São Paulo e a loja de roupas masculinas Via Veneto.

US$ 1 milhão – Além de Marco Antônio Mansur, foi preso, em Santa Catarina, o assessor da Secretaria de Fazenda do Estado, Aldo Hey Neto. Na sua residência, foram encontrados US$ 1 milhão e R$ 470 mil em dinheiro vivo. A assessora financeira da quadrilha, Alessandra Salewski, também foi presa na operação.

O filho de Marco Antônio Mansur, o Marquito (Marco Antônio Mansur Filho) foi preso e estaria colaborando com as investigações. O braço da quadrilha no Rio de Janeiro, Antonio Carlos Barbeito Mendes, e nove servidores da Receita envolvidos no esquema também foram presos.

As investigações demonstraram que o grupo tinha estrutura para atender a um diversificado perfil de clientes, de pequenos a grandes distribuidores de marcas conhecidas do mercado. Segundo o chefe da área de inteligência da Receita, Gerson Schaan, a organização sustentava o chamado “mercado cinza”, de marcas mais vendidas de produtos eletrônicos e de informática. Schaan informou que as investigações vão avançar, a partir de agora, junto aos reais compradores dos produtos, as empresas varejistas.

As investigações alcançaram grandes grupos, mas ainda falta esclarecer se eles agiram de má-fé ou se foram ludibriados Entre esses grupos estão também o Carrefour e a Sony.

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