Reforma é bom negócio para empreiteiros

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Relatório revela que fortuna de grupo de empreiteiros militares, subempreiteiros e fornecedores pode crescer

Reforma é bom negócio para empreiteiros

A reforma imigratoria decidirá o futuro de milhões de imigrantes. Mas a sorte de um numeroso grupo de empreiteiros militares, subempreiteiros e fornecedores também poderá mudar significativamente a partir de uma nova lei.

Incluídos na proposta de reforma imigratória atualmente discutida no Congresso “um documento de mais de 1,000 páginas”, estão cerca de $4,5 bilhões em fundos para “reforçar a fronteira”, e potencialmente vários milhões mais que os legisladores dizem ser essenciais nesta reforma.

Os novos fundos expandirão o aparato de controle de imigração, o qual já recebe mais dinheiro federal do que todos os órgãos de segurança juntos, segundo um relatório do Instituto de Política Migratória (MPI, na sigla em inglês), uma organização não-partidária.
Segundo Doris Meissner co-autora do relatório os funcionários da Proteção de Fronteiras e Aduanas dos Estados Unidos (ICE) já caracterizaram a estratégia na fronteira como um assunto de “gerenciamento de risco” e uso efetivo de recursos. Nos anos recentes, as travessias ilegais na fronteira caíram a níveis históricos. Ainda assim, o Congresso parece continuar enfocado no aumento do orçamento para reforçar a segurança na zona de fronteira, e em ditar táticas específicas ao Departamento de Segurança Nacional.

“A pergunta crítica aqui é se o retorno do investimento deste crescente montante é necessário”, destaca Meissner, que foi funcionária do Serviço de Naturalização e Imigração dos Estados Unidos (USCIS), e é atualmente uma das diretoras do MPI. “Creio que, como se pode ver, isto é politicamente necessário”, aponta Meissner, enfatizando o “politicamente”.

O lucro financeiro da segurança da fronteira beneficiará potencialmente uma ampla gama de interesses desde empreiteiros de defesa e companhias privadas de prisões até os povoados e cidades onde operam. Os beneficiários indiretos incluem grupos do crime organizado como Los Zetas, que dominam o mercado de tráfico humano.

Assim como a campanha por uma reforma imigratória vem fazendo lobby há anos, também a luta para aumentar as medidas de segurança na fronteira reflete anos de pressão política, agendas e influências em Washington.

“O ponto não é que hajam novos interesses, o importante é quanto se avançou neste terreno”, afirma Lee Drutman, gerente da Sunlight Foundation, fundação que tem estudado os lobbistas e grupos de interesses envolvidos nas propostas de reforma imigratória nos últimos cinco anos.

Força aérea cara

Em anos recentes, aviões de defesa cruzam a vasta fronteira para coletar informações sobre imigrantes, contrabandistas e traficantes de drogas.

O atual projeto de lei imigratória aprova o uso de mais aviões teleguiados. O beneficiário mais provável desta decisão é a General Atomics, companhia da Califórnia que tem contratos pendentes com o governo federal, avaliados em $454 milhões, para construir e manter até 12 unidades deste tipo.

A influente indústria de aviões teleguiados conta agora com o apoio da Câmara Congressional de Sistemas para Controle Remoto, conhecida em inglês como o “Drone Caucus” e formada por 60 membros de ambos partidos. No ano passado, a General Atomics gastou $2.4 milhões em lobby com políticos e desembolsou $680,682 em contribuições de campanha para membros de ambos partidos, segundo o Centro por uma Política Responsável, organização que monitora o investimento em lobbys e campanhas.

“Enquanto os contratos de defesa se reduzem, a segurança na fronteira se converte em uma parte maior do faturamento destas empresas”, indica Tom Barry, que analisa contratos deste tipo para o Centro de Política Internacional, entidade de estudos de tendência esquerdista.

“Os aviões teleguiados fornecem radiografias da fronteira que permitem aos órgãos avaliar o número de travessias ilegais e as detenções para estimar melhor o fluxo imigratório”, explica Meissner, diretora do MPI.

Prisões de indocumentados

O projeto de reforma imigratória S. 744, aprovado pelo Comitê Judiciário do Senado, expande de 70 para 210 o número de processamentos diários de pessoas que cruzam a fronteira ilegalmente em Tucson, Arizona, o que está relacionado com o aumento dos anos da criminalização de infrações imigratórias nessa zona. Os casos de imigração agora representam 40% dos casos criminais no âmbito federal, segundo relatório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Se o Congresso expandir os processamentos criminais, as companhias de prisões poderão ganhar milhões em contratos federais para centros de detenção e monitoramento dos detidos. A Corporação Correcional da América, o Geo Group, juntamente com a Corporação de Gerência e Adestramento, gastaram cerca de $45 milhões em lobby e doações de campanha na última década, segundo uma pesquisa da Associated Press, publicada no final do ano passado.

A população de imigrantes detidos cresceu de 85 mil para 400 mil ao ano, desde o meado da década de 90 até hoje; com 33 mil pessoas detidas por dia nos centros de detenção privados do país.

A companhia Geo Group pagou $40 mil à Navigators Global, uma firma em Washington, para fazer lobby em “assuntos relacionados com a imigração”, de acordo com um relatório recente do The Nation. O Geo Group tem base na Flórida, estado do senador Marco Rubio, que emerge como uma figura de destaque na batalha pela reforma imigratória. A firma de lobby foi fundada por César Conda, chefe de pessoal de Rubio.

“Ninguém aqui foi guiado por algo assim”, defende Alex Burgos, porta-voz de Rubio, referindo-se aos interesses do lobby. “Nosso guia é um conjunto de princípios”.

Pablo Páez, vice-presidente de relações corporativas do Geo Group, disse em um comunicado que as discussões da companhia com os legisladores “não procuraram influir na política de imigração ou no resultado da reforma de imigração”. Indicou que os esforços de lobby estiveram relacionados “exclusivamente” aos temas relativos às detenções.

“A declaração original apresentada pela firma de lobby da empresa é devido à especificação de que os temas tratados com os legisladores, em referência à reforma integral de imigração, e estiveram relacionados exclusivamente com o Programa de Alternativas para a Detenção do ICE”, finalizou Páez.