Retrospectiva 2010 – Imigração

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Dezembro

Um ano para ser esquecido

Fracasso do Dream Act, Lei do Arizona e recorde de deportações: 2011 tem que ser melhor

Para os imigrantes nos Estados Unidos, o ano de 2010 pode ser considerado um dos piores da história. Além de ver, mais uma vez, o sonho da reforma imigratória se dissipar pelas disputas políticas, os mais de 10 milhões de indocumentados na América conviveram com pesadelos bem reais, como deportações iminentes e leis que tem como o único objetivo dificultar a vida de que não está em situação regular.
No apagar das luzes do ano, o fracasso de mais uma tentativa de aprovar o Dream Act, que beneficiaria jovens estudantes, é apenas um emblema das dificuldades do imigrante num país que teima em ser insensível com a causa. O projeto esteve perto da sanção presidencial em duas oportunidades, mas foi rechaçado por republicanos, que não querem o que chamam de ‘anistia’.
Mas o problema não é apenas da oposição: a atual administração, que em campanha prometeu a reforma para os primeiros 12 meses de gestão, bateu todos os recordes de deportações e o presidente Barack Obama tem sido considerado por ativistas ainda mais rígido do que seu antecessor. No ano fiscal (que termina em setembro), nada menos do que 392.862 indocumentados foram obrigados a deixar o país. Além disso, o governo também tem aumentado a fiscalização sobre empresas e estabelecimentos comerciais que contratam imigrantes sem a devida autorização ” mais de dois mil estabelecimentos foram investigados a partir de denúncias que estavam empregando indocumentados.
Obama,que ainda mantém discurso otimista sobre a reforma, afirma que as deportações efetuadas visaram apenas os criminosos já condenados e que estavam nos Estados Unidos  de forma ilegal.
Mas será mesmo? Pelo menos para Sarahi Uribe, coordenadora nacional da campanha ‘Uncover the Truth’ (algo como ‘Revele a Verdade’), não é bem assim. “Os imigrantes não estão apenas decepcionados com o governo Obama. Estão com raiva”, disse a ativista, que tem feito críticas severas à política de deportações da atual administração. Para piorar a situação, Obama também tem despertado a ira dos mais conservadores, que cobram ainda mais rigor na fiscalização das fronteiras.
Por isso, cansada de esperar por uma ação da Casa Branca, que pela Constituição tem a responsabilidade sobre o tema, a governadora do Arizona, Jen Brewer, sancionou uma polêmica lei que criminaliza a imigração ilegal. A legislação provocou protestos pelo teor discriminatório. Depois de muita pressão, a lei acabou entrando em vigor sem seus trechos mais ofensivos, que foram bloqueados pela Justiça à espera de uma decisão sobre sua constitucionalidade.
O fato, porém, serviu para que vários outros Estados levantassem a possibilidade de adotar medidas semelhantes. Em outros, no entanto, o bom senso tem prevalecido: as autoridades de Durham, na Carolina do Norte, já aceitam a matrícula consular ” emitida por consulados” como documento de identificação, o que tem sido de extrema utilidade para os imigrantes, especialmente aqueles detidos por dirigir sem carteira e em outras situações delicadas. :”Quando se deporta ou prende alguém que não cometeu qualquer crime, mas apenas está em situação irregular em função de uma lei imigratória falida, todos perdem”, assinalou Ronald Garcia, do Centro Hispânico da Carolina do Norte.
Mas num ano agitado pelas eleições legislativas, o tema da imigração foi um dos mais abordados, tanto pela situação como pela oposição ao presidente Obama. Na Flórida, por exemplo, o governador eleito Rick Scott afirmou com todas as letras que pretende, ao assumir o seu mandato, combater a imigração ilegal. O tempo dirá.

214 milhões de imigrantes no mundo

O número de imigrantes no mundo tem crescido na mesma proporção que os países desenvolvidos adotam medidas para proteger suas fronteiras e expulsar os indocumentados. Segundo a Organização Mundial de Migrações (IOM, na sigla em inglês), que estuda os fluxos migratórios, já são 214 milhões de pessoas vivendo longe de seu país natal. Para 2050, a projeção das estatísticas é de que a Terra tenha mais de 405 milhões de imigrantes. “Há um grande desequilíbrio entre a oferta e a demanda por trabalho no mundo e isso será aprofundado nos próximos anos”, alertou a entidade em seu relatório annual.

Novembro

Republicano pregou reedição do Muro da Vergonha

No Alaska, a eleição para o representante do estado no Senado ainda não terminou o resultado está sendo contestado na Justiça. Um dos candidatos, porém, torce para ser eleito e espera colocar em prática a sua principal plataforma política: Joe Miller que construir um muro semelhante do de Berlin para evitar a imigração ilegal pela fronteira com o México.
A idéia do republicano radical, ao que parece, rendeu votos e ele está na disputa pelo cargo. Miller, que atuou como militar americano na fronteira alemã, perto de Frankfurt, disse que viu ‘in loco’ como o muro foi capaz de reduzir os movimentos e espera o mesmo para a divisa dos EUA.

Agosto

Chacina na fronteira do México com os EUA mata 72 imigrantes

Massacre das vítimas foi cometido por integrantes de cartel de drogas

Num ato bárbaro, traficantes de um cartel de drogas que atua no estado mexicano de Tamaulipas mataram 72 imigrantes, inclusive quatro brasileiros, que tentavam entrar ilegalmente nos Estados Unidos. As vítimas foram executadas num galpão destelhado de uma fazenda, próxima à fronteira americana.
O massacre expôs um dos maiores problemas da travessia ilegal pelo México, maior até que o perigo de ser apanhado pela polícia de imigração: a falta de segurança, já que o sequestro de indocumentados se transformou numa fonte adicional de renda para os cartéis da droga. O crime foi tornado público, primeiramente, por um equatoriano, Luis Freddy Lala Pomavilla, de 18 anos, que fingiu-se de morto para escapar dos narcotraficantes.
“Trata-se de um ato de barbárie sem precedentes no País”, afirmou na época um representante do governo mexicano, com relação ao assassinato dos 58 homens e 14 mulheres. Aquele, porém, não foi a primeira execução em massa promovida pelos cartéis da droga no México. Em maio deste ano, a polícia encontrou 55 corpos abandonados em um mina perto de Taxco, pequeno lugarejo ao sul da capital do País. Em julho, a guerra do tráfico provocou a morte de mais 51 pessoas em apenas dois dias e os corpos das vítimas foram deixados na periferia de Monterrey.

Janeiro

Brasileiro da Flórida é símbolo da luta dos imigrantes

Felipe Matos percorreu 1.500 milhas a pé para chamar a atenção para a necessidade da reforma

O carioca Felipe Matos é um dos símbolos da luta dos indocumentados pela reforma: ele faz parte do grupo de estudantes que percorreu, a pé, mais de 1.500 milhas (de Miami a Washington DC), para chamar a atenção dos congressistas e da população sobre o problema enfrentado por cerca de 10 milhões de imigrantes nos EUA.
A iniciativa, que recebeu o nome de ‘Trail of Dreams’ (ou ‘Caminho dos Sonhos’): “Este não é apenas o meu sonho, mas de milhões de pessoas cujas famílias estão sendo separadas em função de uma lei arcaica”, afirmou Felipe. Na caminhada, os jovens caminharam debaixo de sol, chuva e até neve. A jornada foi registrada no site www.trailofdreams.net e os estudantes conseguiram audiências com importantes parlamentares. O sonho da reforma ainda não se concretizou, mas certamente Felipe e seus amigos cumpriram um papel fundamental no esclarecimento sobre o tema.